Venha aprender com a Regina como é ser você-corpo

assimilar a linguagem do corpo e praticar a corporificação em grupo
“Uma avalanche diária de noticias, evidências e experiências nos mostra que há uma mudança avassaladora, no Brasil e no mundo, desarranjando fortemente nossas vidas. Em outras palavras: os ambientes a que estamos adaptados, sejam família, classe social, trabalho, relações, conhecimento, tecnologias, dinheiro, politica, futuro, estão rapidamente tomando outras configurações que desafiam os modos e comos sustentamos conexão com a nossa própria configuração pessoal e com os acontecimentos que compõem nossa realidade. Esses tempos de rápida trans-formação pedem know-how para que possamos compor novas formas adaptativas de seguir o curso de nossas vidas, gerando e sustentando ambientes”.
Estou propondo um exercício semanal em grupo onde:
- Vamos nos sensibilizar para enxergar os acontecimentos onde estamos imersos como paisagens em continua mutação, mais ou menos rápida, e cartografar, coletivamente, esses acontecimentos que constituem nossos ambientes, pequenos e grandes.
- Vamos ao mesmo tempo, praticar a Anatomia Emocional enquanto corpos individuais imersos nesse jogo de forças coletivo, aprendendo a lógica evolutiva das formas nos ambientes, tais como os vivenciamos neste momento.
- E vamos experimentar a diferença nas novas disposições emergentes dos corpos no espaço, a cada vez.
A Anatomia Emocional, formulada por Stanley Keleman em 1986, traduzida, pesquisada, ampliada, praticada e ensinada por mim por quase 30 anos, oferece uma visão do corpo individual como um processo onde as forças da Evolução prosseguem.
A Cartografia é uma estratégia criada por Felix Guattari, utilizando-se de muitas influências, que nos permite captar as forças atuantes na composição do presente, verdadeiro ambiente onde estamos imersos.
Esse modo de exercício grupal, sua lógica e sua estética tem sua remota origem nos anos 70, quando introduzi no Brasil os Grupos de Movimento que tinham, na época, um forte cunho micropolítico.
O corpo que somos nós, e que traz a potência adaptativa em seu DNA, precisa ser ativado, instrumentalizado, praticado e ter reconhecido o sentido de seus comportamentos anatomicamente estruturados, seu design, no dizer de Darwin.
O exercício visa problematizar nossos modos de funcionar e trazê-los para o presente, numa combinação fina de micromovimento e linguagem.”
Regina Favre
Sobre o Grupo de Exercícios: uma arte do embodiment
O exercício, para mim, hoje, deve dizer respeito à aprendizagem das ferramentas para o embodiment, porque com a prática intencional do embodiment podemos produzir singularidade. As singularidades são respostas únicas ao vivido. Singularidade diz respeito ao presente. É importante aprender a preservar (estabilizar somaticamente) respostas que funcionam.
Hoje, o ambiente dos corpos não é mais a natureza nem só as relações interpessoais dos pequenos ambientes, mas o mercado que é global. Nascemos, vivemos e morremos no jogo de forças do mercado. E o mercado, diferentemente das forças do poder moral das famílias e das instituições, não vigia e pune como antes, mas exerce uma captura das forças formativas nos corpos.
O mercado age diretamente sobre as forças da vida, sobre o desejo nos corpos. A produção constante de imagem e sentido onde estamos imersos é a própria expressão do mercado. Ele inunda e encharca continuamente nosso espaço somático, agindo através de um duplo jogo: a ameaça de exclusão e a oferta de configuração da nossa forma que continuamente se desfaz sob o efeito da velocidade dessas forças. A ameaça de exclusão significa a desconexão das redes que formam nossa realidade global.
O embodiment diz respeito ao processo de produção contínuo de um corpo com material ambiental e as forças formativas do vivo. A arte do embodiment diz respeito ao uso formativo de si enquanto bomba pulsátil imersa no acontecimento.
Agora em sistema digital
Quando: sextas feiras
das 9h00 às 10h30
Valor: R$ 280,00 por mês
Local: Laboratório do Processo Formativo no Zoom.
Inscrições: whatsapp 11-994881700, com Regina
Multiplicação de fragmentos – uma roda de conversa

Cada vez mais os leitores aceitam identificar-se com a experiência do homem sem fama, do homem comum que por acaso capta e relata a própria historicidade (matéria que não se ensina na escola). De certa forma, muitos de nós voltamos ser contadores de histórias.” (Anna Veronica Mautner)
Daisy Perelmutter e Regina Favre desejam reunir pessoas para a experiência de ler e conversar sobre o livro Fragmentos de uma vida de Anna Veronica Mautner. O fragmento alheio tem o poder de disparar nossa memória afetiva impulsionando o esforço oral e corporal de revelação de si por meio de detalhes sensíveis, em direção à construção narrativa de mais fragmentos que por sua vez, continuarão a se multiplicar, ecoando em outras narrativas, em outras redes. Não é imprescindível a leitura prévia. O livro se encontrará à venda no local do encontro.
Quem é Anna Veronica
Nasceu em Budapeste, imigrou aos 3 anos para o Brasil no limite do inicio da Segunda Guerra, criou-se em São Paulo, estudou Ciências Sociais na USP-Maria Antonia, conviveu com toda a geração dos sociólogos e filósofos que marcaram a esquerda paulista, foi jornalista no Última Hora e nos Diários Associados, foi professora da USP e da GV, conviveu com J.A.Gaiarsa, fundou o curso de psicoterapia reichiana no Instituto Sedes Sapientiæ, formou-se psicanalista na Sociedade Brasileira de Psicanálise, clinica há quase 50 anos.
Quem é Regina Favre
Filósofa (PUC/SP), psicoterapeuta em consultório há mais de 40 anos, professora e pesquisadora independente do corpo subjetivo. Vem desenvolvendo com grupos nos últimos 20 anos no Laboratório do Processo Formativo, estratégias de captação audiovisual, estudo e experiência desse corpo, sua anatomia, sua oralidade, sua performatividade, suas dramaturgias e narrativas, sua historicidade, suas políticas de corporificação e visualidade.
Quem é Daisy Perelmutter
Historiadora e socióloga com especialização em História Oral. Doutora em História Social e Mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP. Trabalha há mais de 30 anos na interface entre narrativas de histórias de vida, memória social e processos de produção de subjetividade. Engajada com vários projetos de história institucional, história de famílias, história de bairros, história de comunidades, pesquisa para instituições museológicas e documentárias.
Data: 30 de junho
Horário: das 10h às 14h
Local: Laboratório do Processo Formativo – Rua Apinajés, 1100, cj 507, Perdizes
Valor: R$ 50 (inscrição simbólica)
Inscrições: [email protected]
Vagas: 20
A Lógica dos Corpos em Presença: Marielle, o Reflexo do Susto e as Micropolíticas para Assimilar o Brasil Atual*
A Lógica dos Corpos em Presença é um grupo formado por profissionais de saúde, de várias áreas, que se reúnem mensalmente no Laboratório do Processo Formativo, na capital paulista, para discutir casos, situações e outras questões do fazer clínico. Existe há um ano e meio, coordenado por Regina Favre e Liliane Oraggio, que ansiavam criar um espaço para ampliar a experiência de si que reverberasse o fazer artesanal dos processos terapêuticos, com base na transversalização dos conceitos e práticas do Processo Formativo (Keleman/ Favre).
Nesse período, o cenário político mudou rapidamente, o golpe instituído se adensou, o desmonte dos dispositivos de saúde pública foram se pronunciando e as demandas surgidas em consultórios particulares e nos atendimentos públicos – Residências terapêuticas, Centros de Atenção Psicossocial, Escolas Públicas, Clínicas Sociais – passaram a ser mais densas e graves. A realidade convoca a todos nós, profissionais do cuidado, a tornar nossa ação clínica uma micropolítica de resistência tentando manter a trama do coletivo, capaz de continuar produzindo corpos, vidas e diferença, apesar do caos e das incertezas.
Nesse sentido, cada encontro de A Lógica dos Corpos em Presença tem sido, além de um desafio para abarcar as questões trazidas, uma oportunidade muito especial para a produção do pensamento, expressão, incorporação dos acontecimentos na nossa vida e na vida das pessoas com quem trabalhamos. Isso acontece não apenas na conversa, mas vivenciando nos corpos as respostas emocionais, pesquisando-as, dando forma física a elas, isto é, editando comportamento e sentido, o vivo — ao vivo. Muito além do autoconhecimento, da análise do baú de memórias, das intervenções baseadas em conceitos e “belas palavras”, a clínica hoje convoca para intensificarmos a compreensão de quem somos, do que vivemos e como fazemos o que fazemos, como parte de um tecido social que insiste em esgarçar.

Essa percepção foi ficando mais nítida a cada experiência de A Lógica dos Corpos em Presença, grupo aberto, com um núcleo estável e muitas presenças flutuantes. O próprio encontro nos acolhe na solidão do choque e nos conecta com outros pares, no lugar privilegiado que é o Laboratório do Processo Formativo, em que o skyline de São Paulo é moldura constante e não nos deixa esquecer que podemos experimentar um ambiente protegido, não como um bunker, mas como uma pausa, um lugar para respirar, juntar forças, organizar a compreensão e os comportamentos mais afinados com o presente, retomar o pulso e voltar à conexão exigente da vida contemporânea, caótica, exacerbada pelo cenário político e econômico regressivo, autoritário, opressivo, com perspectivas limitadas e limitantes.
“O reflexo do susto foi salvo pela Evolução: ele isola o corpo do acontecimento preservando-o nas situações perigosas. No susto, o corpo se encapsula em si mesmo de modo a não ser avassalado pelas intensidades excessivas”
No domingo, 25 de março de 2108, aconteceu mais um encontro e como não poderia deixar de ser a experiência que prevaleceu foi a nossa reação à execução da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ). O encontro aconteceu apenas dez dias depois do choque. Ainda na digestão do acontecido, ainda na paralisação do susto, ainda sem entender de onde vieram os tiros (as balas e os disparos subjetivos), sete pessoas sentaram em círculo, por quatro horas, em uma manhã ensolarada de domingo, para falar de seus diferentes trabalhos clínicos.
Assim como ocorreu com a notícia do atentado às Torres Gêmeas, em 11 de
setembro de 2001, cada brasileiro sabe exatamente onde estava e o que fazia quando foi alvejado no rosto pela notícia, pelas fotos que em minutos correram o mundo e por todas homenagens, ditos e não ditos sobre a execução de Marielle e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018.
