A forma que eu faço para estar no mundo
Regina nos conduz a encontrar um ritmo respiratório, estabelecendo contato com a respiração que já está acontecendo. “Decodifiquem um pouco esse ritmo, identifiquem-se com ele. A proposta não é se acalmar; é apenas se identificar com o ritmo”.
Havia muita excitação no grupo e foi proposto entrar em contato com o coração neste estado. “Ao buscar a respiração, notamos que o pulmão vazio atrai o ambiente, cria um vácuo. E ao encher, sentimos um empurrar das paredes internas, que se abrem um pouco, criam espaço entre as moléculas, afrouxam o tecido. É uma experiência de desprender. Desprender algo da parede interna. Quando isso acontece, soltamos as paredes, alargamos um pouco com a pressão do pulmão cheio. É muito diferente de antes, quando focávamos apenas em silenciar o tórax. Agora, estamos deixando o tronco se expressar. Muitas vezes, o que acontece no tronco — no coração, no pulmão, nas paredes internas que contêm algo — atrapalha o pensamento. É dessas paredes que tratamos aqui: das formas que elas tomam para conter a excitação interna”.
Regina explica que os órgãos emitem excitação junto com o sistema neural. Sentimos mais as paredes quando respiramos. Descobrimos áreas que são mais duras, mais frouxas, mais inertes, mais compactas: a forma que eu faço para estar no mundo.
“Achamos muito natural a nossa forma, mas é uma forma muito particular que aprendeu a ficar mais largada, endurecida, compacta ou estufada. Com isso, capto o que faço para ser quem eu sou, para estar no mundo. Este corpo não para de responder ao mundo. Não para de respirar, de chegar no mundo, de voltar para si, de entrar em contato, de pulsar e processar este mundo continuamente. Capto o mundo com a forma contemporânea ao acontecimento”.
Consigna:
Intensifiquem um pouco essa forma. Deem mais consistência a ela, como se estivessem se desenhando.
Captem-se e perguntem: quem é essa que está aqui, nesta altura da minha vida? Quem está sendo? Quem é essa que você está sendo?
Vamos voltar, largar um pouco, descansar. Deem um refresh na forma. Respirem, fechem os olhos, captem essa sensação. Cada um tem seu modo: espreguiçar, esfregar o rosto, girar o pescoço.
De olhos fechados, respirem nas paredes, por dentro. Há um coração que bate, um pulmão que enche e esvazia, um estômago mais ou menos acomodado, intestinos mais ou menos acomodados. Eles emitem um estado profundo do corpo, que encosta nas paredes. As paredes contêm esse estado profundo de um certo modo.
O que os órgãos produzem se chama excitação. Excitação do vivo, que se intensifica ou desintensifica conforme o acontecimento e os meus padrões. Eu vivo mais ou menos intensidade? Estou mais próxima das minhas intensidades profundas ou as isolo, sem perceber o que acontece lá dentro, na profundidade dos órgãos?
À medida que afrouxo as paredes — musculatura voluntária, fáscia, conexões musculares com os ossos —, é dali, de dentro dessas carnes, que emerge o senso da experiência. Ao esvaziar, as paredes se aproximam, se firmam, se compactam. Ao soltar, elas se afastam e sugam o ar para dentro, revelando-se pela pressão interna da excitação e da respiração.
Ao esvaziar, as paredes também revelam. Revelam o sentimento que vem junto com a presença. Essas operações de expandir, contrair, encher, esvaziar, encostar e firmar as paredes, identificar-se com o que estou fazendo — tudo isso transmite aquele senso de presença. “Eu estou hoje aqui, com este corpo que eu venho sendo”. Eu deixei de ser alguma coisa, estou me tornando outra, mas este corpo eu venho sendo.
Vamos conversar um pouco sobre o que surpreende vocês quando o forro das paredes faz vocês sentirem ou pensarem algo que diz respeito a este movimento presente, este estado, esta vida, este dia.
Aluna: Eu fui sentindo um corpo em transição, de um corpo disponível e aberto para um movimento que trouxe um formigamento no rosto e lágrimas. Foi a primeira vez que não senti na garganta; antes esse movimento ficava preso na garganta. Chegou no rosto.

