Em 2014, Regina deu esta série de entrevistas para Leila Machado como matéria de pesquisa para seu pós-doutorado na Universidade Federal do Espírito Santo. São cinco vídeos, gravados em 3 dias seguidos.
Como você faz o que faz?

Ao usar tecnologias de imagem para captar e estudar os corpos no ato de se fazerem, fazendo o que fazem para estar presentes e funcionar dentro de uma certa dramaturgia que vai se tecendo, estamos investindo numa epistemologia da ação.
Essa ocupação coletiva com estudar lidando com imagens, registro, tecnologia, grupalidade, conversa e experimentação permite e mesmo exige o acesso aos modos e comos de os corpos operarem o acontecimento grupal.
Viver o processo formativo no processo grupal… gravar e rever… prosseguir absorvendo o vivido em seu presente, aprendendo consigo mesmo como os corpos se produzem continuamente no acontecimento… produzir sempre novas experiências sobre experiências anteriores gerando mais camadas de experiência… contemplar as gravações… aprender a ler as mutações do vivido sobre os corpos… dar corpo às ações e sentido às configurações corporais … problematizar ao vivo… produzir diferença aplicando a linguagem formativa em estudo…vivenciar, apreciar e praticar as novas conexões e realidades que a diferença dispara. Camadas de realidade somática se seguirão, mais e mais, buscando incluir sempre a diferença produzida e um novo modo de funcionamento no ambiente. E o COMO, se apresentará como a chave para o aprendizado dessa filosofia prática que lida com o manejo do processo formativo de corpos e mundos.
Este grupo, protagonista de um episódio que utilizo aqui para mostrar o processo formativo em funcionamento, vivia seu primeiro encontro no seminário presencial no Laboratório do Processo Formativo, antes da pandemia. Após a seleção dos participantes em um encontro anterior a que chamávamos de Degustação, estávamos iniciando um processo de dois anos de encontros no ambiente que denominei de Instalação Didática que eu defino como tecnológico-vincular. Tratava- se ali de um começo e era isso o que tínhamos a viver e captar simultaneamente. Sem facilitações. Todos compartilhávamos da mesma dificuldade que era começar alguma coisa.
O grupo foi imediatamente apresentado às ferramentas do formativo e a primeira instrução, antes de tudo, era que cada reconhecesse como estava corporalmente organizado. Atenção, leitor: a organização corporal no acontecimento expressa o que estamos fazendo, aqui e agora. É com esse corpo, nesse conjunto de ações estabilizadas, nessa forma, nessa organização, que vivemos o que estamos vivendo, dentro do acontecimento. Esse é o sentido do que se está vivendo. Ações não são movimentos no espaço, mas, antes de mais nada, são organizações de si que geram tal ou tal efeito nos ambientes, interno e externo, que nos conectam com esses ambientes de tal ou tal modo, nos fazem viver isso ou aquilo, e aparecem no espaço como uma certa configuração de um si.
O processo formativo lida com a continuidade dos corpos no mundo. E é sempre com o problema do prosseguimento que nos cabe lidar, seja em grupo ou individualmente. Naquele primeiro encontro, o problema que se apresentou era como colocar em andamento a produção de ambiente em uma condição em que o silêncio se havia instalado em cada corpo, nos primeiros momentos de uma grupalização. O silêncio evidentemente era o problema a ser trabalhado. Aprendemos sobre corpos apreciando, no ato, seus modos e comos, ou seja, o como fazem o que fazem e o como vivem o que vivem. Seja na clínica, seja no ensino, devemos ajudar o grupo ou o indivíduo a perceber que esses modos e comos são formatações anatômicas, configurações de si, reconhecer essas configurações que se expressam pela tessitura muscular da presença em cada corpo. Desta maneira. Em situações fáceis como difíceis. Como você está aqui? Através de que ações muscularmente estruturadas você contém a si e se conecta com o ambiente de que está sendo parte?
Nesse primeiro momento grupal aqui retratado, cada corpo estava funcionando em modo-silêncio. Não se pode esperar que os corpos façam diferente do que estão fazendo. Por essa razão, só faz sentido extrair exercícios ou experimentações, como se queira chamar, do acontecimento em curso. Isso é muito diferente de exercícios de mobilização ou facilitação de grupos. A essa operação, seja no ensino seja na clínica, chamo de problematizar. O que está acontecendo? Passo 1.
Problematizamos como uma maneira de afinar nosso funcionamento, ao vivo, com o processo geral. Afinamos para prosseguir. Todos podem sentir em si, todo tempo, a pressão da vida para prosseguir. Prosseguir significa se engajar na continuidade da produção de corpo, ambientes, linhas de vida, redes, seguir o programa do vivo. Todos os corpos vivos, queiram ou não, estão destinados a gerar seu futuro, como diz Keleman.
O design de uma forma é o seu próprio modo de funcionamento. O grupo estava em silêncio, profundo silêncio. Mas o silêncio em cada um está organizado de um certo modo. E cada um poderá voltar-se para si e captar-se em seu silêncio. Esse é o pulo do gato. Como cada corpo faz o seu silêncio? Como realiza a ação de silenciar? Como é seu design? Como é o seu modo de produzir silenciar? Como? Passo 2.
Captar-se é diferente de imaginar ou observar. Captar-se é reconhecer-se e identificar-se com o como estou fazendo esta configuração anatômica, esta postura, esta atitude, esta presença. Postura, atitude, forma, organização de partes, funcionamento, resultam no que se chama comportamento. Comportamento é o que estou fazendo, é um certo conjunto de ações. Captar como estou me comportando é a chave. A organização postural me mostra a atitude, o funcionamento, o que estou fazendo. Perguntamos a nós mesmos o que estamos fazendo para ser parte de um certo ambiente? Para o pragmatismo americano o que importam são as ações. O pensamento formativo é um descendente direto do pragmatismo americano.
