Atividades transversais no LEPETS – Laboratório de Estudos e Pesquisas sobre formação e Trabalho em Saúde – na UNIFESP de Santos.
Com:
- Luiz B.Orlandi,
- Regina Favre
- Virgína Kastrup
Atividades transversais no LEPETS – Laboratório de Estudos e Pesquisas sobre formação e Trabalho em Saúde – na UNIFESP de Santos.
Com:

o CORpo a criAÇÃO o CONHECImento
a FORMAção a LUTA
a VIDA de TO
Mari Quarentei e Regina Favre
convidam para a retomada do projeto SOS-TO.
Continuamos no desejo de produzir conhecimento com o grupo, a partir da experiência da vida de TO, num ambiente de aprendizagem onde modos de transmissão e apropriação dos saberes se façam via ensinar, praticar, compartilhar, cuidar, acompanhar, cartografar e supervisionar.
Afirmamos a importância de um corpar conceitos
e de um fazer terapêutico ocupacional utilizando cartografias e metodologias do Processo Formativo e da Esquizoanálise através das quais vamos acessar e praticar o corpo que sente, pensa, fala, sabe, se emociona, se conecta, que se tece continuamente com o vivido produzindo ações, expressão, territórios,
vínculos, potências, sem nunca perder de vista o trabalho com os conhecimentos de Terapia Ocupacional como Produção de Vida, sempre afirmando e afinando uma episteme para a TO.
Vamos repetir o workshop com
novas datas: 24 de setembro, 29 de outubro, 26 de novembro de 2016

A gente se ama desde o primeiro instante de nosso encontro no início dos anos 80.
Vínhamos de experiências anteriores muito sintônicas na convicção de que os modos de existência são todos políticos, que esse é um campo de resistência incontornável e que
exercê-la é o que define a ética na condução da existência. Afirmávamos essa ética em campos distintos – uma no corpo e outra na palavra –, já que cada vida é tecida por experiências e competências singulares. Mas ambas atuávamos numa mesma perspectiva clínica e pedagógica.
Nossos padrões pessoais de funcionamento, no entanto, muitas vezas impediram a fertilidade das cooperações, evidentemente não só entre nós, mas no mundo. Com isso, processos de produção de vida foram muitas vezes interrompidos. Tal dificuldade só fez ativar em nós o desejo de tomar nas mãos o enfrentamento de tais padrões e sua decifração, de modo a ampliar a capacidade de respiração destes processos, identificando e problematizando como se interrompem.
Para isso, desenvolvemos diferentes estratégias de enfrentamento deste desafio e de criação de novas linguagens e modos de funcionamento que permitissem esta ampliação, e com ela, o poder de compartilhamento no mundo.
Esse é o trabalho de uma vida. Ao longo de nossas trajetórias a tão buscada oxigenação foi se ampliando, o que hoje nos permite desejar essa cooperação, confiar em sua possibilidade, criar condições para praticá-la e oferecer este exercício, como nos dispomos a fazer neste workshop.
Como vamos operar esse sábado:
Nossa experiência de compartilhamento e a inclusão do grupo nesse processo será a posta em prática das figurinhas que pretendemos trocar entre nós e com o grupo. São peças de um quebra-cabeças sobre como se produz o inconsciente colonial-capitalístico, na subjetividade e no corpo (as figurinhas de uma compondo-se com as figurinhas da outra).
E, sobretudo, como se produz resistência nesses dois âmbitos. A conversa será feita de palavras, diagramas, imagens e exercícios.
O encontro será videogravado, transcrito e postado em grupo fechado no Facebook.
Quem somos nós:
Regina Favre
Filósofa, psicoterapeuta, pesquisadora independente e criadora de linguagens audiovisuais para a captação e teorização do corpo subjetivo em seu processo de se produzir. Pioneira das psicoterapias corporais no Brasil e fundadora do Laboratório do Processo Formativo onde ensina e publica, juntamente com colaboradores.
Suely Rolnik
Psicanalista, pensadora da arte e de cultura, ensaista e, às vezes, curadora, é Professora Titular da PUC-SP, onde fundou o Núcleo de Estudos da Subjetividade no Pós-Graduação de Psicologia Clínica. Sua investigação enfoca fundamentalmente as políticas de desejo em diferentes contextos, abordadas de um ponto de vista teórico transdisciplinar e indissociável de uma pragmática clínico-política.
Data: 24 de setembro, 29 de outubro, 26 de novembro
Horário: sábado das 10h às 18h
Local: Laboratório do Processo Formativo
Rua Apinagés, 1100, cj. 507 – Perdizes
Valor: R$ 400,00 (metade na inscrição).