Há testemunhas oculares não investigadas e ainda estamos longe de responder a pergunta: quem matou Marielle? Em suspensão, os corpos voltam ao cotidiano. Como? Assumindo que formas, para dar conta do susto e do prosseguimento da produção da vida? Será mesmo que o Brasil inteiro ficou chocado com o fato?
A seguir, o texto dos diálogos captados simultaneamente, durante esse encontro que nos permitiu cultivar muitas chaves para aprimorar a presença clínica, cidadã.
O Encontro: de onde vem cada um? *
Raphaella Daros – venho do Rio com tudo o que está acontecendo… a violência no Rio está muito grande.
Sexta-feira sai a uma hora da tarde do consultório, Quando já estava do lado de fora, vieram dois homens negros correndo, levei um susto e pensei que era o meu preconceito de relacionar homens negros a algo violento. Mas, realmente era um assalto e vi que era um assalto, quando trocaram as blusas. Fiquei invisível… (gesto de afastar) Estava vendo a cena… Fiquei invisível, impávida. O Uber que havia chamado chegou, deu farol e entrei no carro. O motorista era reacionário e foi dizendo que se tivesse uma arma, matava mesmo. De novo, o medo. Tentei ficar muda até chegar à Rodoviária, não respondi de cara, mas acabei discutindo com ele, fiquei com muita raiva dele. Aí entrei no ônibus e vim pra cá… para São Paulo e me senti em Londres, aqui é fresco e seguro.
Regina Favre – Perdizes é Londres…
Raphaella – quem está em São Paulo reclama do calor e da falta de segurança, sem fazer ideia do que estamos vivendo no Rio. O meu corpo veio marcado por um assalto e já na expectativa da troca de tiros…
E me pergunto: Que corpo é este que está sendo produzido na gente pela escalada de violência?
Que corpo é esse que precisa estar alerta o tempo inteiro?
O corpo do susto? O corpo da anestesia?
Eu soube do assassinato da Marielle, cinco minutos depois do acontecido, por um grupo de whatsapp. Apenas cinco minutos depois, enquanto me preparava para dormir, depois do primeiro potente e alegre dia, trabalhando em um novo espaço de atendimento clínico. Foi um choque. Depois, a cidade optou por ocupar a rua e seguir a vida.
Em consultório, atendo uma moça de 13 anos de idade, biologicamente menina que está se transexualizando. Num processo bonito e onde o espaço da clínica é o único lugar em que ela consegue ser ele e sem ter medo. Ali ele consegue descansar… é um adolescente com um corpo muito assustado e muito cansado…
Para todos nós já é muito surreal, imagina para ele como é viver no Rio, circular na rua, andar sempre com medo. São Paulo é cosmopolita mesmo, já o Rio tem uma capa de liberação, mas na verdade é fake, é uma cidade homofóbica, pouco acolhedora da diferença, guetificada. É desse lugar que estou vindo…
Regina – Nesse contexto coletivo que nos atravessa, como olhar a nossa clínica, seja no trabalho, seja na dança, na saúde coletiva, no acompanhamento terapêutico (A.T.), na clínica privada? Como olhar a continuidade dos corpos formando a si mesmos nos ambientes que hoje estão acontecendo, sob efeito desse susto? Como lidar com isso? Como compreender isso?

A cartografia, traçada por Regina Favre, dá corpo aos diálogos
Liliane Oraggio – O susto está em toda parte, o sobressalto, o choque, o medo. E justamente o processo formativo estuda detalhadamente o reflexo do susto. Repetir voluntariamente as formas corporais que se armam quando estamos assustados é parte substancial do processo formativo. E nesse contexto, acho que nos serve muito essa compreensão e essa prática que a Regina é mestra em detalhar.
Regina – corpos e ambientes se interconectando…
O susto é um reflexo, uma resposta animal da presa diante do predador.
Estamos sempre sujeitos a sermos predados por forças destrutivas. Mas é importante saber identificar essa defesa natural nos corpos e desmanchá-la depois que a situação perigosa passa. O corpo precisa estar no presente, sempre respondendo às situações que se apresentam e aprendendo com elas.
Mario Gaiarsa – Desde o dia em que a Marielle foi morta, o Brasil foi assaltado. O país todo foi, tomado de assalto, essa palavra contém algo central: como se colocar diante de algo que nos pega de assalto?
Regina – Como a gente se maneja a partir do susto? A gente viu todos os ambientes e narrativas que imediatamente pipocaram nos jornais, daqui e nos estrangeiros… A história da Marielle captamos por meio de mídias sociais.
Essa malha de informação, todos esses são ambientes, que se sobrepõe e se apresentam vertiginosamente. Nossos corpos respondem a todos esses cenários com esboços de comportamento do mesmo modo que a gente responde ao dia de hoje, a esta sala, ao tempo, ao clima, ao ambiente afetivo. Perceba a quantos ambientes os nossos corpos estão respondendo. Respondendo quer dizer: tentando processar uma quantidade de ambientes sobrepostos, que nos afetam e solicitando respostas físicas dos nossos corpos, na presença.
Silenciamento e expressão
Mario – sexta-feira, depois da execução brutal de Marielle, estava almoçando com pai e irmão, a gente estava conversando sobre as milícias. Fiquei apavorado em falar sobre isso num restaurante e pedi para meu pai falar mais baixo. Encarnei o medo de sofrer represália por isso, meu pai ficou puto porque durante a Ditadura Militar lutou pelo direito a expressão de falar o que quiser, onde quiser. Eu não sei o que é a Ditadura Militar, o medo que encarnei, disse ele, era o medo em relação ao Dops, medo de chegar um camburão na hora e você desaparecer para sempre. Essa fala do meu pai foi organizadora para mim, e principalmente, a raiva com que ele falou isso. Então, postei no Instagram com toda a emoção do momento, uma sequência de vídeos contando essa história. Me senti convidado a isso e, ao mesmo tempo, apavorado. No Instagram, contei o ocorrido para muita gente! Recebi mensagens no meu inbox, pessoas falando do que estavam sentindo, do mesmo medo. Essas situações que apavoram, impõem silêncio.
Todo mundo querendo falar e morrendo de medo, de entrar em contato com forças reacionárias.
Regina – A época pede ficar mais na incerteza do que achar uma formas prontas… A gente precisa poder suportar todas as interpretações ao mesmo tempo.
Raphaella – no Rio tem silenciamento, a tentativa deliberada de silenciamento e a reação das pessoas de ir para a rua foi espontânea e imediata. Primeiro, anestesiamos, depois com muita gente na rua, um monte de vozes começou a dizer o quê precisava dizer, se afirmando partidariamente. O Ronilson Fernandes (PSOL-RJ), liderança da Maré frisou que temos que voltar a votar em mulher negra, com isso conseguimos dar uma respirada. E nessas manifestações gigantes não havia polícia na rua. Supreendentemente, nenhum policial…
Regina – enquanto a Rapha conta, percebam a quantidade de cenários que a gente está imaginando… o ambiente físico, midiático, as forças que propagam, a paisagem psicossocial intensíssima altamente mutante e altamente fluida.
Fazer essa captação é muito importante, antes de fechar com representações que tranquilizam…
Liliane – Nesse caso, fomos todos envolvidos abruptamente. Não foi possível ficar alienado, passar em branco pela notícia. O país inteiro ficou imerso nesse sobressalto, mesmo aqueles que conheceram a Marielle apenas depois da execução, que antes do fato nem imaginavam que ela existia, que as lutas que ela assumiu eram tão importantes, constantes e incomodavam tantos, há tanto tempo.
Mario – eu não quero ficar tranquilizado…
Regina – mas não vamos apressar a interpretação.
Enquanto a gente quiser acessar pelo assunto, não adianta.
Se não acessa pelo susto, não chega no cerne do que estamos vivendo… as informações nos chegam produzindo cenários… Mas neste momento, nesta sala, estamos em segurança para perceber esse processo e acessar o que acontece no susto.
Para compreender o susto
O susto é um reflexo.
Como captar o reflexo do susto?
Como podemos conhecer esse reflexo?
É importante em primeiro lugar, desacelerar-se intencionalmente e perder as ilusões de que vamos poder controlar e entender tudo, mas vamos estar ali, presentes, respondendo ao acontecimento, tal como ele se apresenta. Isso, se formos capazes de desorganizar o reflexo do susto, que nos isola.
É isso que podemos fazer seja na clínica, seja na vida.
O susto é um reflexo ancestral continuamente desencadeado nos dias de hoje. Ficamos assoberbados com o bombardeio de informação e isso vai nos sobressaltando continuamente.
Liliane – Percebo que entrar na malha de informações, agrava o susto e dificulta estar nas tarefas ordinárias. Percebi que na clínica houve um esgarçamento do cotidiano, a agenda passou a não se cumprir. Diante do choque coletivo, parece que o tempo ganhou outra textura. Como acontece nos processos do luto.
Regina- a gente não sabe acessar o susto intencionalmente, mas fica tentando compreender, fica lendo notícias, loucamente lendo… acessando jornais dentro da internet, comentários desse e daquele, acreditando que assim ganha poder e consegue abarcar.
Modos de lidar
Raphaella – eu sinto uma suspensão do tempo, estranhamento, uma pausa, priorização das atividades cotidianas. Para tudo! Não dá pra seguir. As pessoas pararam, literalmente, pararam nos consultórios, na rua, ninguém trabalhou, nessa pausa… a partir da pausa da suspensão… Como seguir apesar de…
Essas perguntas vieram o tempo todo:
Como seguir apesar de?
Como sair de casa?
Como continuar trabalhando?
Como continuar falando o que sempre disse para os meus alunos, na universidade?
Na sensação de impotência, não tem linha de fuga. Essa não foi uma pausa escolhida, foi uma pausa externa, que força a esperar.
Regina – É o que acontece diante da morte. No dia de uma morte não se faz nada, o tempo se dilata de uma maneira impressionante, entra-se em outro estado de ser… Baixa uma realidade surpreendente. Deparar-se com a morte não é fácil. Nos deparamos com a morte e estamos vivos.
Mário – senti muita raiva, fiquei insone, uma raiva que não cessa, que me instiga a andar pra frente, a produzir, a estar aqui hoje… aqui é um espaço que me deu perspectiva…
Regina – aqui é um lugar de lentificar-se, lugar em que a gente cruza vozes, em que a gente contempla, é um bolsão de lentificação, para proporcionar um outro modo de pensar o corpo, de pensar os acontecimentos. Aqui, a lentificação é voluntária.
Liliane – e aceita.
