Da dependência à cooperação… um longo caminho de maturação somática, comportamental e vincular a ser cultivado como uma prática de si, uma ética da diferença, uma educação, uma clínica…desenvolver um modo funcional de co-corpar nos campos corpantes da atualidade.
No Seminário de Biodiversidade Subjetiva estamos cultivando e estudando a compreensão e o manejo do processo corporal, sempre voltados para a potência conectiva e nosso funcionamento em rede, como todo e qualquer ser vivo.
Biodiversidade Subjetiva: estudo do processo formativo nos tempos globais
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Regina and Rogerio: fragments of a fifteen year conversation (65,4 KiB, 2.129 hits)
A conceptual device for honoring and enhancing subjective biodiversity: a political way of teaching and experiencing Stanley Keleman´s Emotional Anatomy. (645,6 KiB, 2.193 hits)
Subjective Biodiversity (181,3 KiB, 1.922 hits)
Halfway (40,3 KiB, 3.486 hits)
Exclusão, o grande predador social
Debate do III Forum Claudia pela Mulher Brasileira, no dia 6 de março de 2009, Auditorio Eva Herz, São Paulo.
Regina Favre, Marcia Neder, Maria Paula e Roberto Gambini falam sobre pressão social.
Um diálogo sobre a Biodiversidade Subjetiva
Palestra na Sociedade Brasileira de Análise Bioenergética
Regina Favre apresenta sua trajetória e o conceito de biodiversidade subjetiva, eixo de sua prática clínica e de seu trabalho atual no Laboratório do Processo Formativo, em São Paulo. A partir de 2001, em sucessivos seminários teórico-vivenciais, o pensamento e o método da Anatomia Emocional, do americano Stanley Keleman, foi sendo amplificado.
“Depois de 15 anos de estudos, confrontei a posição apolítica de Keleman e comecei a formular o conceito de biodiversidade subjetiva, que considera o nosso funcionamento em rede. Segundo a visão formativa kelemaniana formamos corpos e vidas, a partir do herdado e do vivido. Mas, penso que hoje vivemos em uma realidade global e necessitamos de uma visão que considere as diferentes ecologias físicas, afetivas, cognitivas e sociais, das quais somos parte e produtores. Mais que indivíduos, somos canais em torno dos quais se tecem sujeitos corporais continuamente. Nessa perspectiva, a biodiversidade não diz respeito apenas à natureza, mas às respostas, linguagens, formas de comportamento e aos ambientes que somos capazes de gerar. Isso não tem nada a ver com o individualismo. Temos a capacidade de produzir diferença no inato e nos modos sociais de constituir sujeito. Esse é o trabalho com a biodiversidade subjetiva, sempre apoiado nos princípios formativos da Anatomia Emocional.” define Regina Favre.
Para afastar-se compreensão kelemaniana moderna de individuo, Regina aproxima-se do filósofo italiano Toni Negri. Hoje somos multidão, multidão de corpos, com a imensa potência de trabalho vivo, cooperação, expressão e, portanto, construção material de mundo e história. Se no passado era o povo que estava na base da sociedade industrial e a luta era contra o poder disciplinar, atualmente, a luta é pela conexão e cooperação entre corpos na criação do que ainda não existe.
Não basta desejar cooperar. Cooperação é o efeito da maturação dos modos de conexão. Essa maturação pode ser propiciada pelos recursos do método formativo e da visão clinica e filosófica da biodiversidade subjetiva. Essa visão original que cruza tantas áreas do conhecimento – filosofia, história social, política, neurociências, educação somática, anatomia evolutiva – é capaz de provocar diálogos instigantes. Como este a seguir, durante uma palestra. Acompanhe:
Clínica e micropolíticas
Platéia – Na clínica, fazemos o atendimento individual e fiquei pensando que isso é pouco, que estamos muito longe de atingir essa rede… (comentário de uma psicoterapeuta).
Regina Favre – É na clínica mesmo que pode acontecer essa maturação dos corpos em direção à necessidade do contemporâneo. O trabalho é pequeno mesmo. Não se trata de promover a grandiosidade da revolução, mas sim, as micropolíticas: cada macaco no seu galho fazendo seu serviço bem feito. Nossa questão não é mais com a repressão, como era na sociedade industrial, capitalista e patriarcal. Hoje, estamos imersos em jogos de força, com tremenda concentração de poder. Dentro da sociedade de consumo, do capitalismo pós-moderno, vivemos a captura do desejo. Atualmente, o poder boicota a cooperação entre os corpos. Não é mais uma questão de autoridade. O grande trabalho hoje é das conexões dentro da multidão, de modo a permitir essa interconexão, para além de classe social ou hierarquia. É a conexão entre os corpos que pode produzir o futuro.
Capitalismo, apavoramento e ilusão
Platéia – O que impede a conexão dos corpos?