Inscrições: pelo fone 3864-5785 com Célia ou [email protected].
Vagas: 25
Imagens: Leonilson
Ao chamar de instalação didática o processo que mostro neste post, estou expressando em primeiro lugar, meu apaixonamento pela figura de Joseph Beuys, criador dessa expressão, bem como o sentimento profundo de me identificar com o espírito de sua arte, suas lousas, seu conceito de escultura social. E em segundo lugar, afirmo a necessidade absoluta do uso de um agenciamento estético para o ensino e o estudo do corpo, a formulação de uma anatomia aberta para a mutação, suas ações, sua potência, seus múltiplos ambientes, suas redes, seus processos de subjetivação. Mostrar a realidade somática em contínua produção de si e combater os clichês de saúde, beleza, poder, celebridade, eternização que apequenam sua funcionalidade e potência de singularização, é uma tarefa que requer um entrelaçamento delicado de linguagens e recursos expressivos.
Quando olhamos os diversos posts neste site, provavelmente, não nos damos conta da enorme quantidade de atividades e condições necessárias para a sua efetuação: propostas, recursos financeiros, tecnológicos e humanos, mobilização de alunos, sustentação de uma certa infraestrutura e muitos outros aspectos. Se apenas desejássemos descrever alguns momentos de um encontro dos seminários que acontecem no Laboratório do Processo Formativo e fôssemos enumerar tudo que estava ali compondo aquele presente onde os corpos estavam se formando em tempo real, visível e invisível, precisaríamos da competência de um grande romancista e de uma infinidade páginas para isso. Poderíamos, por exemplo, começar pelo salão de grupo, sua adaptação, os equipamentos, as instalações, as janelas antirruído espelhadas, o chão branco onde as ações normais das pessoas aparecem como esculturas de si, os fios, os chips, a iluminação, o grande mundo lá fora constantemente lembrado… Além disso, descreveríamos a ação do câmera, do relator, os sistemas de transcrição e gravação utilizados, as cartografias no quadro branco que chamo de ovo, as formas de exibição no telão, na televisão, no próprio ovo onde as imagens dos corpos podem ser redesenhadas e compreendidas em sua relação forma-função. O cabeamento, a internet de onde retiramos os mais variados vídeos de ciência, comportamento, arte, para compor com nosso ambiente cognitivo … os programas de edição que transformam o acontecimento captado em posts de imagem e texto finalizados que serão publicados no site ou que virarão hand-outs a serem retrabalhados e multiplicados nos grupos. Captações de imagem e texto, mais surpreendentemente ainda, que vão alimentar em tempo real, no Facebook, os grupos fechados de cada grupo onde os alunos encontram trechos de falas, cenas, fotos, teoria, diálogos do acontecimento grupal na instalação didática( que outras vezes chamamos de aquário) que poderão ser revistos, estudados e, democraticamente, utilizados por eles. Essa estratégia ágil, complexa e relativamente barata, enfatiza a evidência de que vivemos e formamos nossas vidas, continuamente, em ecologias… que somos parte não só de famílias, mas de redes físicas, afetivas, cognitivas, tecnológicas, políticas, sociais, informacionais. É esse efeito que busco com essa articulação de elementos heterogêneos que chamo aqui de instalação didática. O conteúdo não se separa do vivido, do registrado, das práticas, da própria instalação e das ações que sustentam essa produção. É tudo auto evidente. Esse é o acontecimento-seminário onde os corpos estão imersos. Desde os anos 60, quando eu ainda era quase uma garota, a frase lapidar de Marshall Macluhan nunca deixou de me impactar: a mídia é a mensagem. Nesse sentido, mostrar e enfatizar a instalação didática, suas mídias, seu agenciamento de recursos que ultrapassam infinitamente o indivíduo, expressa, afeta e ensina tanto quanto as cartografias que conduzem nosso trabalho, filosófico, clínico e pedagógico. Olhamos e imediatamente captamos… Ah, sim…e os corpos respondem a esse ambiente complexo e real… e é dessas respostas que extraímos a compreensão de corpo que é objeto do nosso estudo…. e assim vamos…