Júlia Alano – No dia da Marielle eu estava trabalhando em Santa Maria (comunidade de pomeranos, no interior do Espírito Santo) e para mim esse momento está sendo muito importante, fico emocionada…
[Chora…. apertado]
No dia, acordei e a primeira coisa que vi foi a notícia, fiquei assim, fiquei assustada, (sobe os ombros, arregala os olhos enquanto lembra…)… Cheguei ao trabalho e não tinha ninguém para falar sobre isso. Isso não existiu em Santa Maria. Fiquei calada. Como se aquilo não reverberasse… Lá, o fato não teve esse impacto – morreu mais uma pessoa no Rio de Janeiro e era só isso. Consegui falar com amigos de Vitória. O que ficou em mim… foi o calar… de lá até aqui, essa emoção ficou contida… Se começasse a chorar em Santa Maria… as pessoas iam achar que eu estava louca… me veio sensação muito alívio, quando vi que esse encontro estava próximo e fatalmente falaríamos sobre isso. Aqui vou ter espaço de falar e de sentir que esse momento foi importante…
Como se colocar diante de algo que nos pega de assalto?
Como a gente se maneja a partir do susto?
Raphaella – diante do meu choro durante a quinta-feira ao longo do dia, senti muita solidão. Porque eu podia estar na rua, suspender a aula e ir pra rua, mas eu não fui. Muitas pessoas me perguntavam se eu conheci a Marielle, pois o choro denotava que eu era uma pessoa próxima. Mas eu não a conheci. E há apenas duas semanas eu perdi um tio e fiz coisas por alguém morto que nunca havia feito: o coloquei no caixão fui ao shopping comprar a roupa para enterrar. Fiquei três dias em função dessa morte. Mas não fiquei tão abatida como com o assassinato da Marielle. O luto do meu tio era privado, justificado, voltei ao trabalho e não compartilhei esse acontecimento da vida pessoal. Porém, de maneira totalmente diversa, o luto da Marielle é compartilhado, veio para sacudir, para indignar, impossível não compartilhar.
Regina – Veja como estamos imersos no público, nessa velocidade, e como a gente responde a isso. Como cada corpo responde a esse ambiente-marielle.
André Nunes – quando eu soube, estava num ônibus voltando da periferia de São Paulo. Eu não conhecia Marielle e fui conhecer a partir disso. Achei uma sacanagem… senti: ‘perdemos mais um…’. Essa impotência somou com o que estou vivendo no meu dia a dia. Um dos moradores da Residência Terapêutica em que trabalho está com suspeita de câncer na garganta. Tenho ficado no hospital público 24 horas por dia… Ele é um cara com autismo, fala poucas palavras… e eu tenho que ser o corpo dele com os médicos, os enfermeiros e estou lá junto… Lá, tenho mais vontade de brigar pelas coisas, para desconstruir modelos excludentes. Isso tudo me deixou a flor da pele, a morte me chama para outro lugar que é muito próximo do cuidado do leito. Não é o cuidado do leito de morte, mas o cuidado do leito para ver se tem uma doença… exige espera e fico parado, colado no corpo do outro, sem saber o que vai acontecer. O homem é mudo e tenho de olhar os sinais… nunca havia cuidado de ninguém no leito.
A morte dela, da Marielle… veio para por mais lenha na fogueira…
Regina – ‘…nunca cuidei de ninguém no leito’… Essa é a experiência que está formando você: corpo a corpo com essa realidade que é canalizada por esse corpo. É uma realidade de desamparo que chega em você e ali você cola.
André – é uma sensação de um amor tão diferente… me dá muita força… não sei de onde vem esse amor. Fico a flor da pele por isso. Eu conheço o cara há um ano, eu já gosto dele… é muito louco. Estou vibrando assim… e agora estou vindo do hospital.
Regina- aí a pergunta: o que eu estou formando? Por que me importei tanto com a Marielle?
André – Me importei tanto porque a Marielle era a voz de muitos, fiquei sabendo de quem ela cuidava, o que ela expressava. Eu empresto a minha voz para o moço que acompanho e ela emprestava a voz dela para muitos, falava em nome de muitos.
Regina– o susto interrompe o processo formativo. É a suspensão de vários níveis de intensidade, que interrompe o processo de estar formando com aquilo que me chega e que é canalizado pelos encontros, pelos acasos, formando com os meus recursos biológicos, sempre. Formamos corpo com recursos biológicos, pois a vida quer prosseguir. Isso não é literatura. É experiência. Sobrevivi de ontem pra hoje, estou sobrevivendo aqui e agora.
Suzana Bayona – para mim o dia da morte da Marielle [chora], não tem como ficar não emocionada, estou tremendo… foi o mesmo dia a manifestação dos professores na Câmara Municipal de São Paulo, dia em que os professores foram agredidos pela polícia da prefeitura. Vi a professora que quebrou o nariz, então, Marielle não é apenas Marielle. Trabalhando com arte-educação, mais fortemente há uns dois anos, e há algo constante… eu só me sinto chamada para mesma onda que venho habitando e que é uma mistura de sentimentos. Ano passado, fiquei mais fortemente envolvida com isso, sempre com essa relação com a esfera pública. Na nova gestão do [João] Dória, estamos vivendo um massacre da cultura, os recursos sendo retirados. Existe um movimento forte de militância dentro da arte e da cultura que também não dou conta de habitar. Ano passado, comecei a viver o ativismo político e acabei adoecendo. Não sei muito bem o que habitar, não existe lugar formado dentro da militância. Precisa ter um corpo de guerra, de batalha e não me sinto em condições de ter esse corpo. Mergulho nos processo de trabalho, processos com crianças. Eu talvez mergulhe com mais intensidade nisso: experimentando as coisas belas que se constroem também nesses encontros. Mas acho que com o dia da Marielle e dos professores que apanharam ainda eu não sei mesmo como lidar, é uma forma muito grande de violência, vindo… eu me sinto impotente, me sinto indefesa (chora)…
Regina – você atua no cultivo das coisas belas…
Suzana – tudo isso me dói, me dói muito, se eu deixar doer o tanto que dói eu adoeço e eu também não quero o meu adoecimento… não é o caminho.
Liliane – Considero importante fazer essa distinção: tenho ou não corpo para a militância do front? Eu não tenho esse corpo. Em1984, eu estava trabalhando como jornalista no comício das Diretas Já, aquele dos cem mil na praça da Sé e fui prensada no meio da multidão. Foi horrível e até hoje não dou conta de ir pra rua. Em 2013, foi difícil não estar na marcha com todo mundo, mas não dei conta de ir. Participo de outras formas, mas não tenho o corpo do front. [Depois desse encontro, na tentativa de superar esse trauma, participei do ato-cortejo de um mês sem Marielle e sem resposta sobre a autoria do assassinato, que saiu do MASP. Embora com receio, acompanhei a multidão e clima tenso].
Regina – Durante a Ditadura, quem não ia para a luta armada era fraco. Fazer luta armada era considerado muito superior a contracultura. E hoje quem cultiva espaços de beleza, de valores de convívio, quem semeia esse tipo de coisa não sente a utilidade formativa, não sente, muitas vezes, que está formando o tecido social…
Raphaella – Suzana, Julia e eu falamos de uma ausência, tem ausência da possibilidade de agir e isso produz impotência e culpa.
Regina – exclusão.
Raphaella – Eu também achava que tinha de estar na massa e não tive coragem de sair da universidade, dessa instituição conservadora. Alguém morreu e eu não tinha coragem de ir para a rua com a multidão. Com o agravante: a minha tese de doutorado é sobre a participação social.
Regina – nesse jogo de forças, quem é o predador? Justamente, o militante que preda sua própria autoestima. Por exemplo, eu não dou conta de ir para a Paulista e colocar em risco minha saúde.
Raphaella – em 2013, eu também não fui para a rua, mas ficava com minha porta aberta para as pessoas que estavam fugindo das bombas. Na época, eu morava muito próximo ao Palácio da Guanabara. Minha casa era um refúgio para os amigos que precisavam de socorro da violência sempre presente ao final dos atos públicos. Mesmo assim, me pergunto: como posso estudar a participação social e não ir para a rua? Eu me culpo. Tenho um corpo que não suporta isso.
Hoje, o desafio não é mais lutarmos contra a repressão nos corpos, como no tempo do W. Reich (1897-1957). Mas sim resistirmos, manejando os corpos em sua expressão singular, contra o achatamento das diferenças.
Regina – O susto diz respeito sempre a exclusão: ser excluído dos grupos, das redes de sentido, dos ambientes produtivos sejam do trabalho, do conhecimento ou dos afetos, da vida local e planetária.
Raphaella – talvez as pessoas não expressem de maneira direta, mas eu quando fico me sentindo culpada, eu falo da minha culpa, da dor, do medo, compartilho isso, me exponho ao risco e tenho uma resposta dos alunos. Eles dizem: “que bom que você está aqui, senão, íamos ficar sozinhos”. Sinto que falar disso para os alunos da universidade faz a diferença. A marcha não se dá apenas na multidão. Tem uma marcha que também é produzida micropoliticamente em nossos espaços de trabalho.
Regina – Que outras marchas se produzem nesses grupos? Lugares de beleza, confiança, afeto – lugares onde a vida tem valor. Como André fala de um autista. Como a gente compreende esse valor de uma vida?
Mário – no dia da morte da Marielle, estava saindo de um Maracatu que estou participando na Escola da Cidade. (Chora)… Recebi a notícia que o capitão desse maracatu, grande irmão meu, perdeu um filho. O cara me recebeu na batucada, ele me apadrinhou e me acolheu, e está passando por esse momento de muita dor. Aí, abri o celular e tinha a Marielle. Fiquei desorientado não sabia para onde ir, o que fazer. Sabia que ia para Sorocaba para encontro de Maracatu, com mestres, e muita gente do movimento das Mulheres Negras. Na quinta e na sexta acordei acelerado e com muita raiva, raiva combativa. Não era raiva da reclamação. Era um estopim. Estou dentro da cultura negra e não sou negro. O que aconteceu com ela não vai parar e tenho que pensar: como posso me organizar e organizar o coletivo para navegar esse mar?
E, justamente, hoje faz oito anos que a gente perdeu uma batuqueira nossa. Do Caracaxá, ela faleceu de leucemia, a Cibelle. Eu fico pensando que os velórios não são para os mortos. São para os corpos que querem seguir.
Regina – Como a gente reverbera e é parte de reverberações? Para estar no coletivo, não precisa estar na grande multidão. Como acessar esse corpo, esse corpo que é canal e não “um si”, isolado.
O reflexo do susto isola os corpos. É por essa razão que é importante a gente aprender a acessá-lo. O reflexo do susto foi salvo pela Evolução, para preservar a continuidade de cada corpo, fazendo com que o corpo se afaste de modo a não ser afetado por condições que produzem uma excitação excessiva, intolerável, para aquele organismo, com sua história de vida.