O corpos, nesse campo em particular que estamos descrevendo, estavam silenciando. Cada corpo está como? Fazendo silêncio como? Como passar do anatômico para o emocional, para o existencial? O que estou fazendo? Como estou me comportando aqui e agora para fazer minha parte nesta cena, nesta configuração de um ambiente. Atenção que nesse ponto é muito fácil iludir-se com as retóricas, com as belas palavras, produzir idealizações, aplicar julgamentos.
Falo então com o grupo: Como você usa a sua anatomia para silenciar? Como se modela o silêncio em você? Capte essa forma que se chama silenciar. Silenciando… é o que você está fazendo. Os corpos estão sempre fazendo alguma ação, de algum modo.
Estou ajudando corpos silenciosos se fazerem perguntas bem concretas. Como agrego partes da minha anatomia particular para modelar o ato de silenciar? O que faço com o este peito, com esta barriga, com este assoalho pélvico, o que eu faço com esta garganta, com estas costas, ombros, dentro da cabeça, etc, etc? Como convoco partes, direções de forças e produzo silenciar? Pode-se a essa altura anotar nos cadernos não esquecendo jamais Darwin e os naturalistas viajantes, anotadores da natureza. O ponto é: como você faz? No caso, como você faz esse comportamento de silenciar? Como corporifica essa estratégia inata de todos os animais para não serem notados pelo predador?
A instrução ou consigna é fazer uma pequena descrição, notas sobre as ações envolvidas nessa ação de silenciar… levantar, apertar, dispersar, esticar… aqui, ali, isto, aquilo…. procurar os verbos… reconhecer as ações que a estrutura anatômica particular de cada um faz sobre si mesma para silenciar. O que queremos aqui é aprender sobre os corpos e aprofundar sua identificação com suas ações. O como é descritivo.
A seguir, devemos usar essa descrição como um conjunto de ações sobre si mesmo para imitar o que você faz involuntariamente para, no caso, silenciar. Você vai tentar fazer intencionalmente o que você captou e descreveu desse comportamento que aconteceu instintivamente. Ao repetir, intensificando a consistência da forma e desintensificando a mesma ação várias vezes, você confere e amplia sua descrição: apertar, esvaziar, encher, endurecer, soltar etc. aqui e ali… Esse, na Prática de Corpar kelemaniana é o Passo 3. Esse é o momento para se esboçar um desenho dessa forma. Keleman chama isso de somagrama. Faz-se um contorno da forma e indicam-se as ações exercidas sobre si para se fazer o que se está fazendo. Usam-se flechas, linhas mais fortes, pontilhados etc… O desenho deve mostrar como você faz corporalmente para produzir isso ou aquilo, no caso do grupo em questão, silêncio.
Você estará começando a fazer ao mesmo tempo uma cartografia deste acontecimento. O acontecimento é uma paisagem viva. E a cartografia é uma descrição gráfica e verbal dessa paisagem onde os corpos são produtores e produzidos, a forma desenhada e experienciada permite que aquele corpo reconheça seu modo de conexão com aquele ambiente ou como você é parte de uma produção coletiva. Com sua postura, sua atitude, sua forma que no caso é o seu silenciar, cada um ali é parte, produtor e produzido, neste acontecimento que é, no caso, silêncio grupal inicial. Como cada um está sendo parte desta paisagem?
Com essa pergunta começa a produção coletiva de uma cartografia. Já tínhamos a descrição do comportamento. Podíamos avançar. Como modelam-se as intensidades em cada corpo para produzir isso? Isso é uma expressão, uma resposta, um comportamento… únicos, embora genéricos… que ações cada um exerce sobre si para produzir isso, esse comportamento em questão? Dizer comportamento é o mesmo que dizer funcionamento que me conecta de certo modo a ambientes.
Ao se identificar com a forma do comportamento de silenciar, ali presente, no caso, cada um vai perceber que intensidades são excitação biológica face ao acontecimento e que cada corpo em particular responde de um certo modo ao acontecimento no qual está imerso. Acontecimento, vamos definir assim, é a configuração do presente, o estado de coisas de que sou parte.
A excitação preenche um corpo de si mesmo… vivifica as partes anatômicas envolvidas na resposta ao acontecimento, que, no nosso caso, é silenciar.
Como cada um responde a este acontecimento de que todos são parte, a essa ecologia mínima que é este acontecimento? Como é o modo particular de silenciar de cada corpo? No silêncio face o grande estranhamento com o ambiente tecnológico da Instalação Didática, o que fazer nesse ambiente, que palavras emitir com esse corpo para dar expressão ao vivido ali?
Resumindo o protocolo do corpar que nos guiou:
- Num primeiro momento, fizemos a descrição daquilo que se captava enquanto forma anatômica presente.
- A seguir, usamos essa descrição para repetir intencionalmente essa forma do silenciar, só que de maneira mais nítida. Usam-se todas a indicações, que a descrição (como é) fornece.
- Agregar, então, intensidade muscular a essa forma, intensificando-a, fazendo-a com mais nitidez, colocando um grau a mais de tônus …ou um grau a menos…. fazer variações neuro-motoras de intensidade e amplitude na configuração captada.
Com esse procedimento extraído e amplificado do exercício dos cinco passos de Keleman, estamos também, finamente, vivificando essa forma e sua pulsação. Esses três primeiros passos servem, para que um sujeito possa intencionalmente se colocar na ação que se fez nele involuntariamente. Esse identificar-se com a própria ação como um design anatômico no presente começa a nos encaminhar imediatamente para reconhecimentos mais amplos para além do nossa vida individual. Começamos a nos identificar como produtores de ambientes a partir dessa potência produtiva dos corpos que estamos identificando em nós. Estamos começando a captar como corpos e ambientes se fazem continuamente, a acompanhar e intervir no processo natural dos corpos de secretar a si mesmos. Cada corpo está gerando mais corpo continuamente. Os corpos não são um objeto no espaço, mas um processo no tempo, como diz Stanley Keleman, o autor com quem aprendi o processo formativo.