É necessário praticar e compreender o corpo como bomba pulsátil e aprender a se reconhecer como parte de múltiplas ecologias, saber-se um corpo na multidão, sensibilizar-se para a inteligência coletiva. Mas todos esses conceitos ou, mais precisamente, essas evidências, não podem ser apreendidos, descritos, expressos em seu movimento de devir, apenas intelectualmente. Eles só se apresentam pulsantes numa captação entrecruzada, num feeling, num ato de concretude da presença física… Veja o post Presença neste site. Mostrar a inteligência coletiva da instalação didática e o desdobramento das estratégias, práticas e produtos no acontecimento grupal nos ensina diretamente que estamos, sempre, dando corpo ao vivido e formando os ambientes de que somos parte. E que, consequentemente, é possível dissolver o individualismo exacerbado do capitalismo contemporâneo em nós, amadurecer nossas formas de conexão, formar comportamentos e modos de funcionar em cooperação, como parte de processos maiores… ser corpos na multidão, medusas nos mares, bombas pulsáteis… bombeando, pensando, agindo e produzindo nas redes que evidentemente são a nossa realidade…
Extraí o conceito de bomba pulsátil da Anatomia Emocional de Stanley Keleman. Em muitos posts neste site, desenvolvo a visão desse design evolutivo ampliando-o para as condições da nossa vida no ambiente global, como corpos na multidão cuja funcionalidade reside na contenção de si, na autonomia e na alta conectividade. Os corpos se produzem numa embriogênese continuada, se tecem a si mesmos como um dentro e um fora, uma superfície e uma profundidade. As bordas contém a excitação do vivido imerso no acontecimento. Os corpos se fazem em ambientes-acontecimento ao longo de sua história formativa, em gradientes de mais ou menos consistência, mais e menos excitação… Os corpos se configuram com os tecidos, evidenciam mais ou menos amadurecimento, mais ou menos potência de absorver o acontecimento presente e formar estruturas mais ou menos precisas com o vivido. Os corpos mostram claramente o que vivem. Os corpos quanto mais finamente conectados com os elementos e fluxos que se condensam em seu presente, quanto mais bombeiam suas ecologias, mais potentes se fazem… O COMO é a chave para compreendermos as ações dos corpos e para nos reconhecer como corpos, como fazemos o que fazemos com a nossa forma para sustentar presença. Nosso trabalho de vida é estruturar nossos modos de funcionar em relação ao presente, de modo singular, no embalo auto-produtivo dos corpos. Aprender e praticar. Não por uma razão moral, mas porque, bem articulada e em formas mais atualizadas, a vida se canaliza e funciona melhor em nós e nas nossas ecologias. A prática intencional do embodiment é a arte da pessoa comum. No exercício da bomba pulsátil combinado com a prática do COMO, aprendemos a manejar as bordas, atrair os ambientes com o vácuo interno, absorvê-los e bombeá-los de volta como expressão conectiva de si. O reconhecimento e manejo das bordas e da excitação são centrais para o amadurecimento da nossa real condição como parte dos processo maiores. Nosso alfabeto é binário: expansão e contração, em amplitudes e formas quase infinitas. Crescemos ao longo da vida, podendo complexificar da fusão para a cooperação… da dependência absoluta para a autonomia cooperativa… esse conceito psicológico, politico e biológico ao mesmo tempo, é um conceito que só existe quando praticado. As intervenções, como veremos abaixo, acontecem nos encontros grupais não como uma prática clínica em si mesma, mas como uma ajuda para que um corpo possa ir se alinhando cada vez mais finamente com o processo formativo que prossegue. Nossa mestra é a medusa. Veja o vídeo Embodiment en Buenos Aires neste site.
Aluna – tenho dificuldade de ficar com meu corpo. É muito difícil. Prefiro não pensar… muita informação… é muita loucura… forças muito opostas … uma superexcitação…
Regina – põe os pés no chão… Aluna– me conforta ficar espremida, estou sempre com a mão perto da boca. Regina – você foi ganhando intensidade desde o seu trabalho no grupo de anos atrás. Daquela profundidade vazia que você pode vivenciar com as imagens que produzimos naquela época, você foi se enchendo de intensidade, de excitação… atualmente, parece que você está produzindo e administrando intensidade de outro modo. Aluna – me sinto muito mais forte e presente…
Regina – naquela época o que havia era um corpo de carência, mais para esvaziado de si… isso é o que atravessava aquele trabalho… e, lá, você termina pegando a vida com força… são as últimas imagens daquele registro. Hoje a questão é outra… você não dá conta de modelar inteiramente a sua intensidade com as suas bordas e sente vergonha. Aluna– Sim. Tem uma superfície tímida (mão que esconde a boca)… mas aqui eu quero… me percebo transbordando e não sei o que fazer.