Regina – Vivemos completamente rodeados de modos e formas a serem adquiridas, consumidas, que nos oferecem contornos subjetivos prontos, com os quais tentamos nos estabilizar na velocidade dos nossos dias. O mundo é totalmente “midiatizado”. O tempo todo estamos expostos a informação e notícias que assustam tremendamente as pessoas. O que acontece nos corpos no estado de apavoramento? Somos tomados pelo reflexo do susto. Essa resposta em bloco imobiliza. Aquilo que é mostrado no noticiário fala de situações de exclusão – doença, crise, envelhecimento, violência, miséria. Ao mesmo tempo, essa mesma mídia pós-moderna anuncia produtos e mais produtos, que não são apenas coisas, são estilos de vida, contornos existências vendáveis que prometem inclusão. No mesmo instante que compra-se o produto, que supostamente aplacaria essa angústia, a desagregação de si prossegue e a corrida assim torna-se infinita, alimentando o capitalismo. Nesse jogo de forças, as pessoas são mobilizadas a sempre reconfigurar a ilusão. Os vínculos criados a partir dessa “modelização existencial” não funcionam e bloqueiam, reafirmando o desejo sempre de modo individualista. Essa conexão só pode ser restabelecida quando é possível uma maturação dos modos vinculares, que vem da real maturação do modo de funcionamento afetivo dos corpos. Isso permite a produção da diferença e, portanto, da biodiversidade subjetiva.
Platéia – Esta é uma visão otimista… poder se movimentar nesse mundo… Isso dá um alívio…
Regina – Sim, esse trabalho e o conceito de biodiversidade subjetiva é otimista e se contrapõe ao medo gerado pelas imagens a que somos expostos incessantemente.
Co-corpar
Platéia – Queria saber sobre o co-corpar a que você se referiu…
Regina – Hoje, não podemos mais pensar que no mundo contemporâneo a narrativa seja apenas familiar. A narrativa atual é histórico mundial. É necessário navegar por essas redes de relações, sem perder de vista que os corpos se conectam, do mesmo modo que as formas vivas mais simples são conectivas. O corpo é modo de funcionar, na evolução, no crescimento, nas ligações que se estabelecem o tempo todo entre corpos que pensam, sonham, agem, sentem, formam. Na clínica é fundamental cultivar a tolerância somática à diferença, criar um corpo com organização somática tal, com tal diferenciação, que possa tolerar e, mais que isso, conectar-se com as diferenças. Nessa prática, nós produzimos algo, você e eu, por que eu co-corpo com você.
Reportagem e edição: Liliane Oraggio
Foto: Lucia Freitas
Seminários Vivenciados de Anatomia Emocional
O que são os Seminários Vivenciados de Anatomia Emocional?
“Desde 2002, Anatomia Emocional tornou-se o centro da minha pesquisa e criação que está configurado hoje como uma leitura ativa deste livro que acontece com diferentes grupos por quatro semestres. Como professora, ajo como leitora, comentadora e intérprete (no sentido de cantora ou performer), diretora de cena, uma lenta escaladora das linhas da Anatomia Emocional, juntamente com grupos numa atmosfera contínua de ensaio.
Os grupos são compostos por pessoas que já têm sua própria experiência e autonomia em suas vidas e profissões: terapeutas corporais de diferentes tradições, médicos, psicólogos, terapeutas ocupacionais, bailarinos, atores, fisioterapeutas, artistas plásticos, assistentes sociais, consultores, jornalistas, professores…
A transmissão formativa se constitui num evento em si mesmo. É a experiência corporificada de uma bem tramada produção em camadas de corpos e ligações, conhecimento formativo somático e conceitual, linhas narrativas, gravar e ver vídeos, exercícios de formulação do pensamento na linguagem formativa, posturações de si mesmo, a experiência do método Kelemaniano de corpar, desenhar somagramas, produção de mapas conceituais, conversas sobre história social, política, biologia, modos de subjetivação, auto-narrativa somática, descrições de diferentes pessoas funcionando em suas vidas e seus mundos.
O ambiente, especialmente desenhado para este fim, é uma pequena máquina feita da interconexão de elementos heterogêneos: o livro da Anatomia Emocional, imagens da aula anterior sempre rodando na TV sem som como camadas de memória, o controle remoto para stills, slows, backwards, fowards, quadro a quadro, a qualquer momento da aula, a gravação de imagens dentro de imagens, um operador de câmera profissional sempre lá como parte do grupo, um telão, um retroprojetor com sua luz que cria ambientes expressionistas, a projeção magnificada das transparências das imagens da anatomia emocional e da biologia evolutiva que nos dá a experiência da nossa pequenez dentro do pré e do pós-pessoal, um enorme quadro branco, cadeiras desmontáveis, o assoalho claro e paredes amarelas onde toda ação se torna minimalisticamente visível, uma grande janela que reflete dentro da sala ao mesmo tempo que emoldura o mundo lá fora de que somos parte.”
Este Seminário passou por dez versões e ainda tem dois grupos em andamento. A partir de agosto 2009, será substituído pelo Seminário Vivenciado de Biodiversidade Subjetiva.
Conheça mais sobre Regina Favre
Foto: Liliane Oraggio, AE10
III Forum Claudia Pela Mulher
Na edição de abril, a revista Claudia traz uma longa matéria sobre as discussões que aconteceram por lá e quatro pequenos vídeos.
fotos: Lucia Freitas
