Nesse momento que se segue aos três passos descritos, os corpos pausaram, de modo visível, em sua pulsação excitada incubando uma nova resposta certamente mais afinada com a demanda do acontecimento em curso. Diria que os corpos ali se esboçavam o impulso de formar um novo comportamento. Vejamos. O processo formativo trata dessa potência e seus comos. A essa altura, cada um no grupo já disporia de condições de mostrar isso que já estava à mostra: sua forma de participar deste ambiente. A isso chamo de solo. Ao mostrar como somos e quem somos estamos produzindo solos.
O solo em questão dizia respeito a mostrar para o grupo o como de cada um para modelar suas intensidades e produzir o silêncio que era o ambiente em questão, no presente. O comportamento de silenciar que antes isolava, começa a constituir inclusão e encaminhar uma produção coletiva de ambiente. E o que havíamos reconhecido inicialmente como efeito de uma ação imobilizadora, o silêncio, passa a se revelar como um instrumento para a constituição somática da presença.
Para mostrar, fica-se em pé. Assim utiliza-se plenamente a estrutura. Estamos habituados a considerar as ações expressivas a uma modelagem circunscrita a uma certa área, por exemplo, uma boca que faz conexão através de um sorriso. Mas, o restante do corpo se modela, simultaneamente, nas diferentes camadas e estruturas anatômicas que compõem um corpo para que se produza presença. Isso gera as notas complementares da experiência principal. Nesse sentido a Anatomia Emocional é preciosa, revelando as diferentes camadas de experiência e tecidos.
Pergunta-se: como faço o que faço? Essa pergunta vale para cada ação do nosso contínuo de ações na continuidade das nossas vidas. Dentro daquela realidade grupal aqui narrada, evocava-se o design particular de como se silenciava. Com essa recomendação não estamos buscando criar nada artisticamente, não queremos nos livrar de hábitos, não queremos diagnosticar padrões neuróticos de funcionamento, não queremos representar nada, mas queremos praticar intencionalmente o que os corpos fazem todo o tempo para se manter coesos e conectados: ações sobre si mesmos. Insisto: não se trata de uma ação no espaço, mas ações sobre si. As ações e o deslocamento no espaço (movimento) são uma consequência de um conjunto de ações sobre si, bem como bombeamentos da excitação.
Para aprofundar uma relação neuro-motora com nossos solos ou expressões no mundo, devemos fazer então ensaios-esboços e a seguir intensificações, isto é, definirmos melhor, muscularmente, nosso modo de fazer uma ação. A intensificação torna mais claro aquilo que se faz imperceptivelmente. Estamos com esse procedimento ligando mente e corpo, estamos ativando o embodiment ou a corporificação. A intensificação permite que o córtex reconheça e registre uma configuração motora. Intensificar-se fazendo os aumentos de intensidade passo a passo, reconhecendo um design, testando suas amplitudes em graus aprendemos a influir sobre nossas ações.
Menos é mais recomenda Keleman, com sua praticidade americana, faça menos para se sentir menos representativo e mais agente do esboço motor em questão, assim você pode perceber esse comportamento, essa atitude, essa presença. Quando você faz a ação mais sutilmente, você vive a intensidade dela e identifica o sentido do que está fazendo. Identificar-se com o sentido do que se está fazendo. Estou fazendo isso, então uma nova forma se inclui no seu repertório. A Evolução salva comportamentos bem sucedidos. Filogeneticamente e ontogeneticamente. Uma ação bem integrada na memória da estrutura emana de você e se comunica com os outros corpos. As formas dos corpos conversam entre si formando novas redes. Podemos chamar isso de co-bodying ou co-corpar. Esse é o princípio da produção da diferença.
A essa altura, alunos se voluntariaram para fazer solos, mostrar com seus corpos comos silenciam:
… silenciar para a Natalia era contrair as costelas, mantê-las apertadas e ausentar-se do rosto…
… silenciar para o Sergio era imobilizar o diafragma torácico e desviar sua atenção do ambiente olhando para os próprios pensamentos….
… silenciar para a Ana Paula era contrair os tubos profundos e mantê-los contraídos…
… silenciar para a Dafne era esvaziar-se, zerar intensidades…
… o Caio faz seu silêncio levando os ombros para trás, os olhos para cima e o peito para a frente…
… o Fernando silenciava empurrando a nuca para trás e baixando a garganta…
… a Mariana contraía e desativava a excitação no tórax ativando um lugar para si na barriga….
O que pudemos vislumbrar nesse procedimento é que estávamos lidando com a possibilidade de editar nossos comportamentos estruturados… isso é o que chamamos de atualização de si, dos modos de conter as próprias intensidades e conectar-se com o acontecimento presente.
O autor de neurociência, Gerald Edelman, tem um livro que se chama The Remembered Present (O Presente Relembrado). De alguma maneira, nossa estrutura somática existencial, o que somos hoje, é esse presente continuamente relembrado. Sim, memória é o que prossegue funcionando enquanto não se desvanece em sua des-utilidade. Mas quanto mais mergulhamos no processo formativo e o ativamos, relacionando as ações com postura, atitude, forma, imagem, vamos trazendo para o presente essas formas. Vamos ativando sua potência. Comportamentos que estavam empobrecidos, minguados, vão sendo ativados, se diversificando em novas variedades de comportamento. Isso é trabalhar pela biodiversidade subjetiva ou produção de diferença ou, em outras palavras, propiciar o aumento da potência formativa e da potência heterogenética que devem trabalhar como duas mãos.
Experimentamos, nesse cuidado que tivemos com as formas do silêncio aqui descrito, um resgate e uma reativação de comportamentos. Vimos, passo a passo, como, ao reativá-los, de modo paciente, metódico e artesanal, reanimamos a potência de prosseguir produzindo a nós mesmos no presente.