Regina – vamos experimentar fazer esse movimento grande… senta grande… espaço… você vai saborear grande essa onda que vai para fora e para trás… a bomba do tórax… contrai intencionalmente e deixa expandir sozinha. Você está querendo muito da vida… quero mais quero mais… assume isso para você… tudo… torna clara a ação para você a partir da bomba pulsátil, bombeando no ambiente….(boca e braços se abrem grande… expansão) quero pegar a vida com tudo.. mãos… boca…
Aluna– já estou feliz…. assim fica tudo bom…
Regina – sustenta esse pulso dentro, deixa acontecer a intensidade aí para viver a experiência que te cabe viver.
Aluna (chora) – isso dói… agora preciso me confortar… Aluna conforta-se
Regina – sim, fazendo esse travesseirinho de mãos… assim você se toma de volta… conforta-se… do grande esforço emocional que é só conseguir expandir com a forma que você é atualmente…
Regina – desta vez, você está podendo retirar-se e confortar-se… ir e voltar… você está começando a organizar essa contração na sua forma cuja tendência, ainda imatura, é sobretudo, expandir … nessa aprendizagem em que você se capta expandindo sempre, você descobre a volta sobre si, começa a criar contração e formar mais tônus de superfície.
Aluna – é muito bom saber que posso ir e voltar…
Regina – sim… você começa a se chamar de volta… volta aqui… expandir sobre o ambiente e agora voltar… cuidar-se… acolher-se… são ações da bomba pulsátil em seu processo de amadurecer, completar o ciclo de expandir e contrair, alimentar intensidade, fortalecer bordas…
Aluna – sim, foi bom fazer isso.
Relatora– no registro dela, em outro grupo, anos atrás, havia também esse gesto de segurar o rosto para se reconhecer. Hoje, isso se esboçou de novo. E em seguida, surgiu o gesto de se confortar. Na construção da contração, ela agora tem dois gestos: reconhecer
…os gestos, as modelagens experimentais da bomba pulsátil, os verbos, os diversos sujeitos dos verbos, construindo quem ainda não somos, praticando nossa arte de pessoas comuns, em nossas instalações existenciais…
Regina Favre
Julho, 2014

Em 1964, ano do Golpe Militar, eu tinha 21 anos e estudava filosofia na PUC de São Paulo. Minha primeira filha nasceu nesse ano. Mas já em 1966, J. A. Gaiarsa anunciava para o mundo brasileiro, em uma pesquisa da Revista Realidade, leitura imprescindível para pessoas esclarecidas, como já se comportava a juventude diante do sexo, depois da introdução da pílula anticoncepcional. Uma metamorfose se anunciava para a classe média brasileira. Nos filmes de Goddard, que eram assistidos em transe no cine Marajá da Rua Augusta, corpos e comportamentos parisienses de jovens sexuados e politicamente rebeldes, convocavam identificação e mudança. Caetano Veloso, chamava para algo semelhante, no Brasil, com Alegria, Alegria, em 1967. As forças conservadoras apertavam e destruíam as vidas, mas havia, ao mesmo tempo, uma outra força que tirava todas as coisas do lugar irresistivelmente.
Fui de imediato contaminada por aquela força.
A garota rebelde, desadaptada socialmente no ambiente da classe média dos anos 50, precocemente sexuada para sua época, encontrava seu cardume.
A cada dia uma nova mudança de visão das coisas e de comportamento se apresentava. E finalmente fui tragada para dentro da imensa onda que se formara no Brasil. Mas a identificação com os valores da Contracultura só veio um tempo depois.
Em 1970, eu tinha 28 anos, estava casada e já tinha duas filhas pequenas. Nesse ano, o corpo começara a entrar em cena no Brasil com o famoso Congresso de Psicodrama que acontecera nesse mesmo ano no MASP e Gaiarsa, em seu consultório, na esquina da Rua Araújo com a avenida Ipiranga já praticava grupos terapêuticos. Esse foi o ano do sinistro Campeonato Mundial de futebol em que o Brasil foi campeão.
Os grupos do Gaiarsa acolhiam as pessoas nesses tempos terríveis. Lá as pessoas se encontravam, pela primeira vez viviam em seus corpos, falavam de si, experimentavam emoções, dramatizavam sonhos, comportamentos e situações de vida. Era tudo muito intenso e cheio de sentido. Na calada das noites da Ditadura e na intimidade dos ambientes fechados, começava ser tecida uma cultura psi que viria a transformar a subjetividade da classe média brasileira.
Há um livro, escrito anos depois por Lucy Dias, na época, jornalista da Editora Abril, celeiro de um estilo militante e livre de ser, para homens e mulheres, naqueles tempos negros da Ditadura, que se chama “Enquanto corria a barca”, evocando, sugestivamente com esse título dos Novos Baianos, a velocidade da mudança que já deslizava rio abaixo. Na capa rosa, a foto-montagem de um jovem, metade guerrilheiro, metade hippie, já dizia tudo sobre aquele momento. Naquele inicio de década, havia um corpo, a ser desconstruído e remodelado, na luta armada ou no desbunde.