Regina: Um sentimento preso na garganta, conhece? Você pode identificar essa excitação no rosto com algo que vem da profundidade do corpo. Olhem como vivemos essas coisas o tempo inteiro. O corpo existindo, expressando, absorvendo, processando a nossa experiência. Nós, corpos vivos, em grupo, rumando no mundo. Ondas coletivas e ondas particulares.
Aluno: Eu senti a necessidade de sentir minhas pernas e meus pés. Sempre que falamos para respirar e sentir, eu fico muito na cabeça, sinto muito calor aqui em cima. Preciso colocar os pés para cima, passar a mão no corpo, sentir os pés frios, para deixar o corpo todo quente e confortável.

Regina: Você é uma pessoa que tem fortemente a experiência de si através da pele. Precisa acordar a pele para saber que está aqui, que está vivo, que é você. É muito familiar para você essa sensação de pele, e você sente falta dela para se reconhecer. No formativo, Keleman define muito bem as três camadas da embriogênese continuada: neural, visceral e muscular. Ele aponta os tipos constitucionais: as pessoas nascem pertencendo a linhagens mais viscerais, mais musculares ou mais neurais.
- Neurais (Ectomórficas): Pessoas finas e compridas. Temperamento e constitucionalidade neural. Vivência predominante através da camada neural.
- Viscerais (Endomórficas): Corpos mais redondos.
- Musculares (Mesomórficas): Pessoas mais quadradas, sólidas, como eu.
O que as pessoas são e fazem é visível. Entendemos o mundo ouvindo e olhando, encarnando os efeitos do que ouvimos e vemos, e agindo de maneira neuromotora no mundo. Cada um sentado aqui é uma organização neuromotora. Estamos o tempo todo nos usando para prosseguir.
Vamos experimentar e intensificar novamente a forma de quem estamos sendo neste momento, nesta fase da vida. Com este corpo, esta forma, este estado maturacional — ou seja, a esta altura do seu processo entre o nascimento e a morte —, vocês estão vivendo, desejando, sonhando, encarando. Captem esta forma a partir do forro.
Estou empurrando, recebendo de volta, empurrando com a respiração, captando o mundo e me percebendo com a minha fome. Assim, começa um diálogo consigo mesmo. Esse diálogo pode tocar alarmes ou pode ser apenas um comentário. Ao observar, pensamos “preciso dar um jeito nisso”. Continuem empurrando e vejam o que desencadeia uma conversa.
Como cada um está vivendo esse empurrar das paredes por dentro e recebendo o que as paredes emitem: imagem, preocupação, desejo, associação, questões. Balancem um pouco, apoiados nos ossos, dando um tempo para reconhecer o que está sendo emitido pelo forro.
É interessante: quando balanço, apoiada nos ossos, balanço a coluna. O tronco se compacta quando vou para frente e aflora quando volto. As paredes fazem um pulso de mais ou menos, mais cheio ou menos cheio, mais compacto ou menos compacto. O corpo está sempre pulsando para absorver o mundo, devolver o mundo, viver seu processamento continuamente. Essa pulsação acontece no grande e no pequeno, no coração, nos vasos, nas células. Isso afeta as paredes, e elas vivem estados que se comunicam conosco.
É algo tão próprio que temos dificuldade de recortar. Estamos acostumados a ter um corpo quase objeto, e não sabemos bem o que fazer com este corpo em ação, neste “sem parar” que traz continuamente informação e estados. Os estados são a informação.
O que fazer com a percepção de que a pele é muito importante para a captação do mundo e para a relação consigo? Pode-se contar toda uma história, fazer uma narrativa de si a partir daí.
Vamos perceber o silêncio do grupo e o estado que o acompanha. Pode ser um espanto, um estranhamento, ou não encontrar palavras. Tão profunda e íntima é a experiência de contato de si consigo.
Aluna: Quando você fez a devolutiva para o Walmir acerca dos tipos constitucionais e da relação dele com a pele, uma onda se espalhou pelo grupo, como uma revelação da percepção da forma e de uma certa natureza inerente a cada corpo. Parece que mergulhamos numa coisa de pele. “Como é a minha relação com a pele?”
Regina: Será que cada um teve mais contato com as vísceras, com os músculos, com a pele? O que predomina? Sou muito ativa, contemplativa, calorosa? Como eu capto o mundo? Como eu sempre fui? Esse “sempre fui” é constitucional.