Como dissolver o reflexo do susto?
André – o susto é parente do medo?
Regina – o medo é uma emoção, emoção é sempre um modo de conexão.
O susto é reflexo do tronco-cerebral que barra o contato, isola, portanto, impede o crescimento da excitação e sua entrada no cérebro. A entrada de uma excitação excessiva no cérebro significa o desmaio, o apagão… e bicho desmaiado é bicho morto, na boca do predador. A Evolução preservou, como sempre, esse funcionamento precioso para a vida prosseguir.
Mário – em Sorocaba teve maracatu e atividades, com batuqueiros da nação da zona sul de Recife, uma quebrada violentíssima. Eu queria tocar, a gente fica achando que vida é descarga e não é… A hora em que me emocionei mesmo foi a hora que estávamos todos sentados comendo juntos, ali havia um grande poder político de agregação, a gente se uniu e se reuniu para comer.
Regina – A comensalidade humaniza. As bocas, em vez devorar, mostram os dentes de maneira amistosa e isso apenas os seres humanos podem fazer, ao sorrir e ao comer. Mostrar os dentes para compartilhar e não para atacar. Apenas os humanos são capazes de fazer isso de maneira amistosa… É a comensalidade.
Mário – eu não conhecia essa palavra, comensalidade…

Na Cartografia ficam explícitas e salvas as formas que o grupo seleciona, a partir das experiências, de lidar com a dor e a impotência, de desmanchar a paralisação do susto.
Regina – comer junto. Estamos aqui falando junto, mostrando os dentes pacificamente. Para continuar compartilhando ideias, imagens, narrativas é preciso desorganizar o susto, o sentido do perigo, do susto que é produzido pela situação de convívio e o susto evocado que cada um traz da própria história corporal, quer dizer, as limitações do contato que cada um traz.
Nesse momento, podemos perceber aqui nesta sala, os padrões de susto que cada um traz. Como cada um se retira do acontecimento que é comum? O ambiente é sempre o comum.
Rapha – tem pausa que é escolhida, a de estar aqui, por exemplo, a pausa da lentificação, uma pausa intencional. O susto é pausa reflexa. Mas tem uma importância.
Regina – Sim! Foi salvo pela Evolução, há milhares de anos. Por que? Por que é útil. No susto, o corpo para. O destino dos corpos é prosseguir sempre gerando mais corpo.
André – amadurece…
Regina – o corpo secreta corpo continuamente… é uma secreção, literalmente uma secreção. O corpo está sempre produzindo e sustentando um tanto de corpo continuamente e seguindo seus processos de amadurecer funcionamentos e comportamentos, em sintonia com os processos do amadurecimento, do susto, da constitucionalidade. A gente olha os corpos e vê o quê vivem os corpos
Por que cada um é como é? Além da história dos corpos de cada um, o corpo se constitui em tecidos, literalmente tecidos e expressão, no sentido darwinista, expressão genética e epigenética. Como se expressa?
A gente enxerga perfeitamente…
Como faz?
Como pensa?
Como cada corpo participa do processo da vida?
Mas, o poder que damos ao discurso nos cega para essas evidências.
Tenho ou não corpo para a militância no front?
A marcha não se dá apenas na multidão. Tem uma marcha que também é produzida micropoliticamente em nosso espaços de trabalho.
Liliane – No dia do enterro da Marielle e do Anderson, com grande comoção de todos, iniciei o primeiro grupo Ouço Vozes de Escrita e Escuta para profissionais de Saúde. Começava às sete e meia da noite. Os cinco integrantes foram chegando, de várias regiões da cidade, a maioria da lida nos dispositivos públicos de saúde mental. Todos estávamos arrasados. Propus que começássemos no chão com um trabalho corporal. A intenção era de redistribuir as excitações e ganhar forças para aquela atividade inaugural, que já não poderia ser como havia sido programada. O acontecimento ‘execução’ nos atravessava e isso não era metáfora.
Cada um desenhou o corpo captado naquele momento e duas das pessoas representaram a si mesmas como o ‘corpo estendido no chão’.
A morte, a casa, a instabilidade, o corpo como recorte e a escrita como secreção foram os temas que surgiram no bojo-oco do grupo e que foram trabalhados os pequenos textos. Escrever instalou-se como uma prática micropolítica de resistência. Uma secreção capaz de nos desintoxicar, um modo de cuidado de si mesmo para seguir na vida, para acordar de manhã e soprar a esperança. Escrever para compreender melhor onde está e para onde é possível seguir. Ao longo do encontro, sentindo como é bom estar junto, nosso estado foi mudando, a consciência sobre o assalto que sofremos, todos nós brasileiros, como disse o Mário, ficou mais clara. Intencionalmente, tocamos o horror e a impotência, fizemos o que era possível para recobrar forças para continuar agindo de maneira pacífica. E são muitas as vozes que exigem respostas.
Por outro lado, no dia seguinte, fui a um jantar com um grupo de intelectuais. Dois deles fazem parte do movimento ‘Precisamos falar de Fascismo’ e fizeram discursos inflamados, pois estavam no Rio no dia do assassinato, conheciam Marielle. Estavam realmente tocados, porém o discurso era de palanque enquanto a plateia muda só escutava os “sábios”. Trocadilhos poéticos, lista de ações fundantes do fascismo, descrição astrológica do momento, defesa de Lula, ataque contra Lula, medo dos militares, mais catorze líderes comunitários ameaçados na Comunidade de Acari, o desejo de levar os militantes para falar em Genebra, na sede da ONU… E a conversa foi seguindo como num transe concentrado na figura dos dois professores, apenas interrompido quando alguém veio da cozinha e perguntou: “Posso colocar o macarrão para cozinhar?”
Regina – Esses são modos narcísicos de se configurar no susto. Corpos ficam parados no acontecimento, parados no reflexo do susto. Os corpos se engrandecem com belas palavras para dar conta do episódio, da insuportabilidade do acontecimento, da incapacidade de aguentar, de absorver e devolver e de voltar a pulsar.
É preciso reconhecer onde estou e o que estou fazendo para estar.
E isso é absolutamente físico.
Fazer-se com o ambiente e produzir ambiente, isso é do bicho que somos, mas um bicho que pode reconhecer a estrutura do que faz, de como faz e alterar ativamente os modos de fazer…
O que meu corpo está fazendo consigo mesmo para sustentar presença ali?
O que eu faço é aquilo que meu corpo aprendeu fazer até agora, na vida.
Se sei como alterar o modo de resposta no meu corpo, posso criar uma conexão viva ali, no ato. Se não, vou repetir soluções. O susto é uma intensificação da atenção na captação do ambiente…
O susto é um continuum de formas motoras que se intensificam conforme a ameaça à nossa integridade. É reflexo.
A excitação do acontecimento sobe em direção ao cérebro e para no tronco-cerebral. Esse é o caminho do susto. O corpo engatilha um certo modo de suspender a continuidade da resposta motora. Para prosseguirmos presentes é necessário desengatilhar essa resposta.

O reflexo do susto, selecionado pela evolução, como defesa diante das ameaças de exclusão

Quando a excitação excessiva para no tronco-cerebral, desativam-se respostas mais finas
Corporificando o susto
Regina– perceba que tem uma subida da excitação no contato, um afundar magoado no peito, uma expressão geral de decepção no corpo, um endurecimento do medo na cabeça, um recuo nas costas.
Raphaella – é uma tristeza (chora)… não tô conseguindo…
uma coisa (mão segura a barriga…) que prende a barriga… quando prendo a barriga, estou prendendo a respiração para não chorar… (chora)
não posso me permitir entristecer… ou mostrar minha tristeza…
vou para o corpo infantil, da criança, frágil… eu fujo para dentro.
Regina – isso já é a segunda parte… depois de aumentar a tensão diante do acontecimento, a sua forma tende a diminuir, diminuir… surge, então, a forma que deve ter se estabelecido quando seu corpo era ainda pouco consistente, época que a forma era menos consistente.
Raphaella – sim.
Regina – os tecidos são visivelmente pouco formados, macios demais… esse é o recuo diante do acontecimento, você não teve condições de formar consistência para sustentar estar dentro… sua forma frágil faz você se proteger do ambiente… a história da sua estruturação está ativa nas suas respostas presentes.
Essa estruturação aparece quando você se estuda, reproduzindo intencionalmente suas respostas.
Você pode repetir muscularmente essas ações, agir sobre elas intencionalmente e atualizar seus modos de fazer corpo no acontecimento. Imite sua própria forma, apequene mais a sua frente, fazendo intencionalmente aquilo que se faz em você involuntariamente…
Então, Rapha, a impotência da criança diante do ambiente adulto aparece nas suas mãos, o peito desarma, as mãos desarmam. Aparece a impotência da criança diante do mundo adulto….
Raphaella – quando estou aqui (no susto), me sinto amparando o ambiente… e não me amparando no ambiente…
Regina – mas você pode interromper o desmanchamento… assim, estará fazendo uma ação sobre si mesma. Para mudar o modo de resposta ao acontecimento você pode aprender a fazer ações sobre si, sobre as camadas da sua forma e com isso mudar a relação do corpo com os acontecimentos… você ensina seu corpo a se regular nas intensidades…
Raphaella – quando eu era adolescente eu era colapsada (peito pra dentro), fui aprendendo a descolapsar, mas ainda tem um colapso em mim a ser amadurecido…
Regina – E os outros como se percebem nesse continuum do susto?
Suzana – para mim tem o susto do estar em grupo, sempre tem um sustinho de estar em grupo… existe muita vontade, o espaço da cabeça está super-presente, os olhos, o pensamento… e o peito tem dois movimentos um de recuar, onde sinto o susto e na garganta também. Na garganta e na boca. O peito tem o recurso e a vontade de estar aqui… mas eu vou me retirando e sempre me sinto, mais como plateia do que fazendo parte, querendo muito fazer parte (mãos alternam para frente e para trás diante do peito).
Regina – veja o movimento das mãos… mãos humanas são inteligentes, as mãos fazem a ligação entre o pensamento e a ação… estão mostrando o conflito da Suzana entre aproximação e afastamento… voltar mais pra si ou ir mais para o grupo… Não é um movimento, é o deslocamento da fronteira do corpo.
Percebe como a gente ganha em realidade quando a gente corporifica o que vive?