Percebi ali que para não perder o pé no desmanche cultural que se apresentava, urgia fazer uma mudança corporal em relação ao que me havia antecedido: como ser mulher, como estar na onda das mudanças políticas e de novos comportamentos, como reativar uma juventude tão precocemente capturada para dentro de um modelo conjugal, onde encontrar forças para sobreviver com as filhas fora do casamento. Vi com os olhos da sobrevivência que me cabia fazer uma conversa profunda com aquele modo de me usar corporalmente para estar no mundo. Nessa imigração para longe de um certo mundo mais instituído, mais familiar, em 1970, era o corpo que me guiava. Não podia mais ser de outro modo. Seria o corpo e seu uso que eu deveria abordar para acompanhar a rota da história.
Ao me colocar a questão do corpo, a questão da imagem se colocou logo em seguida. Assim que comecei a lidar com o corpo, me reconhecer como um corpo que se comporta, passei a buscar tudo aquilo que estava disponível naquele momento para agenciar essa transformação. As novas práticas estavam começando a chegar via argentinos, os mesmos que introduziram em São Paulo o Psicodrama moreniano de que me tornei logo usuária. Estes, soube bem mais tarde, foram os primeiros da América Latina, a frequentar o ambiente californiano onde o Movimento do Potencial Humano despontava. Foi através deles que primeiro tive notícia do que se passava em Londres.
Em 1970, todo mundo fotografava muito, captando a beleza selvagem dos corpos que despontava com a Contracultura. Revistas como o Bondinho agregavam fotógrafos inovadores. Essas eram revistas surgidas na esteira da revista Rolling Stones. O rock revelou grandes fotógrafos que registravam as expressões em movimento, o comportamento em transformação. Comecei também a fotografar. As crianças também fotografavam em casa o nosso quotidiano. Tudo era significativo e vivíamos uma aventura naquele inicio dos anos 70 embora o horror estivesse a dois passos de nossas vidas.
Do Tropicalismo, para o contato com Gaiarsa e seu espaço de psicoterapia e experimentação grupal na Rua Araújo, para o mergulho na Contracultura, no Psicodélico e no Zen, foi um salto. Nesse movimento, mudanças corporais imensas estavam sendo convocadas e um mar de imagens corporais, sendo disponibilizadas, pela nova cultura jovem americana. A mutação a ser operada era muito grande em relação àquele modelo da vida dos anos 50 e 60. Esse imenso volume de imagens, sobretudo a paixão por elas que se instaurara, foi fundamental para que os corpos pudessem se desconstruir e se reconfigurar por identificação, com uma outra moda, outros comportamentos, outra atitudes, outras práticas de relação familiar, amorosa, sexual, de trabalho, de dinheiro, de grupo, tudo, tudo.
O “como fazer” cada um desses comportamentos era explícito nas imagens. Os corpos fotografados dessa nova cultura, se mostravam habitando completamente a si mesmos, e não mais se posicionando dependentes do olhar da câmera. A celebrada “naturalidade americana”, a confiança no “direito de ser quem se é”, se apresentava como um novo modo de existir a ser conquistado.
No Brasil, com as novas mídias que começavam a aparecer, então, jornais e revistas independentes, o cinema marginal, as capas de disco, a poesia de mimeógrafo, contaminando as vidas com uma poética da fragilidade, sentia-se o risco e aprendiam-se nas novas formas e usos dos corpos, as novas estratégias existenciais.
O mundo das psicoterapias que despontava era o ambiente da mutação para a classe média. Lembremos que o curso de psicologia em São Paulo, a essa altura, existia há menos de cinco anos, mas a mudança de perspectiva que isso operou na cultura psi preexistente foi radical. As terapias se apresentavam para uma certa classe média, como eu, que se marginalizava, como a única maneira de suportar a desterritorializaçao violenta em curso e os grupos, sobretudo, passam a ser referencias nessa migração. Anos depois, escrevi um poema que me retrata nessa época.
Advertimes
Fui publicitária, redatora,
no tempo em que a Tropicália nos autorizava
a fazer estripulias fora da realidade do mercado,
que despontava sob nossos olhos, no Brasil.
Quando ainda se acreditava ser possível
fazer intervenções criativas na mídia,
burlando a própria mídia.
No tempo em que nossos heróis eram guerrilheiros.
No tempo em que os jornalistas
inventavam modos de passar noticias codificadas.