Isso é a clínica que se pratica no ensino formativo, sempre em grupo. Mas também é filosofia, biologia, ecologia, política, literatura, cinema. A transversalização é essencial para o ensino do acesso ao presente seja uma prática filosófica e não uma técnica.
O presente é o desafio da funcionalidade da nossa forma. Como de todos os corpos ao longo da Evolução.
Reescrito por Regina Favre em maio de 2024
Venha Estudar com a Regina 2024
1. Por que estudar com a Regina?
Prepare-se para ler um longo convite. Não basta eu lhe dizer que vamos pensar, experimentar e praticar o que é ser um corpo. Sim, essa afirmação já é muito: ser um corpo e não ter um corpo. Isso já nos coloca em um lugar muito diferente. Mas as consequências do desdobramento dessa realidade viva em camadas num processo de produção contínua do que é um corpo são muitas. Portanto, respire, encontre seu foco e leia com atenção esta proposta.

Sou Regina Favre, formada em Filosofia pela PUC- SP, terapeuta, educadora e pesquisadora independente. Descobri o caminho do corpo com José Ângelo Gaiarsa. Integro a primeira geração da terapia política do corpo identificada com a contracultura e o alternativo, desde os anos 1970. Naquele tempo, ser político significava desidentificar-se radicalmente dos valores burgueses que hegemonicamente modelavam os corpos e os estilos de vida. Tive minha iniciação como terapeuta no Quaesitor Growth Center, em Londres,1973/74 onde a Psicologia Humanística originária do Instituto Esalen, na Califórnia, trazia o corpo e a verdade somática para o campo do desenvolvimento pessoal (personal growth).
De volta ao Brasil, fui pioneira e participante ativa na mutação da subjetividade social ocorrida dos anos 70. Semeei o campo do corpo subjetivo no Curso Reichiano do Instituto Sedes Sapientiae, com Anna Veronica Mautner ainda na década de1970, e no Ágora Centro de Estudos Neorreichianos durante os anos 1980/90, com Liane Zink. No início dos anos 1980, nos encontros com Felix Guattari em suas vindas para o Brasil, descobri a filosofia da diferença, a produção social da subjetividade, as micropolíticas das vidas e seus devires já no novo contexto do capitalismo mundial integrado (CMI) que se espalhava pelo mundo. Passei então a buscar um conceito de corpo-processo que coubesse nessa visão ampliada dos ambientes onde vidas se formam, os primeiros passos da elaboração de uma filosofia corporificada associada a um dispositivo clínico que foi se tornando a verdadeira identidade do meu trabalho.
Ao encontrar Stanley Keleman, em 1990, absorvi o conceito de corpo como um contínuo processo de produção de si no mundo. Passei a ter contato pessoal e profissional constante até 2005. Nesse tempo cultivei o Centro de Educação Somática-Existencial e comecei a elaborar essa interface entre a psicologia formativa de Stanley Keleman e a ecosofia de Felix Guattari, numa articulação que ajudasse a compreender os corpos subjetivos e, ao mesmo tempo, seus ambientes formativos no Brasil. Como formamos nossas vidas, nós, classe média, que nos preocupamos com essas questões? Desde lá me acompanhava uma sensibilidade para a história social e para os jogos do poder colonial, uma preocupação com o abismo no Brasil entre pobres e ricos, com nosso racismo, com a devastação ambiental e uma clareza de que os corpos se fazem sempre em modos de relação com as condições e as forças coletivas contemporâneas à sua continuidade.
Em 2002 criei o Laboratório do Processo Formativo onde segui cultivando, bem mais focada, juntamente com grupos e diferentes colaboradores, dispositivos de clínica, ensino, pesquisa audiovisual e publicação digital sobre esse corpo dotado do impulso biológico de formar a si, amadurecer para a realidade de ser parte de processos coletivos e cultivar a potência de gerar a diferença. Desenvolvi a Instalação Didática como estratégia de um ensino conceitual corporificado e produção simultânea de material audiovisual para estudo e publicação (leia mais aqui: https://laboratoriodoprocessoformativo.com/2016/07/na-instalacao-didatica/)
Os Grupos de Exercício, praticados desde os anos 1970, nunca deixaram de existir para mim, inicialmente como espaço de experiência viva com carga e descarga, com a potência expressiva da energia e das emoções. Mais adiante, a partir da influência de Keleman, para mim, passa a ser um exercício formativo com função de preparar os corpos para o reconhecimento e o manejo do processo de fazer e refazer corpo em seu impulso de prosseguir, sempre se conectando com outros corpos e canalizando a vida em nosso planeta.
Cuidei da tradução e apresentação de todos os livros de Stanley Keleman para a Summus Editorial, entre os quais Anatomia Emocional, que segue funcionando como interlocutor do meu pensamento clínico e filosófico e fio condutor de meu ensino. Publiquei vídeos e textos no site do Laboratório do Processo Formativo e em diferentes revistas especializadas tais como Cadernos da Subjetividade (Núcleo de Pesquisas da Subjetividade da PUCSP), revista IDE (Sociedade Brasileira de Psicanálise), Cadernos Reichianos (Instituto Sedes Sapientiæ), revista Interfaces (UNESP); roteirizei e dirigi o longa-metragem Memória do Ácido (2017). Escrevi “Do Corpo ao Livro” (Summus Editorial, 202) e vários ensaios em livros coletivos juntamente com docentes das UNIFESP, UNESP e UFES.

2. Venha viver com a Regina o desafio do co-corpar virtual
Com a eclosão da pandemia e a migração do trabalho de clínica, exercício e ensino formativo para a vida virtual, apoiada na experiência presencial anterior, de gravação simultânea ao acontecimento, na Instalação Didática, ampliei fortemente a pesquisa sobre corpo e imagem, comportamento e linguagem, excitação e contato e sobretudo aprofundei a evidência da produção e do manejo relacional e formativo dos corpos no novo ambiente, a infosfera.