Aluna: No primeiro movimento, veio uma imagem forte dos músculos da face. Neste segundo exercício, estou suando, sentindo a presença muito forte dos músculos. Acho que comigo, a experiência neural é muito presente; a pele parece se colar no osso. Esqueço que existe uma musculatura que bombeia sangue, e isso ficou muito forte.
Regina: Sim. Todo mundo tem as três camadas, mas há uma predominância. A Roberta está descobrindo que também é muito muscular. Olhem os ombros dela, o alto do tórax. Mova um pouco os músculos do rosto, veja como é a experiência de movê-los.
Vamos fazer junto. Como vocês vivem a movimentação do rosto? Como vivem o rosto? Nós, humanos, uma das primeiras coisas que um bebê configura na percepção é o rosto da mãe. A primeira comunicação é rosto com rosto. O bebê recebe a excitação do olhar materno sobre sua face antes de controlar os músculos. A criança começa a desenvolver a percepção da linha do cabelo, da sobrancelha, do nariz, construindo o reconhecimento do rosto materno e o manejo do próprio rosto. O bebê começa a fazer caras, a rir, a responder, a imitar sons, criando a possibilidade do balbucio e da imitação da “mamanhês” — a língua que as mães instintivamente criam.
Aluna: Eu parei na revelação. Essa possibilidade de aprender sobre o próprio temperamento, a forma, as tendências, é algo muito forte. Eu, por exemplo, sou muito tônica, muito muscular. Minhas estratégias são de musculação, de ir, fazer, desbravar. Meu desafio formativo é entrar em contato com as vísceras, com coisas muito profundas, como a tristeza. São estratégias de vida para lidar com a excitação, para não desmanchar. É um desafio de uma vida. Isso me abriu um leque de possibilidades e desafios formativos.
Aluna: Na semana passada, você falou sobre a continuidade evolutiva. Quando traz a questão dos tipos constitucionais, isso dá uma concretude à ideia de uma linha evolutiva. Cria um arco temporal: como os tipos ectomórficos se formaram, respondendo a quais desafios ambientais? Isso nos insere dentro da história planetária de forma muito concreta.
Aluna: Eu me identifico com a forma ectomórfica, mas senti que minhas vísceras e a camada externa são operadas juntas. Meu desafio é a camada muscular. Quando me capturei, senti as paredes internas da bolsa do peito me segurando, como uma camiseta pequena. No peito, é como se tivesse uma carcaça mais justa do que o preciso, uma dificuldade de caber dentro dessa bolsa.
Regina: Isso imediatamente conta uma história de vida. Um peito pequeno cedendo intensidade para outras bolsas (cabeça, barriga), mas a bolsa do peito — que guarda coração e pulmão — está contida. O que fazemos quando nos damos conta? Formativamente, para nos apropriarmos, damos mais intensidade àquela forma. Configuramos melhor o que percebemos: um tórax apertado, pequeno. Ao fazer isso, percebemos que ele não é apenas apertado; tem uma expressão que se comunica conosco. Costelas que se juntam, paredes que protegem, uma frente que recua, costas que envolvem. Percebemos o jogo de partes compondo uma expressão de uma área conectiva consigo e com o outro. Como lido com as respostas do coração e do pulmão? Minha forma me diz: “sempre lidei assim”. Isso é tão antigo. Reconheço desde sempre. Isso desencadeia uma narrativa do seu funcionamento, revelando uma história para você lidar com ela.
A expressão é um modo de ser, um certo modo de viver. Desde quando? Com quem? Com o quê?
Aluna: Eu também parei na percepção da pele. Isso me retomou ao desenho aquático e fluido que fiz. A pele é um contorno para esse fluido. Preciso perceber esse contorno para não me perder na fluidez. Em vários momentos da vida me perdi desse contorno. Tocar a pele me trouxe a percepção de que esse contorno é essencial. Na vivência, me perco dele por me abrir demais e absorver muito do entorno. A pulsação às vezes é desmedida. Ao longo da vida, fui precisando perceber mais essa musculatura de contorno que me protege, que antes não percebia. E com o rosto: gosto muito de carinho no rosto porque me faz desenhar esse contorno, percebê-lo melhor.