No tempo em que estávamos debaixo da ditadura militar
e havia a barra pesadérrima da repressão.
No tempo em que existia esquerda.
No tempo em que muita gente
que andava pelas agências de publicidade
era gente que vinha da área de humanas.
Gente que ia em passeata.
Gente que sonhava ser poeta,
artista, fazer cinema, escrever romance,
quem sabe voltar para as ciências sociais.
Alguns que militavam ou haviam militado em algum momento.
No tempo em que trabalhar com publicidade
não era vergonha para a oposição.
Gil tinha trabalhado com pesquisa de mercado na Gessy Lever,
Capinam era publicitário, Macalé fazia jingles,
Décio Pignatari brincava com a linguagem midiática.
No tempo em que Janis Joplin, a plenos pulmões,
animava nossa revolta e a imprensa nanica
nos ajudava a tirar sarro da desgraça.
Eu sentia fazer parte da esquerda criativa
e metia o pau no “sistema”, o dia inteiro,
na agência, com o pessoal.
Era o tempo em que as motos japonesas estavam chegando ao Brasil e eu tinha uma.
Montada nela, singrava o trânsito olhando a cidade ,
vendo pessoas de mil mundos levando suas vidas,
panaméricas de áfricas utópicas ,
enquanto refletia sobre o mercado
e apreendia as regras do jogo da massificação.
Trinta anos, filhas pequenas na garupa,
em meio a muita angústia, medo, o chão fugindo debaixo dos pés vertiginosamente,
vontade de experimentar, muita excitação, o olhar para além da família,
atravessada por todos os lados.
Foi nesse trecho de vida que comecei, já meio tardiamente,
a enxergar os jogos de força
no processo formativo
do tecido social e agir considerando-me como parte.
Nesses anos cruciais para o Brasil.
Exilar-se existencialmente em Londres, na rota de Caetano e Gil, foi o passo seguinte. E lá, conectar-se com um mundo onde se estava cultivando uma resistência cultural às novas forças do capitalismo que se expandiam, pela celebração do corpo e sua potência, em vez de submetê-lo à violência da Ditadura e da moral cristã, como se fazia em nosso mundo colonial brasileiro, foi finalmente o passo sem volta.
Era aguda a consciência de que uma aniquilação cultural acontecia no Brasil e que a nova colonização do planeta estava se dando em inglês. Meu coração era uma terra seca e eu andava pelas ruas cantarolando Luiz Gonzaga, como Caetano.
Mas ao mesmo tempo, como uma chuva, a nova língua estava sendo absorvida, umedecendo e fertilizando um rebrotar. Escrevo meus diários em inglês, absorvo os verbos e as expressões idiomáticas da nova cultura como se fossem uma língua sagrada, as ações emocionais do corpo são nomeadas em inglês, falo de sentimentos e experiências em inglês nos grupos, faço terapia em inglês, choro, grito, me desespero em inglês.
A cultura com a qual passei a lidar e lutar, para o bem e para o mal, numa infinita antropofagia tropicalista, nos quarenta anos seguintes, estava plantada.
Regina Favre, Junho 2016.
Como é interessante enxergar as ações pequenas para entender o fluxo do sentimento, do vínculo, no processo em andamento. Como é forte a hora em que se vê uma mão que se fecha, quando acontece o oscilar de um pé para o outro, a hora em que a boca fecha e abre, que o pescoço cresce e diminui… como isso mostra uma força viva, um pulso, um forma de bombeamento de si no ambiente, com modos estruturados somaticamente de conter em si mesmo a excitação biológica dos encontros.
Estou pensando no exagero motor que existe atualmente em torno da questão do corpo. Os corpos quase viram do avesso para realizar uma performance. Ou, na verdade, para sentirem que existem no visível.
O que procuro mostrar aqui é tão Deleuze em seus conceitos de imagem-tempo e imagem-movimento.
A gente aprende, ao criar uma profundidade somática para a própria forma, a ver as sombras do desejo se movendo no cristal líquido dos corpos… isso é muito diferente das grandes cenas.
O que está sendo enfatizado atualmente como corpo é o corpo muscular. Esse tipo de movimento over produzido no espaço pelas camadas musculares serve a uma dependência da visualidade, gerando uma qualidade histérica da ação.
Quando a gente consegue se manter no pequeno, editar o pequeno, ampliar na tela as imagens de um olhar lentificado, a gente pode enxergar os esboços das expressões e reconhecer os pequenos controles motores subcorticais, indo e voltando nas sequências das formas que se desencadeiam… e imitá-las, mirando-se nelas, lentificando-se, decupando nossas ações ao vivo, desafiando o medo de perder a forma visualmente validada.