Esse novo campo de interação, nesse novo tempo, requeria novas formas de conexão para acolher essa mutação e esse novo processo adaptativo. A simultaneidade de aparição, ação e linguagem que eu já vinha cultivando nos processos de gravação, exibição, corporificação, teorização e conversa vincular nos tempos presenciais da Instalação Didática, facilitou enormemente a adaptação às novas plataformas do tipo zoom. As linhas narrativas e performáticas do acontecimento-encontro online puderam aparecer com toda clareza graças a compreensão desenvolvida por Keleman de forma e função, de linguagem e descrição, de presença e ação, de reconhecimento e não mais da interpretação do vivido pelos corpos.
No pós-pandêmico que se seguiu, decidi manter online todos os grupos de ensino e de exercício formativo. Essa intervenção do virtual sobre a experiência corporificada de si, na interação entre os corpos presentes na tela, na evidência do processo formativo, no feedback da imagem sobre o corpo e vice-versa, na possibilidade de repassar os encontros nas gravações e reestudá-los, me produziu a constatação preciosa da nossa condição em rede, evolutiva e planetária.

Os meios ainda continuam sendo a mensagem, como afirmava Marshall MacLuhan já nos anos 1960 (Media is the message). Sem o virtual jamais teríamos nos percebido como inseparáveis dessa realidade totalmente interligada e precária onde formamos nossos corpos e destinos. Confirmava-se que cada ecologia requer diferentes comportamentos, diferentes formas dos corpos e diferentes modos adaptativos.
Nessa visão formativa by Favre, a questão da conectividade dos corpos com outros corpos, forças e mundos torna-se fundamental, indo muito além das conexões familiares. Não fosse a conectividade inerente do vivo desde o molecular, a Vida e a Evolução não teriam vingado e não estaríamos aqui. A vida preserva, portanto, o que funciona. O vínculo, então, continua sendo fundamental, mais fundamental do que nunca, para que a vida siga se canalizando neste nosso planeta ameaçado de inviabilização. Mas para que possamos sentir, pensar e nos comportar como parte do processo planetário é importante amadurecer e promover amadurecimento vincular. Da dependência à autonomia, da exploração à participação. Só assim poderemos agir e nos sentir como parte de processos maiores, para além do individualismo. Vinculação é comportamento e organização corporal. É também reconhecimento e diferenciação.
3. O que você vai estudar com a Regina?
Vamos compor, de fevereiro a novembro de 2024, um corpo de conhecimento corporificado do Formativo by Favre, através de um combinado indissociável de dois tipos de encontros: Exercício Formativo e Seminário Formativo.

Exercício Formativo: encontros online, regidos por mim, onde, diante da tela do computador ou do celular, conversamos sobre o processo formativo em andamento e praticamos ações formativas durante 1hora cada um em seu quadradinho. Micromovimentos sobre si e linguagem. O que importa nesses encontros é aprender como um corpo dá forma a seus comportamentos para estar presente, como dá forma a seu processo adaptativo (conectivo) aos ambientes, e no caso, ao próprio encontro presente dos corpos no virtual. Problematizamos a experiência de si e do acontecimento-mundo na língua formativa da Anatomia Emocional de Keleman by Favre. Evocamos em nossa organização somática, à medida que se aprofunda a experiência, camadas da Evolução e camadas do nosso desenvolvimento em particular, filogênese e ontogênese. E aprendemos COMO produzir variedades de comportamento, estabilizar formas que funcionam no presente e desorganizar as que não mais funcionam.

Seminário Formativo: estudo online do Processo Formativo sempre a partir do processo grupal, do estudo de si, de seus mundos, das forças coletivas presentes na produção dos corpos, da categorização e dos conceitos kelemanianos para o reconhecimento e manejo dos processos formativos em andamento. Exercitamos o cartografar, o gerar somagramas e as narrativas que permitem vivenciar, compreender e posturar as mutações nos jogos de força dos poderes que desenham vidas e formas de vida. Vamos construindo a lógica conceitual do formativo enquanto pratica-se o processo de corporificação, aprecia-se a relação corpo e linguagem, conversa-se sobre os poderes que modelam as vidas nos mundinhos e no mundão, sobre os modos de subjetivação, sobre comportamentos, sobre história social brasileira, raça, classe, gênero, sobre os ambientes onde nossas vidas se desenrolam. Praticamos a captação do presente se produzindo como tecido em nossos corpos, a circulação da excitação e das formas comportamentais, entre os participantes nas telinhas. Visitamos autores e influências que nos auxiliam a compreender e a honrar nossa parte no processo conporificante de GAIA.
4. Para você organizar seu tempo e sua participação
Seminário Formativo: sempre último sábado do mês, de fevereiro a novembro, das 14h às 18h (online).
Exercício Formativo: todas as terças-feiras de manhã, das 9h às 10h (online)
Exercício e Seminário compõem uma unidade indissociável no estudo formativo.
Valor: 10 mensalidades de 500 reais de fevereiro a novembro
Inscrições: +5511994881700 (WhatsApp Regina).
Vagas: 30
1. Antes da inscrição é necessário marcar uma conversa online com Regina.
2. Para reservar sua vaga é necessário adiantar metade da primeira mensalidade (250 reais)
5. Regina e a universidade pública: a utilidade do Formativo by Favre
De Flavia Liberman, Terapeuta Ocupacional, docente, pós-doutora, UNIFESP:
Regina vem oferecendo linguagem, conceitos e práticas de um pensamento formativo kelemaniano by Favre para docentes e alunos da Terapia Ocupacional, na USP, na UFRJ e outras universidades públicas. Também é colaboradora em Disciplinas de Pós- Graduação para diferentes alunos do campo da Saúde e Interdisciplinar na UNIFESP- Baixada Santista, através de uma prática formativa semanal que chama de Corpo, Adaptação, Desejo de Seguir, o que tem sido extremamente útil para todes. O Formativo by Favre tem sido objeto de pesquisa de mestrados, doutorados e pós-doutorados, na academia.
