Regina Favre, 2016

Exercícios formativos são micro-performances conduzidas, protocolos, que incluem novas possibilidades de si, de dramaturgias nos ambientes. Não se trata de ações mecânicas, mas ativações da experiência. São variações da anatomia emocional que se voltam sobre si como problematizações, estímulos ao pensamento somático sobre o acontecimento presente, ativações da inteligência formativa, percursos pela forma em micro-movimentos.
Esse modo de exercício, criado por mim inspirada no Formativo de Stanley Keleman, deve dizer respeito à aprendizagem das ferramentas para participarmos do processo formativo que acontece continuamente nos corpos e nos ambientes. Com essa prática intencional da corporificação produzimos respostas únicas ao vivido. Um encaixe atual. No exercício formativo aprendemos e praticamos gerar e preservar as respostas que funcionam e que descobrimos ao fazê-las. O grupo de exercício é um espaço-tempo de experimentar designs de comportamentos, suas variações, seus encaixes, seu poder de construir corpos e ambientes, sua potência multiplicadora.
Hoje, o ambiente dos corpos não é mais só natureza nem só as relações interpessoais dos pequenos mundos, mas nosso ambiente hoje é o mercado, que é global. Nascemos, vivemos e morremos no jogo de forças do mercado. E o mercado, diferentemente das forças do poder moral das famílias e das instituições, não vigia e pune como antes, mas exerce uma captura das forças formativas nos corpos.
O mercado age diretamente sobre as forças da vida, sobre o desejo nos corpos. A produção constante de imagem e sentido onde estamos imersos é a própria expressão do mercado. Ele inunda e encharca continuamente nosso espaço somático, agindo através de um duplo jogo: a ameaça de exclusão e a oferta de configuração da nossa forma que continuamente se desfaz sob o efeito da velocidade dessas forças. A ameaça de exclusão significa a desconexão das redes que formam nossa realidade global.
Os corpos são um fluxo contínuo de formas somáticas, repetitivas ou atuais. E as formas somáticas são o próprio comportamento. Através delas podemos sintonizar com o como fazemos o que fazemos para estar no acontecimento. O embodiment diz respeito a dar corpo às nossas respostas ao vivido. A arte do embodiment necessita ser aprendida, embora seja uma função natural dos corpos. Ao praticar o embodiment que é a corporificação da nossa experiência, sempre única, estamos reafirmando nossa vida em rede, contribuindo para a biodiversidade das ecologias humanas e não humanas. Embodiment é uma expressão utilizada em inglês em diversas áreas do conhecimento atual.
O embodiment diz respeito ao processo de produção contínua de um corpo com material ambiental e as forças formativas do vivo. A arte do embodiment diz respeito ao uso formativo de si enquanto bomba pulsátil imersa no acontecimento.
Nessa prática intencional do embodiment cada corpo subjetivo pode:
1.reconhecer-se como um corpo que se constrói com o acontecimento e com as próprias respostas ao acontecimento;
2.usar-se como uma bomba pulsátil que, como as medusas, expande e contrai, produz vácuo e atrai ambiente para dentro, suga o ambiente e projeta sua expressão de volta;
3.encher-se de ambiente, esvaziar-se, expressar-se, propulsionar-se, nadar na excitação do acontecimento;
4.identificar-se com as novas formas que, nesse contato com a realidade em processo, emergem da profundidade somática e respondem ao acontecimento;
5.cultivar em si as respostas que sejam as mais potentes para a continuidade da jornada de cada corpo de gerar-se como uma bomba pulsátil, o mais funcional possível.
Isto significa:
1.possibilidade de produzir diferença dentro da homogeneização das vidas promovida pelo mercado reconhecendo como o mercado ataca a biodiversidade, física e subjetiva.
2.possibilidade de gerar formas frescas (não repetir as obsoletas e sem risco) de conexão entre os corpos e o acontecimento.
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