Daí, sim, a gente entende, capta, o movimento do desejo formando as conexões, as conexões internas de novas formas, de novos fotogramas de si, de novas direções e conexões externas, nas variações que vão se estabelecendo.
Nessa oscilação que Deleuze chama de “gagueira”, está se construindo algo outro, gerando-se variações de comportamento.
É o que importa. Só assim a gente produz diferença. E diferença não é um luxo, mas uma adaptação própria, mais fina, ao acontecimento.
Deleuze distingue isso nas ideias de imagem-tempo e imagem-movimento. A imagem-movimento se faz diretamente no espaço buscando o efeito dela. Às micro ações sobre si mesmo que geram aparições no espaço, bombeamentos ou pulsos de si, ele chama de imagem-tempo. Com esses conceitos, Deleuze está se referindo ao cinema: os filmes e seus poderes sobre nós.
A visibilidade de um corpo é resultante de ações no campo da gravidade de ações regulatórias sobre si. Essa aparição de um corpo pode ocorrer pelo uso de si apenas a nível de camadas musculares gerando desenhos de si a partir de modelos visuais.
Mas a aparição pode ocorrer (e isso é o poético, o poiético) como uma emergência do pulso profundo expandindo-se em ondas na superfície corporal como uma configuração efêmera.
O pulso profundo é a excitação biológica de um corpo face o acontecimento presente.
Regina Favre
Março, 2016

C – Eu queria tentar entender o que é o lugar do mais formado. Eu tenho a sensação às vezes de que você já sabia da questão do C, da minha questão, da S… não sei muito se pelos corpos ou como por onde a coisa vai se apresentando… quero entender como você vai conseguindo tecer esse direcionamento, a condução de uma ação formativa… a hora que você propõe de entrar nessa relação aqui…. ele escolheu A… não tinha como ter sido outra melhor escolha, a que chama a mãe… ai, você está ali e me chama para esse lugar da garota do grupo que vai trazer outro pedaço das forças em jogo… fico querendo entender como você vai construindo esse raciocínio clínico…
Regina – sei onde estou navegando… em várias cartografias ao mesmo tempo, navego em muitos programas, mas quem costura as passagens é a experiência clínica… que me permite fazer intervenção…
C– depois você vai conseguindo contar.. seu pensar isso… e a gente sai mesmo de uma visão individualista e consegue construir uma ideia da vida no social… se fazendo sempre… acho belíssima essa forma de intervenção clínica , e fico querendo entender melhor … sei que não tem como… é uma experiência clinica gigantesca…
Regina– são várias coisas associadas… tenho uma certa familiaridade com o corpo de cada um, não tirei da cartola nada, conheço cada um de várias maneiras, de vários lugares, tenho um vinculo com cada um , curtindo o processo de cada um, me relacionando com cada um…. interessadíssima em cada um… me interesso genuinamente por cada um, isso é um fato absoluto, líquido e certo. Tem uma parte, sim, que é o vínculo, que vai do mais formado para o menos formado. Eu assumo a minha idade, a minha experiência, a minha trajetória e me incluo nesse lugar nas vidas das pessoas que estudam ou se tratam comigo, tenho uma coisa com cada um singular de verdade, com cada um do seu jeito, na sua medida, com suas camadas formadas pela vida. Quando estou com um grupo de ensino, tenho um grande investimento em compartilhar e ensinar as minhas cartografias, biológicas, históricas, sociais, políticas, do desenvolvimento, do vínculo, da anatomia emocional e as referências que vou entregando, dos meus autores, dos meus filmes, livros, histórias, do meu uso da internet, entrego as minhas referências…. e a Lili, ali, transcrevendo ao vivo…compartilhando no facebook secreto, simultaneamente…
Regina– e para exercer essa minha ação do mais formado para o menos formado, entrar na situação de ajuda para que aquele corpo subjetivo amadureça um pouco mais, se organize um pouco mais para estar no presente e conseguir canalizar aquele seu presente para dentro do coletivo, melhor e mais finamente, quem é convocada é a clínica. Parece que eu faço verdadeiras cirurgias.