De Renata Caruso Mecca, Terapeuta Ocupacional, docente, pós-doutoranda, UFRJ:
“O desejo de organizar grupos de aprendizagem do processo formativo nas universidades públicas decorreu do trabalho que Regina já vinha realizando em formato virtual desde o início da pandemia, em pequenos grupos, de uma maneira simples, barata e eficaz pelas tecnologias de informação e comunicação. A relação virtual intensificou seu interesse por explorar as possibilidades biológicas, neuromotoras e excitatórias dos corpos de se automanejarem vincularmente nos grupos de exercício em condições específicas dadas por essas tecnologias e modelar presença e conexão. Além de expandir o acesso a esse corpo de conhecimento formativo kelemaniano by Favre e sua experiência em grupo, constitui-se também numa estratégia de cuidado para a comunidade acadêmica.”
Marque sua entrevista neste whatsapp
11 994881700
E venha estudar com a Regina!
Praticando o somagrama
O somagrama é uma representação gráfica de um dos mil modos de funcionamento de um corpo para ser quem é e estar no mundo. As formas de ser estão todas configuradas pela nossa anatomia herdada da espécie e pelos modos de subjetivação presentes no contemporâneo de um corpo. Isso é o que Keleman chama de pré-pessoal e pós-pessoal. Entretanto, o pessoal vai se estruturando anatomicamente através dos diferentes comportamentos de conexão de um corpo a seus ambientes ao longo de seu crescimento. É importante aprender a descrever esses ambientes, cartografar esses mundos.
O somagrama é descritivo e experiencial. Sua chave é o COMO, como você faz o que faz.
Há um interjogo entre o cartografar, corpar e o desenhar somagramas.
O Jardim visto pelo ângulo da porta

Os jardins seguem aparecendo pelo ângulo das portas
Em janeiro de 1972, durante um retiro zen-budista em Campos do Jordão, escrevi um poema com esse mesmo título.
Às onze horas, as onze horas amarelas
riem às gargalhadas para o sol,
com todas as suas pétalas.
A água entra na caixa,
as panelas batem na cozinha.
Atrás, na mata imóvel,
araucárias carregam o céu nos braços.
O sol se envolve em nuvens
e as onze horas se agitam nos caules,
em enérgico protesto.
A água entra na caixa,
as panelas batem na cozinha.
Volta o sol,
as onze horas sorriem agradecidas.
A vassoura canta
no chão de cimento
O Mestre Tokuda nasceu em Hokkaido, norte do Japão, em 1938. Diplomou-se em filosofia Budista pela Universidade de Komazawa, em Tóquio, em 1963. Em 1967 torna-se Monge Budista, ordenado na Escola Soto Zen pelo Mestre Ryohan Shingu. Seu nome de ordenação é Ekyu Ryotan. E de Ekyu vem de Eisai, mestre Rinzai que transmitiu sua linhagem no Japão na época de Mestre Dogen; Kyu era o nome de leigo. Na composição de Ryotan, Ryo quer dizer “bom”, e tan significa “processo profundo”. Recebe então a permissão do Superior da Escola Soto Zen, Taiun Sato Roshi, para ensinar e ordenar monges zen. No processo de formação, pratica também com outros mestres do Zen Budismo como Nakagawa Soen Roshi, Sogen Asahina Roshi e Kodo Sawaki Roshi. Em 1968 vem para o Brasil como monge missionário, para trabalhar com o Mestre Shingu Roshi, que na época era o Primeiro Superior para a América Latina da Soto-Shu. O jovem Monge Tokuda passa a residir no templo Busshin-ji, em São Paulo. Trabalha como professor de língua japonesa e esportes para crianças e inicia um grupo de zazen no templo Busshin-ji. Entra em contato com brasileiros que expressavam forte interesse pelo zazen; aceita então convite de Simone de Zeunig e deixa a cidade de São Paulo, para residir em Campos do Jordão, SP, onde estabelece um grupo de prática. Para sobreviver, inicia trabalho com shiatsu, acupuntura e ervas medicinais seguindo a Medicina Tradicional Chinesa (Kampoh). Wiktor, meu companheiro, e eu participamos desse grupo desde seu início. Em 1974 aceita o convite da Sociedade Budista do Brasil, e assume o templo Theravada no bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, funda uma sala de meditação em Copacabana. Mas nesse momento, Wiktor e eu, já estávamos bem longe, em Londres, seguindo a trilha de Caetano e Gil.
Sempre achei que o zen havia sido o portão para a cultura do corpo cuja existência eu já havia intuído embora não tivesse permanecido mais do que dois anos em contato com Tokuda. Os detalhes dessa genealogia onde minusculamente apareço, retirei do site da falecida cineasta zenbudista Tania Quaresma. É uma origem que me honra e que me explica.
A força do budismo zen se faz notar nas tramas dessa cultura norte americana do “body-mind” ou mais precisamente do “embodiment”, tendo me permitido absorvê-la sem maiores estranhamentos para dentro da construção de uma vida e de um trabalho desde os primeiros momentos dessa mutação pela qual passei precisamente aos 30 anos. No início dos anos 1970, meu primeiro casamento quebrara à sombra da quebra do casamento de meus pais, na verdade, uma quebra de valores acontecida no terremoto da história nesse início de década. Nesse exato momento passei a viver com Wiktor, judeu, criança sobrevivente do holocausto como outros judeus de quem me tornei amiga nesse preciso momento. Pensava, ouvindo as histórias do gueto de Varsóvia, como meus pais podiam fazer um drama tão grande diante de uma história de infidelidade conjugal? Por que tanta culpa e vitimização? A dependência e a fragilidade brasileira de classe média diante do sofrimento perderam precisamente ali sua legitimidade para mim.