Júlia – eu fui para trás, coloquei a mão no peito e não consegui nem engolir, nem respirar, boca muito travada, dificuldade de comunicar…. não consigo nem falar direito, só que quando eu fui tentando desmanchar, veio uma sensação muito paralisante… fui tentando desmanchar, fui crescendo e levantando as sobrancelhas e indo pra frente… isso me dá muita energia… vem pensamentos de ação mas a boca continua muito travada, autoritária. A ordem é: “eu faço, mas vai ser do meu jeito”… e eu não consegui sair dessa… não consigo fazer nada…
Regina – você ficou entre dois polos de expressão, mas nessa forma que você expressa tem muitas gradações e são essas gradações que temos de conquistar, são elas que dão origem a rizomas de conexão com o acontecimento.
Esse é o modo como a gente estimula a produção da diferença na prática do processo formativo.
O método dos cinco passos, sistematizado por Stanley Keleman, pode ser aplicados a cada design de funcionamento.
1- O que é? O que vamos problematizar.
2 – Como é? A ação intencional sobre si para captar a ação muscular envolvida nesse comportamento
3- Fazer mais, fazer menos essa forma muscularizada, em graus. Intensificar e desintensificar esse design.
4- Pausa para receber os efeitos dessa intervenção nas várias camadas que compõem o corpo, lembrando sempre que corpo é comportamento.
5- Acolher o emergir de algo novo, diferente do anterior, mais atual.
Essa ação sobre si estimula a produção de novas conexões neuro motoras, ativando os tecidos para que esbocem outras formas de comportamento e conexão com o presente.
Assim se dá um trabalho artesanal, muito fino, de produção do atual, da diferença. Por meio de ações sobre si, o pulso pode ser restaurado e voltar a contrair e expandir; e a vida, estagnada no susto, pode retomar seu prosseguimento. As formas potentes da nossa presença pulsam no acontecimento.
Para assimilar a experiência
Regina – então, para aprofundar os efeitos desse trabalho sobre si, podemos todos deitar no chão e sentir a lei implacável da gravidade…
Veja como é importante sintonizar e agir sobre a estrutura. A intensidade quando trabalhada produz forma e estrutura, que ensinam a gente a aguentar a vida, porque a vida é intensíssima requer capacidade de suportar sua intensidade. Antes de fazer, de agir, precisa poder conter, aguentar as forças da vida dentro da estrutura do vivo.
Mario – (deitado) sensação de que estou diante do abismo
Regina – é uma fase nova, sim, que está se apresentando pra você.
Raphaella – tem em mim apaziguamento… e um calar-se sem ser calado. De apaziguar, gostei… sabe?
Regina– Estamos imersos numa realidade intensíssima e precisamos formar cartografias e recursos para navegar nestes tempos.
Lili – No início, o André perguntou a respeito do paciente com autismo: “Que amor é esse?” Essa pergunta vou levar comigo…
Raphaella – o amor porta conflito…
Suzana – eu fui tomada por uma sensação de amorosidade muito grande, com a possiblidade de restaurar um diálogo…. restaurar diálogo… e aprender a gozar dessas intensidades… ficou ressoando como um aprendizado … e de poder fazer algo… Quando vou pro chão as costas encontram a gravidade… e me reconecto.
Júlia – no final, senti literalmente o corpo abrindo espaços, expandindo… no susto estava me sentindo compacta. Quando pude deitar e senti que aqui estava se expandindo… muito bom…
André – gostei de lembrar da lei universal da gravidade. E há duas semanas peguei duas gatas para criar… e no primeiro dia, vi o susto se transformar em ataque, foram mini-segundos, quando eu tentei tira-la de cima do escorredor de pratos e ela me atacou… ali percebi o bicho. E percebi que ali o bicho era eu… isso que você mostrou hoje é o pulo do gato… você chamar para abrir, para fazer intencionalmente, e perceber como desmanchar os sustos… e posso fazer isso com outros sustos…
(créditos)
*Este é um texto colaborativo, resultado de muitas presenças em conexão e horizontalidade.
Abaixo, os autores em ordem alfabética
André Nunes – terapeuta ocupacional, acompanhante terapêutico e, atualmente, supervisor de uma Residência Terapêutica, na Zona norte de São Paulo.
Júlia Alano – psicóloga, mestre em psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo, atua em Vitória e no interior do Espírito Santo.
Liliane Oraggio – terapeuta, acompanhante terapêutica e jornalista, dedicada à pesquisa na área da Psicologia. Coordenadora de A Lógica dos Corpos em Presença, com Regina Favre. Autora do livro Ouço Vozes – Escuta, Registro de Diálogos e Epifanias no Acompanhamento Terapêutico (disponível no link http://goo.gl/3gn6CQ), que deu origem ao grupo Ouço Vozes – Escuta e Escrita para Profissionais de Saúde.
Mario Antonelli Gaiarsa – Psicólogo, acompanhante terapêutico, educador, pesquisador de cultura popular brasileira e militante do maracatu de baque virado.
Raphaella Daros – psicóloga, mestre em Saúde Coletiva (UFES). Doutora em Psicologia Social(UFF). Atualmente, leciona em uma graduação de Psicologia (FAMATH), coordena o grupo de estudo, movimento e supervisão clínica “Corpo, Clínica e Cuidado: conversas esquizoanalíticas com Keleman” e trabalha como psicoterapeuta, no Rio de Janeiro.
Regina Favre – filósofa, educadora, psicoterapeuta, pioneira da psicoterapia do corpo e introdutora do pensamento da Anatomia Emocional de Stanley Keleman no Brasil. Fundadora do Laboratório do Processo Formativo. Coordena, atualmente,
A Lógica dos Corpos em Presença, Grupos de Exercício, Seminários de Biodiversidade Subjetiva e outros trabalhos que ampliam a compreensão do Processo Formativo na vida contemporânea. Sustenta o que chama de Instalação Didática para a pesquisa do corpo subjetivo, publica no site www.laboratoriodoprocessoformativo.com
Suzana Bayona – Artista da dança e mestra em Artes da Cena pela Unicamp. Dedica-se a pesquisa da dança no trânsito com práticas somáticas e ao cuidado de si. É dançarina do Grupo Lagartixa na Janela e docente na Escola Livre de Dança de Santo André e na Pós-Graduação em Dança e Consciência Corporal da Estácio de Sá.
Edição e captação de diálogos com REII-Registro Imediato Interativo
Liliane Oraggio
Texto final
Liliane Oraggio e Regina Favre
Ouço Vozes



Grupo de escuta e escrita para
profissionais da saúde
Para quem?
- Profissionais da saúde, de todas as áreas, que desejam aprimorar a escuta.
- Pessoas que queiram experimentar a escrita como atividade corporal e de grupo.
- Pessoas que desejam se aproximar do Processo Formativo.
Pré-requisitos
- Estar envolvido em um projeto de escrita, que pode ser um diário de campo, uma dissertação de mestrado, um trabalho de conclusão de curso ou um livro com produção individual ou coletiva.
- Conhecer o livro Ouço Vozes – Escuta, Registro de Diálogos e Epifanias no Acompanhamento Terapêutico (ed. Oraggio/Colmeia). Disponível para venda no link: http://goo.gl/3gn6CQ
Propósitos
- Vencer a página em branco
- Reconhecer a escuta e a escrita como atividades corporais.
- A partir das demandas do grupo, aprender a transformar um registro clínico, um diálogo, uma articulação de autores em uma narrativa fluida.
- Exercitar a criatividade, a oralidade, a prontidão.
- Descobrir a “voz” de cada autor em sua plena singularidade.
- Produzir uma publicação coletiva, com textos produzidos no curso.
Método
- Com base no Processo Formativo (Keleman/Favre), a cada encontro realizaremos práticas para reconhecimento do pulso e ativação de mapas neurais que favoreçam o aprimoramento da escuta e da escrita.
- Interlocuções entre os participantes serão estímulo para produção de textos.
- Conhecer autores e estilos literários que facilitam a escrita na área da saúde.
- conhecer os tipos de registro de diálogos, ideias, articulações.
- Conhecer as etapas da produção editorial.
Quem Propõe
Liliane Oraggio é terapeuta e escritora. Autora do livro Ouço Vozes – Escuta, Registro de Diálogos e Epifanias no Acompanhamento Terapêutico (Ed. Oraggio/Colmeia). Nos últimos nove anos acompanhou os Seminários do Laboratório do Processo Formativo, como aluna, assistente e escriba de Regina Favre. A partir desta prática, desenvolveu o método REII – Registro Imediato Interativo de captação e documentação de diálogos e descrições corporais. Com Regina Favre, coordena o grupo de supervisão “Lógica dos Corpos em Presença”, para profissionais da saúde.
É terapeuta corporal no Laboratório do Processo Formativo e Acompanhante Terapêutica focada na restauração da autonomia para pessoas em tratamento psiquiátrico.
Jornalista, bacharel em comunicação social pela PUC-SP, trabalhou 25 anos em redações de telejornalismo e revistas de grande circulação. Especializou-se em temas do Comportamento Feminino (família, relacionamento, sexo).
Atualmente, além do trabalho clínico, está à frente da Oraggio Editorial, responsável por publicações biográficas e outras que priorizam depoimentos em primeira pessoa. Na Literatura Infantil, publicou Min e o Tudo de Novo (Ed. Pólen).
Início: 15/03/2018
Duração: 10 encontros, sempre às quintas, das 19h30 às 21h30
Investimento: R$ 290,00 por mês
Inscrições: pelo telefone 11-991167091 ou e-mail [email protected]
Local: Laboratório do Processo Formativo
Corpos na multidão, medusas nos mares, bombas pulsáteis: uma incursão no campo corporalista
Regina Favre
para revista IDE da Sociedade Brasileira de Psicanálise no número 61 dedicado ao tema do Corpo
1. A trilha
Os saberes e as práticas do corpo subjetivo, tais como os concebemos hoje, estão enraizados na Europa do século 19, como um subproduto da sociedade industrial. O modo de produção que remodelou completamente as tradições culturais e artísticas, as concepções filosóficas e científicas, a linguagem, os valores, a aparência das cidades, ruas, casas, seus interiores, exigiu um grande esforço dos corpos para que produzissem e assimilassem essas realidades. Em meio a transformações de poderes, sentidos, tecnologias, velocidades, modos de produção e distribuição do dinheiro, noções e práticas que diziam respeito à autorregulação e autonomia dos corpos, estavam prontas para aparecer e urgiam ser formuladas como um antídoto dos primeiros sinais do estresse da cultura e das novas doenças emocionais. Não apenas técnicas, mas métodos refletem as diferentes perspectivas do corpo necessitando regular-se.
Rompendo os limites dos ambientes acadêmicos e médicos, pesquisas e vivências conduzidas por indivíduos ou pequenos grupos independentes, resistentes ao modelo corporal rígido imposto pelo poder disciplinar em seu apogeu da 1ª Guerra, foram fundamentais para o desenvolvimento de práticas e posteriores teorias corporais que moldaram essa nova cultura, entre os anos 1920 e o final da 2ª Guerra.