Aluna: Percebendo essas questões de músculo e pele, eu me vejo como uma pessoa muito sensível. Atualmente, tenho buscado contornos pelo músculo. Acesso a capoeira, estou mais ativa para aumentar essa percepção muscular. Passei por movimentos musculares involuntários que me afetaram emocionalmente. Agora, este controle muscular, sentir mais o corpo a partir do músculo, me dá um contorno para essas questões mais emocionais. É como se estivesse transitando sobre essas formas de ser e sentir.
Regina: Vejam como esta linguagem que estamos exercitando oferece a oportunidade de uma pessoa dizer tão claramente o que está vivendo e como ela se usa no que lhe acontece. Isso é lindo.
Sonhos e o processo formativo

Um convite para ler Do Corpo ao Livro com Regina e conversar sobre como os sonhos conduzem a continuidade formativa de nossas vidas.
Encontros às terças-feiras, das 19h às 20h30, a partir de novembro.
Valor: R$ 300,00
Inscreva-se pelo WhatsApp 11-994881700
Supervisão com Regina
Todos os modos de viver com todos os comportamentos que os constituem têm uma configuração anatômica. Vamos aprender sobre o Processo Formativo de corpos, mundos e vínculos examinando a sua clínica? Estou convidando aqui todos os que se interessaram pelo meu pensamento e compareceram aos encontros comigo produzidos por Mariana Watanabe e Mario Gaiarsa em maio e junho de 2025.
Formamos dois grupos online, em horários diferentes, no valor 200 reais/mês
manhã: 6a feira das 11h às 12.30
noite: 2a feira das 19hs às 20.30
Confira o primeiro encontro em maio
As inscrições ainda estão abertas. Entre em contato: 11-994881700.
Um adulto emerge de um adolescente
Este vídeo registra uma protagonização de um aluno na última fase do Seminário de Biodiversidade Subjetiva 3 do Laboratório do Processo Formativo coordenado por mim. Esse seminário teve a duração de 3 anos, como os anteriores também compostos de um total de 15 encontros, em finais de semana a cada dois meses.
Nessa última fase de estudo formativo, os alunos, como tarefa, pesquisaram fotos pessoais e produziram com elas uma trilha mostrando a produção no tempo do corpo-sujeito adulto, eles, então, naquele nosso presente.
O processo formativo, tal como formulado por seu criador Stanley Keleman, descreve os corpos como um processo continuo em que agem em conjunto as forças da Evolução, as forças da espécie, as forças do crescimento ou brotação continua de corpo imantada pelas forças da vida juntamente com as formas dos comportamentos vinculares e adaptativos que se sucederam e se repetiram nos corpos, nos múltiplos ambientes de que fizeram parte, com suas expressões e narrativas. Stanley Keleman, tal como Félix Guattari, se refere a essas forças com pre-pessoais e pós-pessoais.
O aluno, protagonista deste trabalho editado neste vídeo, apresentou uma única foto, ele menino de 9 anos, magro e muito comprido, sentado no chão, enrolando o corpo em pernas muito longas. Ele abraçava essas pernas contra o tronco fino. O rosto olhava para a câmera e tinha uma expressão doce. A forma mostrava a fragilidade porosa de um imenso crescimento recente.
O protocolo de estudo do formativo, nesses grupos, desse tempo presencial, incluía muitas ações: gravar, transcrever, fotografar, produzir cartografias, postar em grupos fechados do Facebook exclusivos do grupo em questão, rever, corpar e estudar gravações e transcrições produzidas especificamente com essa finalidade, convocar a colaboração de membros do grupo em diferentes circunstâncias. Tudo sempre se passando dentro de uma perspectiva vincular, crítica e clínica. Impossível operar uma transmissão de outro modo.
O texto inicial apresenta bases do pensamento formativo que conduz a intervenção de maneira didática e real, cuja gravação embora legendada, para melhor entendimento, pede que se discriminem aqui os passos desse processo formativo acontecido ao vivo em dois dias.
sábado: a partir de uma foto.
1o passo: a foto de um menino de 9 anos magro e alto
2o passo: o momento de separação dos pais
3o passo: o protagonista imita e compreende o corpo da mãe – magro, forte, alto e duro que se comprime para evitar o desmanchamento da depressão.
domingo: a partir de um sonho
1o passo: narrativa do sonho em que pai e filho vêm pela estrada em direções opostas prontos para se chocar em alta velocidade. Ele impede o choque com as mãos. Pai e filho se encontram com bom humor. Aparece no sonho o homem jovem que pode ser intenso com o pai e não só o amigo das mulheres. Reconhece a própria intensidade que não se expressa.