E naquele momento, no corpo que se havia feito poroso com o desmanche de um modo-classe-média-brasileira-de-ser absorvi a força de sobrevivência de mães e pais judeus que imigraram durante e depois da Guerra para o Brasil carregando esses filhos ainda pequenos, mortalmente assustados. Esse foi o verdadeiro início de uma mutação: imigrar para outro mundo salvando a mim e as filhas de um mundo em dissolução e recomeçar a vida, o que foi realmente um salto quântico. As mutações ao longo de uma existência em particular têm essa caraterística herdada do processo evolutivo descrito por Darwin. Um corpo não encontra mais conexões com o ambiente onde a vida anteriormente se cultivava. Conexões são comportamentos, modelagens de si que se repetem e se estabilizam enquanto dura aquela forma de funcionamento que gera continuidade de um corpo e seu ambiente, daquele modo. Ao se tornarem obsoletos, seus contornos, brusca ou gradativamente, se diluem tornando os corpos, se estes não sucumbem à insustentabilidade, disponíveis para uma nova formatação adaptativa. Que sofrimentos, terrores e gozos inéditos se desprendem de um corpo tornado informe, imerso num campo desconhecido? Esses mesmos filhos, judeus de formação socialista, nessa precisa transição, com sua atitude política e suas relações de proximidade com a militância de esquerda naqueles terríveis momentos da ditadura militar, se tornam os amigos de convívio diário. Passo, então, a fazer meus primeiros esboços de um novo corpo precisamente com eles, co-corpando com eles, na expressão de Stanley Keleman, judeu também, que desempenhou papel central no roteiro da vida que construí em décadas seguintes, tal como descrevo em Do Corpo ao Livro.
Judith Lieblich Patarra, judia também, parte desse grupo, jornalista e também amiga daqueles anos, escreveu já no final dos anos 1980, a biografia de Iara Iavelberg. Com total abundância e precisão de detalhes narra a breve existência daquela diva judia da Faculdade de Filosofia da rua Maria Antônia, seu casamento de tenra juventude celebrado pela família e rompido tal como o meu em nome do desejo de viver sua transmutação no caldeirão do movimento estudantil, seu grande amor revolucionário por Carlos Lamarca, sua vida clandestina nos “aparelhos” urbanos e na luta camponesa. E, finalmente, sua morte heroica em um predinho no bairro da Pituba, cidade de Salvador, cercada pela repressão. Imagens de Iara me chegavam pelo boca-a-boca naqueles dias de ousadia, roçando aquele meu corpo já inteiramente desfeito da moça brasileira. Sentia, pulsando intensamente, o imenso mistério de alguém como eu, um quase duplo, longe, muito longe, escondida, fugindo, vivendo, morrendo, em meio à violência inimaginável. Quando Wiktor e eu, em 1971 aderimos finalmente à contracultura, ao rock, ao ácido, às motos, cruzando estradas, acampando em praias, viajando no Trem da Morte para a Bolívia, sentido a força revolucionária latino-americana, estávamos ressoando, convictos, com essas pessoas como Iara e tantos outros cujos nomes e fotos apareciam em cartazes com o sinistro cabeçalho Terroristas Procurados, que resistiam à devastação existencial em curso neste nosso país, uma devastação, como a que passamos a viver nos tempos bozo-pandêmicos.
A vida da jovem de classe média brasileira se mesclara inteiramente à vida do sobrevivente do holocausto e o simples estarmos vivos passara a ser celebrado intensamente a cada instante, até que o terror perfurasse as bordas frágeis daquele meu corpo criado na segurança perversa de um ninho brasileiro. Se, naquela virada dos anos 70, Wiktor atravessou intrepidamente essa dissolução identitária de uma vida de judeu, cientista, professor da USP, eu, Regina, não atravessei.
A moça brasileira filha de médico, formada em filosofia, publicitária, que havia se atirado subitamente junto com as filhas pequenas no prazer, na alegria na liberdade, no contato imediato com a vida, percebe que dera um salto no escuro, sem rede. A morte rondava o Brasil, o regime militar-empresarial exterminava ferozmente e eu estava longe das origens, bem mais perto desse abismo. Conheci ali os confins da desterritorialização com meus parcos recursos existenciais. Wiktor não se abate e mais uma vez enfrenta a morte com sua força de sobrevivente. Eu, subitamente esvaziada de tudo, mergulho numa bad trip sem fim. Não suportava mais nem um minuto não enxergar um futuro previsível. Mas não havia sido pouco o aprendizado lisérgico acompanhado do Livro Tibetano do Mortos, de Timothy Leary, daquilo que aprendi a chamar, bem mais tarde, com Stanley Keleman, de “ending”. Senti ali que precisava me deixar morrer. E morri.
Como fantasmas começamos aos poucos nos juntar a alguns poucos que por diferentes vias também haviam se afetado por ecos budistas que chegavam até o nosso deserto brasileiro de então. Mas esses ecos nos apontavam não para o horizonte japonês como se poderia esperar, mas para o lado oposto do Pacifico, a costa oeste americana. Anos depois me dei conta do que fizera movida por aquele impulso. Acontecia algo profundo e libertador nos Estados Unidos que havia sido tocado pelo budismo décadas antes e que só naquele momento chegava até nós.
Findo o desbunde, nos recolhemos no zen em busca da verdadeira iluminação. Como os primeiros desbundados americanos dos anos 50, esperávamos que aquilo que o LSD nos oferecia, insustentável em longo prazo, pudesse acontecer pela prática radical do corpo, imóvel e silencioso, no simplesmente sentar, guiados por um mestre, segundo um ritual de simplicidade milenar transmitido corpo a corpo, de mestre em mestre. Poetas malditos como Roberto Piva, o beatnik da São Paulo dos anos 1960, e As Portas da Percepção, de Aldous Huxley, que li aos 18 anos, ainda nos finais dos anos 1950, encontraram seu lugar com a vida contracultural que se instalou pedindo outro corpo para aquele início dos anos 1970. Aquele meu corpo libertado pelo ácido, pelo sexo, pelo contato direto com natureza, pelo rock, pelo riso, pelas aventuras com crianças e amigos, seguiu desta vez a rota de um treinamento exato, profundo, movido pela disciplina de si e não mais pelo estímulo das drogas.