Para esses jovens precursores, urgiu permeabilizar seus corpos num exercício de assimilação do acontecimento em curso, gerando adaptações através de uma pedagogia corporal. Esse deve ser considerado o marco zero no modo de subjetivação do corpo da futura cultura que viria a afetar todos nós. Escapando da destruição que se avizinhava e atraídos pela promessa da democracia na América, esses pioneiros europeus migraram para um ambiente onde essa cultura encontraria acolhimento na tradição do pragmatismo e nos valores do corpo e da vida natural celebrados pela literatura, pela disciplina religiosa e, principalmente, pela imensa prosperidade do pós-guerra.
É emblemática a foto de John Dewey, o filósofo do Pragmatismo, nos anos 1940, tendo sua cabeça manipulada por Matthias Alexander, o criador do Método Alexander de organização postural.
Floresceu, então, nos Estados Unidos dos anos 1950, associada às filosofias sociais da época, uma cultura que continua se expandindo, mas sobre a qual se deve fazer uma continua operação crítica para que se possa utilizá-la. Naquele momento, também a cultura americana apontava para sua expansão planetária.
A economia do pós-guerra e a modelagem serial dos corpos se fizeram juntas. “Os Estados Unidos descobrem que para transformar a máquina de guerra em uma economia viável e desviar da Grande Depressão, que ainda pairava sinistramente sobre a memória das pessoas, o capitalismo do século 20 deveria se basear num movimento contínuo de produção e consumo, dependente de produzir e vender produtos, bens, serviços e experiências, não-essenciais e obsolescíveis que para serem adquiridos, a poupança dos consumidores jamais seria suficiente, portanto, inventa-se, também, o crédito fácil. Consumir e não poupar, permitir-se e não sacrificar-se, tornou-se o estilo dominante”.
Instalou-se uma pedagogia midiática em que cabe ao rádio, às revistas, aos jornais e à televisão, o ensino do manejo de vidas e finanças. Uma nova configuração de si, “científica”, moderna e saudável, vinha a galope.
Nicolau Scevcenko descreve por quais caminhos essa força chega ao Brasil e passa a modelar também nossos corpos e vidas. “Com o colapso da indústria européia de cinema, os Estados Unidos herdaram tudo, construindo um monopólio de produção, distribuição e exibição mundial. E com o surgimento do cinema falado e os aumentos dos custos de produção, os pequenos estúdios foram à bancarrota e, apenas, as grandes corporações de Hollywood sobreviveram. O sistema de estúdios otimizou e reduziu os custos de produção e na sua contrapartida promocional, criou o mito das estrelas. Hollywood espalhou, a partir daí, como um dogma, o padrão de beleza que se tornou a alavanca principal de novos hábitos de consumo e estilos de vida, identificados com o american way of life, maximizando as técnicas revolucionárias de comunicação visual: close-ups, efeitos emocionais de ritmo, som, música, expressão facial e corporal, o glamour da juventude, as coreografias atléticas, as maquiagens, os penteados, o guarda-roupa, os cenários e, mais do que tudo, o poder esmagador do sex-appeal, tudo isso aparecendo numa tela colossal, que irradiava seu brilho prateado e hipnótico na escuridão do cinema.” (Sevcenko, 1998, p. 513).
Mas essa versão glamurosa internacional da modelagem cinematográfica dos anos 1950 cobiçada por todos, antes mesmo dos anos 1960, já começava a ser superada por outro produto que se espalhava: o novo perfil subjetivo do rebelde que não deseja aquela vida de seus pais, modelada pelos valores e comportamentos protestantes da sociedade de consumo. Urgia desconstruir o corpo rígido do herói americano, quase nazista, tão bem descrito por Philip Roth em Complô contra a América (2005). A essa altura, W.Reich já se encontrava no Maine influindo sobre A.Lowen e J.Pierrakos que serão os patriarcas das psicoterapias corporais no Novo Mundo.
Da arte e da dança moderna, do modo de representar do Actor’s Studio, da literatura beat para a cultura do rock, para os movimentos feminista, hippie e psicodélico, para rebeliões estudantis de 1968, para a contracultura, para a cultura alternativa, foi um pulo. Entre os jovens, outro modo de conceber o corpo e novas práticas de si passam a ser desenhadas. E, nessa onda, os humanistas imigrados para a América desempenham importante papel na desconstrução dos usos de si, desvalorizados por essa geração e na composição de novos corpos. Turmas e amigos se agregam, sobretudo em Nova York, o melting pot, no cultivo desses modos de se relacionar, trabalhar, comer, viver, fazer sexo e, mais adiante, conceber família, gênero, dinheiro, educação, raça, cultura, política e poder.
Movida pela mesma fé na mudança, na aventura e no desafio de si, essa cultura corporal remodelada foi exportada para a Europa nas rotas do nomadismo da juventude americana, de encontro às idéias libertárias de W. Reich, que já produziam frutos. Nessa hibridação, modos coletivos de viver e fazer, expressões culturais e artísticas, comunidades urbanas e rurais, personal-development centers, psicoterapias, práticas corporais, projetos sociais e ativismo político proliferaram. Ideias, estratégias de vida e comportamentos americanos passaram por uma multiplicação espantosa, deram essa volta pela Europa e, nos mid 70s , chegaram até nós. Por toda parte, um ideal de um mundo, dito alternativo, que influenciaria de fora para dentro o “sistema”, animava os corpos.
No Brasil, desde os anos 1960, o Tropicalismo, como movimento artístico, literário, musical e político, expressava a urgência de espanar o pó das nossas tradições agrárias e conservadoras “caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento”, incorporar nosso recente desenvolvimento industrial, reformatar os corpos e absorver a realidade mundial que “explode nas bancas de revistas” (Veloso, Alegria Alegria, 1967). Levantavou-se aqui também uma força desconstrutora e proliferante. Com a atmosfera letal das ditaduras latino-americanas, muitos brasileiros tornaram-se política ou existencialmente exilados. A afinidade com nossa necessidade, nos permeabilizou e atraiu para esses movimentos que se expandiam, sobretudo, nessa London London (Veloso, London, London, 1971) solo fértil para novos padrões de comportamento, onde a nova cultura do corpo vicejava.
Em 1975, pessoas marcadas por essa experiência, ao voltar para o Brasil, participaram da fundação do primeiro curso de psicoterapia corporal Gestalt Reich, no Insitituto Sedes Sapientiae. Já no início dos anos 1980, em busca de formação profissional, alguns grupos podiam ser vistos no Brasil trazendo terapeutas internacionais para ministrar workshops. E, até o fim da década, em sintonia com o capitalismo de mercado que já se estabelecera, um número crescente de pessoas ligadas a essas escolas autorais, americanas e inglesas, já formatadas como empresas de formação profissional neo-reichiana, se apresentavam instituídas por aqui.
Essas ideias e práticas fizeram sentido no Brasil de um modo peculiar e em condições muito diferentes das que constituíram seu solo original, num primeiro momento, se juntando às forças que, culturalmente, combatiam os efeitos destrutivos da Ditadura nas vidas e corpos das pessoas. É bem conhecido como um certo tipo de psicanálise engajada argentina, trazida por Emílio Rodrigué e, a seguir, pelos fundadores do curso de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, convidados por Regina Chneiderman, desempenhou um papel importante, acolhendo em seus divãs a recém-nascida cultura reichiana. Assim, compreende-se, que, dada essa afinidade, o reichismo que inicialmente vingou no Brasil foi o da “Análise do Caráter” (Reich, 1933), em suas variações, considerado nos anos 1930, um avanço político e metodológico. Embora J. A. Gaiarsa, inimigo declarado da psicanálise e de grande acesso à mídia, tenha tido papel importantíssimo na criação de um campo em que toda uma geração foi introduzida a uma cultura reichiana despsicanalizada, o primeiro grande esforço assimilativo no campo psicoterapêutico corporal brasileiro, dos anos 1970, foi a busca de uma estruturação teórica de respeito face a cultura psi pré-existente. Tentava-se assimilar uma base psicanalítica para a prática neo-reichiana, buscando encaixar noções tais como id, ego, superego, inconsciente e transferência. Entretanto, o corpo, em sua potência e maravilha, permanecia intocado teoricamente.
No mesmo início dos anos 1980, a visão da nova subjetividade do capitalismo contemporâneo, trazida da França por Suely Rolnik e Félix Guattari, contaminava muita gente com um sentimento de uma nova vida se fazendo. Os saberes não mais encerrados na Academia estavam se tornando pop. Portanto, mesmo que não se mergulhasse na leitura do Anti-Édipo (Deleuze & Guattari, 1972), respirava-se uma nova realidade emergindo, uma nova alegria, novos ares, junto com o fim da Ditadura e o nascimento do Partido dos Trabalhadores (PT). O novo capitalismo, com o fim da Guerra Fria, quebrava fronteiras nacionais e começava a operar como Capitalismo Mundial Integrado (CMI) na formulação de Guattari. Revelou-se, imediatamente, que isso exigia novas teorias e práticas do corpo. A narrativa familiar como pano de fundo das nossas vidas, evidenciava-se como uma pequena parte da narrativa histórico-mundial e a história social ganhava seu papel na hermenêutica da Subjetividade.
Uma certa visão de corpo subjetivo no capitalismo industrial e seus efeitos, tinha sido descrita por Reich, que foi absolutamente inovador ao relacionar com a repressão sexual a adaptação de indivíduos ao autoritarismo da vida fabril, escolar, religiosa e familiar. O reinvestimento da libido na formação caracterológica com o comprometimento do reflexo orgástico – a neurose, era, para ele, a força motriz da sociedade industrial em que se produzia um forma corporal rígida, reprodutora do padrão de funcionamento autoritário aliado do Estado fascista. A dissolução da couraça muscular do caráter, deveria ser o foco das atenções, política e clínica, àquela altura da história. Mas era evidente, que deveria haver outra resposta bem diferente, já pressionando por formulação e invenção, que dissesse respeito ao modos de usar o patrimônio biológico e modelar vidas nessa nova realidade mundial que se anunciava (Guattari & Rolnik, 1986).
Na nova forma tomada pelo capitalismo (CMI), a coexistência com os modelos familiares certamente prosseguia, mas a estruturação do sujeito passava a ser regida por forças mais amplas. Com a nova conjunção de interesses de mercado e de grandes corporações, agora fundidas internacionalmente, não mais a “repressão”, mas a “falta” passa a ser central, para a geração do lucro. Tornava-se necessário, então, sensibilizar-se para a nova estratégia, não mais autoritária e repressiva, mas sedutora e convidativa do capitalismo de mercado. Nesse momento, tratava-se de lidar com um astucioso combinado da estimulação da falta perpétua com a oferta simultânea da ilusão de completude. As imagens veiculadas pela mídia passaram a desempenhar o papel principal nessa nova operação.