Aí é que começa uma ação muito precisa. Sei o que está acontecendo anatomicamente, biologicamente, do ponto de vista do desenvolvimento do processo morfogênico, naquela embriogênese continuada daquele corpo em particular. E enxergo o que está acontecendo. Isso é a experiência e é uma experiência viva. Tem a dimensão estética de uma pesquisa, ver como os corpos fazem o que fazem. São as várias camadas ativadas, transitar entre elas, mudar de um registro pro outro… conectar-se com cada uma e convocar sua expressão… por isso não dá para fazer essa ação com muita gente, grupos muito grandes, apenas mobilizando genericamente…
M – é a percepção do outro e ,naquele ponto, ele mesmo vai se percebendo e se apropriando dessa linguagem…
Regina– Isso permite que ele se reconheça. Então, vou conversando com a autoagência do outro, com a capacidade de o outro fazer conexões neuromotoras, esperar que os afetos se desprendam da fáscia, se regulem através dos músculos, se orientem na formação de novas camadas de contenção e expressão de si… manejar na relação a excitação, o timing de cada processo… algumas coisas são rápidas, algumas se dão através da imagem, outras através da sustentação que gera mais firmeza. Várias intervenções que se fazem no processo formativo dos tecidos e que vão se organizando junto com o desejo, com a força da vida para prosseguir, dentro daquela história formativa. Disponibilizo e tenho o maior investimento em que as pessoas captem, aprendam, façam e passem a reconhecer e a experimentar na própria vida, nas relações e ações. Fico contente de poder fazer isso com clareza.
A – durante o tempo do nosso processo de grupo, foi importante para confiar no trabalho de si o fato de você fazer esse trabalho com você também, com muita clareza no espaço do grupo… isso dá uma confiança…
Regina– o trabalho formativo não é confessional, a gente compartilha o processo formativo de si e tem que se fragilizar para prosseguir na construção de um campo. Me recuso ,na medida do possível, a me mostrar idealizada…. uma forma acabada…. ser a dona de uma marca…. me recuso a vender uma verdade… o mercado solicita isso, que a gente vire marca, para poder reproduzir e lucrar, fazer vencer um produto, ser imitado e nunca igualado… isso que fazemos aqui é agir na contramão do mercado… confiar que a gente não precisa impor nada para as redes de conexões crescerem… é possível isso…
C– para mim, o pulo do gato é quando a gente consegue perceber você fazendo, mostrando e afirmando com a sua ação que você precisa se regular para não engolir o grupo, por exemplo…. várias vezes a gente viu você fazendo isso .. isso tira você desse lugar idealizado…e a gente pensa: ela luta com isso na forma dela…
Laboratório do Processo Formativo 2016
Regina Favre

Nos últimos muitos anos tenho pesquisado e desenhado ,com a contribuição preciosa de muitos colaboradores e alunos, cartografias imagens, sensibilidades, conceitos e estratégias para a captação da vida se fazendo nos ambientes e corpos. Nosso continuo viver são performances dos nossos corpos biológicos que crescem, se moldam, se agregam e se conectam, do nascimento à morte, em ambientes coletivos que são físicos, afetivos, linguísticos, comportamentais, políticos, sociais… performamos, vivemos , amamos, sofremos, produzimos, crescemos, morremos em ambientes que são coletivos… somos condensações de forças infinitamente maiores que nós. Entretanto podemos selecionar, recortar, modelar e cultivar com intencionalidade muscular, formas somáticas que produzam diferenças e sentidos que se expressem no visível, se conectem com outros corpos e fluxos presentes, se compartilhem. Aí reside a nossa arte da pessoa comum.
Dentro do nosso programa SÁBADOS, no dia 27 de fevereiro, desejo oferecer, juntamente com Beto Teixeira, a experiência de cartografar nosso imaginário deste ano de 2016 que se anuncia, desenhar como imaginamos nosso funcionamento nesse ano, identificar e selecionar as formas de ser e fazer que pedem passagem, aprofundá-las, muscularizá-las, praticá-las, gerar pequenas coreografias e cenas dançadas com elas… como se fossem fragmentos de sonho
Quem é Beto Teixeira: Um amor pela criacao de Pina Bausch nos aproximou inicialmente. Beto é bailarino, terapeuta corporal em consultório particular e acompanha, há alguns anos, a companhia de Pina Bausch em algumas turnês na Europa…. Desde o ano 2000, vem estudando, pesquisando e trabalhando comigo. Num certo momento deste percurso, concebemos e começamos a praticar a idéia de Dança Formativa com que vamos trabalhar neste workshop.
Regina Favre
Filosofa e psicoterapeuta,
desenvolve dispositivos audiovisuais de pesquisa do corpo subjetivo,
ensinando e publicando, dentro de uma perspectiva formativa.
Data: 27 de fevereiro de 2016
Horário: sábado das 10 às 18h
Local: Laboratório do Processo Formativo
Rua Apinagés, 1100, cj 507 – Perdizes
Valor: 330 reais (metade deste valor na inscrição)
Inscrições: pelo fone 3864-5785 com Célia ou [email protected].
Vagas: 20