Poucos anos depois, já me encontrava inteiramente desconstruída pelas práticas dessa jovem cultura americana da Psicologia Humanística na qual havia mergulhado na Londres dos early seventies. Ao visitar Stanley Keleman em Berkeley pela primeira vez em 1977, me deparei na clássica livraria alternativa Shambalah, situada na Telegraph Avenue, berço do movimento hippie ao lado do portão principal da Universidade da California, com uma completa história do budismo na América, intitulada “How the swans came to the lake – a narrative history of buddism in America”. Esse título maravilhoso que soava como um koan, desvendava para mim a marca do budismo naquela cultura que eu visitava, ali, pela primeira vez.
De fato, no inicio do século 20, contatos com acadêmicos americanos estudiosos da literatura japonesa se fizeram, propiciando que os primeiros monges vindos do Japão se dirigissem inicialmente para a Universidade de Honolulu e a seguir para cidades grandes da América, como Los Angeles, do outro lado do Pacífico. Imediatamente por acaso, narra Rick Fields, esse jornalista autor dessa fina pesquisa, esses mensageiros do dharma conhecem alguém, alugam um pequeno espaço urbano para instalar um pequeno do-jo, passam a viver na pobreza com o essencial, mantendo aquela inabalável confiança na vida e total disponibilidade para o acontecimento que só o zen transmite, e rapidamente passam a atrair pessoas tal como aconteceu com o sensei Tokuda e aquele pequeno grupo inicial que, espantosamente, em poucas décadas se multiplicou em vários mosteiros pelo Brasil. Nas cidades cultas norte-americanas em que o pragmatismo cresceu desde o século 19 como a primeira filosofia genuinamente americana, contando com a tradição religiosa pré-existente do Transcendentalismo, da contemplação da natureza e da praticidade da vida simples, o budismo encontrou condições extremamente favoráveis para contaminar esse país que se preparava para viver seu destino poético, filosófico e espiritual, não fosse sua entrada na 2a Guerra e o consequente boom econômico que se seguiu, gerando a sociedade de consumo, a american way of life, em relação à qual a “geração do corpo” se constituiu inicialmente, como uma deriva. A leitura desse livro que traz na capa fotos misturadas de monges, com gestos e sorrisos despojados de qualquer pose, esperou longo tempo na estante por sua vez, o que, na verdade, só aconteceu nos tempos de lockdown, me permitindo retrospectivamente compreender o tropismo que se instalara em mim naquele momento germinal me arrastando ao encontro dessa cultura americana do corpo cuja história é tecida com fios de muitas origens dentre as quais se destaca o fio do zen, brilhando infinitamente em sua perfeita simplicidade. Essa foi, então, uma primeira mutação. Desejo voltar mais adiante à familiaridade que senti com essa cultura, repito, do corpo, ou melhor dizendo em inglês, por falta de tradução adequada em português, do “embodiment”. Foi esse algo do zen que me permitiu farejar o caminho em direção ao pensamento formativo de Keleman.
Stanley Keleman, como o ouvi narrar muitas vezes, participou dos primórdios do caldeirão que deu origem ao que conhecemos como as psicoterapias corporais e as educações somáticas. Juntamente com ele estavam além de manipuladores de corpo, bailarinos americanos, educadores somáticos imigrados da Europa durante e no fim da 2ª guerra, mas no caso aqui que nos interessa, entre esses jovens inovadores estava Allan Watts, então presbítero anglicano nos anos 50, futuro genro do principal introdutor do zen na América, o famoso monge D.T.Suzuki, e que mais adiante, se tornou também monge e sobretudo divulgador do zen através de uma infinidade de livros e audiotapes. Keleman, por sua vez, encerrando sua experiência como group leader no Instituto Esalen, ambiente fortemente influenciado pelo budismo americano, no final dos anos 1960 dirige-se a Zurich para sua formação em psicoterapia existencial. Nesse momento, conhece o mestre zen e também psicoterapeuta existencial alemão, Karlfried von Durkheim, cuja amizade honrou pelo resto de sua vida Assim estavam constituídas, na minha percepção, as forças do campo para dentro do qual fui atraída em meu new beggining. Dentro do mencionado grupo de praticantes daquela experimentação cultural americana, transformadora, festiva e libidinal, estavam Erich Fromm, psicanalista e sociólogo, e Karen Horney, também psicanalista. Ambos, mais velhos e mais experientes, imigrados no pós-guerra, influenciados pela Escola de Frankfurt e também atraídos pelo o zen-budismo que se espalhava na América daquela década, eram nomes com os quais esbarrei já no inicio na década de 1960 em estantes de livrarias que eu frequentava no centro de São Paulo e na mesa de cabeceira de meu pai, homem moderno e ávido de mudança para seu tempo.
O zen, embora tivesse ficado quase como uma terna memória daqueles tempos iniciais de uma vida de total fragilidade, com a chegada do vírus e o isolamento que passamos a viver, emergiu como a primeira forma de vida que naturalmente se apresentou para mim: limpar a casa, lavar verduras, cozinhar, estudar, trabalhar, sentar em zazen online todas as noites com o grupo de meditadores do mosteiro Therigata a que uma das minhas filhas pertence. A querida monja Waho, que conheço desde seu tempo de menina, conduzia a prática e em seguida lia mestres do dharma para a sangha, com sua voz cristalina e firme, livro após livro. Ao final, todos desejávamos boa noite uns aos outros. Assim começou um novo processo adaptativo radical deste corpo, desta vez à vida na infosfera.