Mais adiante no final dos anos 1990, a ideia de Multidão (Negri & Hardt, 2004), até hoje invísivel para um grande número de pessoas, foi trazida pelos autonomistas italianos que aportaram no Brasil, descortinando a nova realidade do mundo já inteiramente globalizado. Compreender-se como corpos na multidão dava sentido para experiência da vida, agora, molecularizada, fragmentada, em luta por auto-organização e conectividade, organizando-se em modos minoritários de existência e trabalho, cada vez mais desvinculados das hierarquias, do emprego e das famílias – que, é o grande desafio da década corrente.
Com essa compreensão, tornou-se possível não se culpabilizar nem se ver fracassando, mas, apenas, entender a urgência de uma nova estratégia social e corporal para que fosse efetuada a luta que se apresentava. A velocidade imprimida pelo capitalismo evidenciava os corpos e seus mundos formando-se e reformando-se. Como em um filme acelerado, enxergavam-se os padrões de subjetivação modelados pela mão do mercado, dentro de um interjogo de poderes, valores e interesses comerciais. Essa era uma enorme revelação, mas prosseguia a necessidade de um conceito de corpo enquanto processo biológico autopoiético, tal como pedia a proposta de Guattari, que viesse acompanhado de uma prática intimamente conectada com o processo de produção de corpo nesse novo quadro.
2. A busca
Neste momento , faz-se necessário mudar o eixo da narrativa. É à primeira pessoa que pertence a continuidade deste artigo.
Com o recém-publicado “Emotional Anatomy” (Keleman, 1987), precisamente em 1987, redescubro seu autor Stanley Keleman que me escapara na década anterior e me aproximo de seu conceito de Processo Formativo. Finalmente, eu podia acessar um conceito visual e encarnável do corpo como um processo que se estendia desde os primórdios da biosfera, continuamente produtor e produzido por processos físicos e sociais, canalizando-se e secretando-se a si mesmo, gerando, dando forma e sustentando corpos e ambientes como uma resposta a necessidade inata dos corpos, de conexão e forma. O discurso de Keleman, um pensador contemplativo ocidental de tradição pragmatista e darwinista, me arrebatou.
Stanley Keleman é um autêntico fruto da cultura do corpo novaiorquina dos anos 1950 e portador da marca do Instituto Esalen, comunidade aberta no paraíso da Costa Oeste americana, onde viveu e trabalhou, na década que foi o auge da produção desse amálgama de ciência, espiritualidade, ecologia, Bodywork e Gestalt, conhecido como Movimento do Potencial Humano. Nos anos seguintes, mergulhado nas raízes heiddegerianas dessas ideias na Europa, formatou uma síntese que leva o nome de Processo Formativo. Em seu regresso, nos anos 1970, instalou seu Center for Energetic Studies em Berkeley (CA), onde prossegue, sempre independente, produzindo pesquisa, terapia, ensino e publicação.
Na largueza da expressão de seu pensamento, identifiquei algo comparável à visão ética-estética-política-clínica de Deleuze & Guattari que vinha contaminando o Brasil.
A atração pelo Processo Formativo não apenas se deu por conta da minha insatistação com a aplicabilidade das cartografias reichianas, para essa nova problematização da subjetividade corporificada que se apresentava, mas, sobretudo, pela impossibilidade que encontrei de produzir uma operatividade corporal a partir de conceitos agenciados por Guattari, sobretudo o de Autopoiese. Esse conceito foi criado por Francisco Varela e Humberto Maturana, na década de 1970, para designar a propriedade de autoconstrução do vivo. Esse descompasso me manteve atenta ao que pudesse surgir no horizonte americano. Meu foco, então, sobre Keleman foi mais do que certeiro.
Logo comecei a me corresponder com ele, a cuidar da tradução de seus livros, e, finalmente, em 1992, a freqüentar seus workshops em Berkeley (CA). Esse contato intensivo durou 15 anos, tempo suficiente, sempre honrando as forças Tropicalistas, para devorá-lo e assimilá-lo. Sem dúvida, também, a experiência como analisanda em divãs acolhedores, ao longo de todos esses anos, veio me desafiando e permitindo organizar um funcionamento criativo da mente, o que muito facilitou, e facilita, elaborar e trilhar caminhos difíceis com autonomia.
3. Keleman
O corpo como um processo formativo foi um achado clínico e filosófico fundante. Keleman, com sua linguagem biológica contemplativa, me arrastava para o caldeirão da vida se fazendo. Dava corpo ao espírito de imanência presente no pensamento de W. James e central na proposta micropolítica de Guattari, que, com seu claro tom de manifesto, formatara, definitivamente, minha responsabilidade com a produção do mundo. Ao descrever, a sinfonia das nossas vidas se formando como sistemas, dando continuidade ao modelo do unicelular, dentro dessa manta viva chamada biosfera, Keleman mostrava, com palavras e imagens, como cada corpo em particular faz, também, o mesmo que a biosfera: estende-se, recolhe-se, forma sub-organizações.
Eu reconhecia esse olhar, lisérgico e búdico, já encontrado, anteriormente, na contracultura, com Aldous Huxley, Timothy Leary, Fritjof Capra e toda uma geração de pioneiros americanos que apontavam a prática meditativa como instrumento para a captação da realidade se fazendo.
O expandir e contrair da superfícies corporais dessa bomba pulsátil é o modo pelo qual, afirmava Keleman, cultivamos conexões com o mundo e formamos conexões internas de subsistemas do self. Somos móteis e pulsáteis desde o unicelular e a Evolução, diz ele, nos dotou de um sistema cortical voluntário que mobiliza o pulso vivo do corpo. Mais conexões sinápticas podem se fazer, assim, dando prosseguimento ao trabalho auto-produtivo do vivo. Os corpos são vistos como learning-systems, portanto.
Para Keleman, essa ação de continuidade, natural da Evolução, deve ser feita intencionalmente por meio Prática de Corpar. Nela “o esforço voluntário cortical-muscular estimula o crescimento de axônios e vai formar uma estrutura conectiva, as sinapses, conectando a parede do corpo ao córtex.” (Keleman, 2007). Esse é o método preciso para organização da experiência individual e produção de diferença nas formas somáticas, desenvolvido por Keleman como a contrapartida pragmática de sua filosofia. Nessa prescrição, ressoando com a meditação cultivada pelos físicos quânticos, aparece uma prática. A Prática de Corpar, como descreve Keleman no artigo The Metodology and Practice of Formative Psychology (2007), é uma forma de meditação ativa ocidental, que se aplica sobre histórias, vidas, personagens, comportamentos e sentimentos, extraindo delas mais vida com as forças e propriedades da Evolução.
A cooperação íntima entre cérebro e músculos mostrava-se, portanto, como uma chave de valor inestimável que poderia abrir portas para a compreensão e o manejo da produção dos corpos dentro da nova estratégia do mercado, esse devorador da diferença. A descrição fina das ações que compõem a prática intencional do Processo Formativo do corpo, era puro ouro para ser aplicado micropoliticamente na realidade dos anos 2000.
Com o exercício do gerenciamento do sistema voluntário sobre o involuntário das respostas somáticas, cultivam-se e modelam-se adaptações finas sobre o corpo do presente, em suas formas de maturação, de identificações sociais, de reflexos de defesa às intensidades intoleráveis, de emoções, de modos vinculares, de secreção de mais corpo.
Em sua obra A Psicologia, de 1892, W. James forneceu uma afirmação que tornou-se central na cartografia kelemanina: os comportamentos antecedem a experiência. E o Darwinismo Neural, de 1992, do conhecido neurocientista G. Edelman, se apresentou também como aliado quando Keleman aplicou o conceito de ‘reentrada neural’ na qual o cérebro mapeia as ações do corpo e edita mapas neurais. Os mapas, na apropriação do comportamento do corpo, conversariam entre si e compartilhariam informação estabilizando novas ações musculares. Usando o processo neural natural, ativado pela Prática do Corpar, recombinam-se e estabilizam-se alterações dos comportamentos na continuidade desse corpo que se autoproduz. Assim, morfogênese e a metamorfose, para Keleman não são limitadas a uma intuição, mas consistem em uma prática inerente à vida que deve ser aprendida e praticada.
4. Intercessores
Esse conhecimento maravilhoso do corpo, embora apontando para o grande oceano comum da vida, não poderia escapar do conflito inerente à tradição individualística americana em que ideias, práticas e narrativas, mesmo as mais libertadoras, são tragadas para dentro do enquadre privado, em que ao corpo cabe apenas ‘tornar-se pessoa’.
Dentro dessa perspectiva que se configurou como mercadológica, escolas, na maior parte pertencentes a autores, se multiplicaram, incluido formações, filiações e direitos autorais, rigorososamente controlados e cobrados. Reafirmava-se, então, a necessidade de uma operação crítica sobre essa política cultural do desenvolvimento pessoal, para que se pudesse usá-la coletivamente em sua riqueza e potencial.
Nas famosas conferências, denominadas The culture of the self, em 1983, pouco antes de sua morte, M. Foucault, coloca o corpo numa imensa rede de saberes e práticas, desferindo um golpe elegante sobre esse olhar individualizante americano, californiano, em plena UCBerkeley. A operação genealógica que aqui também estamos empreendendo, espero que tenha potência para abrir uma brecha por onde poderão passar forças que venham alimentar micropolíticas de multidão. A essa altura, porém, para prosseguir com a tarefa de devolver o corpo ao coletivo, torna-se necessário invocar Antonio Negri, o militante da esquerda italiana radical, para aprender com ele algumas distinções importantes:
- pessoa é uma ideia moderna e multidão, uma ideia contemporânea;
- multidão é um todo de diferenças;
- o pensamento da modernidade abstrai a multiplicidade e transforma a multidão em uma massa homogênea a que chama povo;
- as políticas de homogeneização e hierarquia, são inerentes à modernidade;
- a multidão é sempre produtiva e sempre em movimento, produzindo-se, ao mesmo tempo que produz sociedade em produção;
- a multidão aponta para um modo vincular de cooperação geral, que sustenta a continuidade da produção da realidade.
- nada disso se faz sem luta. (Negri, 2004).
Entender, sentir e fazer essas diferenciações é fundamental. Mas, muita atenção, o terrorismo exercido pelo mercado se dá, podemos perceber com a ajuda de Negri, não mais sobre os corpos isolados, mas pelo boicote da cooperação e, sobretudo, pela exploração das redes que compõem o todo, atacando e moldando a conectividade entre os corpos. Vemos, então, como esse toque muda totalmente a direção por onde prosseguir na elaboração do corpo, clínicas, pedagogias e micropolíticas que protejam sua continuidade formativa.
Para elaborar uma estratégia corporalista útil para o contemporâneo, precisamos aprender a acessar nos corpos, com a ajuda das cartografias do Processo Formativo, os comportamentos de susto e imitação, bem como as propriedades de agregação, conectividade e amadurecimento (Favre, 2011).
Imaginemos susto e imitação se espalhando globalmente, de uma maneira nunca vista, como um vírus, por meio das redes de comunicação, sobretudo, por imagens, sejam informação ou modelos de comportamento, que agora nos envolvem a todos.
Imaginemos, também, que o corpo, que agora existe como multidão, continua sendo o mesmo corpo da Evolução que, para prosseguir canalizando a vida, agora funcionando no modo-multidão, exige manter-se como sempre, agregado molecularmente nas formas que o compõem; mas precisa, também, aprender a modelar-se em comportamentos que o façam parte funcional, produzida e produtora, do acontecimento coletivo. Imaginemos, também, esses corpos crescendo, em seu destino genético, da concepção à morte, desencadeando formas conectivas que vão da fusão à autonomia, da dependência à cooperação.
Vemos nessa cartografia rápida, que, para viver a realidade da multidão no contemporâneo, temos que aprender a dissolver, em primeiro lugar, as formas do susto produzidas pelo mercado da informação. Esse é o ataque do capitalismo às conexões entre o corpos que A. Negri nos faz sentir na pele. Em outras palavras, o reflexo do susto separa os corpos do ambiente. A desagregação promovida pelo reflexo do susto desencadeia em nós o reflexo da imitação. É o animal congelando diante do predador e mimetizando com o ambiente.
O que o mercado oferece para nossa imitação funciona como bordas subjetivas que aparentemente contém a desagregação em curso: modos de relacionar, morar, vestir, pensar, imaginar, amar, desejar, funcionar, produzir, gerar histórias de vida, opiniões, posições políticas que, evidentemente, são uma gambiarra.
Manejar esse dois comportamentos reflexos, é da maior importância. Precisamos aprender, também, a reconhecer e propiciar o amadurecimento vincular dos corpos, para que ocorra conexão efetiva com as redes, locais ou gerais. Os corpos trazem neles a potência de amadurecer da fusão à cooperação. Mas corpos imaturos fundem, dependem, se submetem, dominam, seduzem mas não cooperam.
Praticar a cooperação na producão de mundo deixa de ser uma regra moral e passa a ser o efeito de cuidado com os tempos formativos e os ambientes confiáveis, no formar e no amadurecer dos corpos. Só assim, geram-se as diferenciações potentes que nos conectam funcionalmente aos ambientes da rede global, sejam próximos ou distantes.
5. Na Instalação Didática
Depois de múltiplas experiências, de extensão e retroalimentação de um trabalho clínico e pedagógico com os corpos, passei a dar forma ao Laboratório do Processo Formativo, que começou a existir a partir do ano 2000, em São Paulo, um ambiente tecnológico e relacional, de convívio, estudo e registro simultâneo dos corpos em seu processo contínuo de autoprodução, captados em seu ato de existir e se relacionar com a própria experiência de estudo e manejo de si no ambiente. Nesse espaço, produzo e dirijo uma pesquisa formativa onde os grupos de alunos que se sucedem são sujeitos, agentes e aprendizes. Nesse estudo de conceitos e práticas de si, os corpos são registrados em ato e na simultaneidade, em vídeos, fotos, lousas, cadernos, desenhos, com compartilhamento imediato, em grupos fechados na internet. A invenção de uma estratégia específica e singular de produção e uso de imagens foi o primeiro passo para um trabalho sobre esse corpo contemporâneo em que o poder se expressa, antes de mais nada, por meio das midias de imagem.
Todos esses rebatimentos, que continuam se multiplicando, permitem que nesse ambiente de jogo, emerja uma naturalidade nos corpos, que é, justamente, o material de estudo a ser captado, recolhido, estudado, praticado e, por fim, apropriado como conhecimento, ao mesmo tempo, particular e coletivo. Atualmente, chamo de Instalação Didática esse processo de trabalho com os corpos em seu ato de se produzir.
Porém, tornar evidente a realidade somática em contínua produção de si, ao longo de suas vicissitudes formativas, é uma tarefa que requer um entrelaçamento delicado de linguagens e recursos expressivos.
No site do laboratoriodoprocessoformativo [este site] estão publicados uma série de posts, artigos, fotos e vídeos que mostram a enorme quantidade de elementos necessários para essa pesquisa com alunos e colaboradores. Sem uma estratégia especifica não nos daríamos conta da enorme quantidade de elementos, atividades e condições necessárias para a efetuação de um acontecimento. Se apenas contássemos com o recurso do texto, para descrever alguns momentos dos Seminários de Biodiversidade Subjetiva, enumerando tudo que estivesse ali compondo aquele presente-lugar onde os corpos estavam se formando em tempo real, visível e invisível, precisaríamos da competência de um grande romancista e de uma infinidade páginas.
Descreveríamos o salão de grupo, sua adaptação, os equipamentos, as instalações, as janelas antirruído espelhadas, o chão branco onde as ações normais das pessoas aparecem como esculturas de si, os fios, a iluminação, o grande mundo lá fora constantemente lembrado. Além disso, descreveríamos as ações do câmera, do relator, as cartografias no quadro branco que chamo de ‘ovo’, as formas de exibição no telão, no monitor de televisão e no próprio ‘ovo’, onde as imagens dos corpos podem ser redesenhadas e compreendidas em sua relação forma-função. A internet de onde retiramos os mais variados vídeos de ciência, comportamento, arte, para compor com nosso ambiente cognitivo, os programas de edição que transformam o acontecimento captado em posts de imagem e texto finalizados a serem publicados no site ou que serão editados em hand-outs a serem retrabalhados e multiplicados nos grupos.
Teríamos muito mais trabalho para descrever as captações de imagem e texto, que, mais surpreendentemente ainda, irão alimentar em tempo real os grupos de particpantes em um grupo fechado no Facebook. Nssa camada virtual da Instalação os alunos encontram falas, cenas, fotos, teoria, referências de filmes, livros, autores, bem como diálogos literais e interações somáticas produzindo um espaço grupal como acontecimento (que chamamos também de “aquário”ou “cubo sobre a cidade”). Todo esse material poderá imediatamente ser revisto, estudado e utilizado, graças à agilidade do método REII – Registro Imediato Interativo, desenvolvido por Liliane Oraggio, relatora dos grupos. Por aí, vemos um pequeno exemplo de cooperação produtiva de ambientes e métodos.
Mais do que tudo, jamais seríamos capazes de descrever o que a composição de relações, momentos, falas e ações contam sobre a vida dos corpos ali. Essa estratégia complexa e relativamente barata, enfatiza, como parte da experiencia didática, a evidência de que vivemos e formamos nossas vidas, continuamente, em ecologias e que somos parte não apenas de famílias, mas de redes físicas, afetivas, cognitivas, tecnológicas, políticas, sociais, informacionais. O conteúdo não se separa do vivido, do registrado, das práticas, da própria instalação e das ações que sustentam essa produção do acontecimento-seminário onde os corpos estão imersos. É tudo autoevidente. Esse é o efeito que busco com essa articulação de elementos heterogêneos a que chamo, em homenagem a J. Beuys, de Instalação Didática.
Nesse sentido, mostrar e enfatizar a Instalação Didática – suas mídias e seu agenciamento de recursos que ultrapassam infinitamente o indivíduo – expressa, afeta e ensina tanto quanto as cartografias que conduzem o trabalho filosófico, clínico e pedagógico, em curso.
Para fazer funcionar a instalação é necessário, antes de mais nada, praticar e compreender o corpo como bomba pulsátil, conceito central de Keleman na sua Anatomia Emocional (Keleman, 1985), em que, assim como as medusas, o corpo bombeia-se a si mesmo nos ambientes, bombeando-os. Esse conceito biológico e performativo nos inclui imediatamente na realidade de que somos parte dos ambientes e, não apenas, que vivemos dentro de ambientes.
Aprender a se reconhecer como parte de múltiplas ecologias, saber-se um corpo na multidão, sensibilizar-se para a inteligência coletiva é o passo seguinte. Mas, essas evidências conceituais são refratárias a estratégias iluministas e apenas se deixam ser apreendidas numa captação entrecruzada, num ato de concretude da presença física, como prescreviam os físicos quânticos dos anos 1960. Esse é o pulo do gato.//
Referências
Anderson,W.T. (1983). The Upstart Spring. Lincoln, NE: Addison-Wesley Publishing Company.
Cushman, P. (1995). Constructing the self, constructing America. Menlo Park, CA: Addison-Wesley Publising Company.
Edelman, G. (1987). Neural Darwinism- The Theory of Neuronal Group Selection. Cambridge, MA: MIT Press.
Favre, R. (2010). Trabalhando pela biodiversidade subjetiva. Cadernos de Subjetividade, Núcleo de Estudos da Subjetividade. São Paulo: Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica, Pontificia Universidade de Sao Paulo.
Favre, R. (2015). Na Instalação Didática.
Foucault, M. (1983). The Culture of the Self, (https://www.youtube.com/watch?v=F7LW1EWhD5M).
Guattari, F. e Rolnik S. (1986). Micropolítica, Cartografias do Desejo. Rio de Janeiro: Editora Vozes.
A captura dos corpos, o caminhar e a autonomia
Vídeo apresentado por Regina Favre em palestra no evento “Encontros e Atravessamentos entre corpo, tempo e espaço”, coordenado por Edith Derdik no Centro de Pesquisa e Formação do SESC-São Paulo, em novembro de 2016.
PALESTRA:
A captura dos corpos, o caminhar e a autonomia – imagens, conversa e práticas de si.
Hoje, a rede planetária onde nossa vida se dá chama-se mercado. Essa realidade vertiginosa e agressiva do capitalismo contemporâneo nos ameaça continuamente de exclusão. Esse mesmo capitalismo nos oferece modelizações adaptativas aparentemente para evitarmos essa exclusão. Engano. Felizmente, no fundo da nossa realidade, continuamos ser os mesmos corpos de animais marchadores e gregários. Cultivar no corpo esses dons herdados da Evolução, pode ser uma chave de potência, autonomia e a conectividade dentro dessas redes de corpos onde vivemos. Vamos experimentar.