2o passo: Peço que ele escolha uma mulher do grupo para posturar junto, frente a frente, mão com mão. A força, o contato e o olhar intensificam a excitação e firmam o tônus frontal.
3o passo: recebe o efeito do exercício é compreender seu crescimento ainda fino e poroso.
4o passo: pergunta-se como uma mãe separada lida sozinha com o corpo de um menino de 9 anos crescendo.
5o passo: os tecidos começam a se manifestar.
6o passo: lembro a narrativa ouvida de uma garota do grupo na véspera onde ela provocava um motorista no trânsito e era perseguida em alta velocidade por ele.
7o passo: Peço ele que posture junto, costas com costas com a garota valente com homens – a força intensifica mais a excitação e tonifica as costas
8o passo: as forças do crescimento começam a se manifestar como uma ereção geral do corpo e são acolhidas e manejadas pelo protagonista enquanto converso sobre o que é ser um homem adulto e intenso. As mulheres do grupo recebem e admiram a vibração masculina desse homem jovem e sexualizado.
Cabendo em si
Uma atualização de corpo, auto-narrativa e modos de conexão com os ambientes.
Na parte final do Seminário de Biodiversidade Subjetiva, o desenho existencial de cada corpo, em suas ações e expressões preservadas pela memória do muscularmente repetido, expande seus sentidos (veja o programa aqui: https://laboratoriodoprocessoformativo.com/2012/05/seminario-de-biodiversidade-subjetiva/).
Contemplamos nesse momento, através de uma seleção de fotografias da vida de cada um, os corpos em suas moldagens vinculares e sociais, suas trilhas formativas, seus modos de participação nos diferentes ambientes ao longo da vida e a construção de uma história até o presente… sempre iluminando a questão de com que forças emocionais e combinações musculares esse corpo sustenta seu estado de forma presente.
E finalmente descobrimos a lógica formativa de um corpo e como intervir nessa configuração somática de modo a ajudá-lo a atualizar-se um pouco mais, dando assim mais passagem às forças do presente e podendo alimentar melhor sua continuidade com tais forças.
Peço nesse momento que as pessoas imprimam suas fotos escolhidas previamente em transparências. O uso do retroprojetor permite que as imagens do passado se apresentem como aparições magnificadas no telão. A luz incandescente cria ambientes mágicos.
1. A escolha
Regina – Como foi escolher essas fotos?
Aluno- Não tinha muitas opções.
Regina – Como foi ir juntando essas fotos? O que você viveu nessa ação?
Aluno – Frustração de não ter conseguido completar uma ordem cronológica.
Regina – Você tinha a preocupação com o cronológico e a frustração com esse período grande sem fotos. Entendo. Então, escolha uma foto de cada ponta desse espaço sem fotos, onde termina uma série e onde começa a outra. Talvez isso ajude a fazer sentido.
2. A interação que se segue através da sequência de fotos
Aluno- Eu sou de 52. Esta série vai até os 10 anos.
Regina – Qual dos dois é você?
Aluno – O maior, somos quatro. Sou o mais velho. Eu, meu irmão e duas irmãs.
Regina – De onde vocês são?
Aluno– São Paulo.
Regina – De que bairro?
Aluno– Eu nasci em Santo Amaro, mas essa foto é das Perdizes.
Regina – Aqui do lado.
Aluno – Rua Tupi.
Regina – Um menino das Perdizes. Agora, ponha uma foto do começo da outra série a partir dos 35 anos.
Aluno – Do meu lado todos são sobrinhos e ali é a sobrinha da ex-mulher.
Regina – Quem é a moça do lado?
Aluno – A minha ex.
Regina: Você tem algum filho?
Aluno – Não, nesse época não… ainda não.
Regina – Você tem filhos?
Aluno – Uma menina.
Regina- Que idade?
Aluno – 22.
Regina – Aqui você tinha acabado de casar?
Aluno – Era aniversário de um ano de casado e meu aniversário.
3. Uma conversa tão simples
Regina – Então, temos duas séries aqui: a vida de casado e a vida de criança, com um intervalo de 10 anos sem fotos. Pode-se organizar as fotos seja como for. Podemos, por exemplo, comparar as duas vidas… Vamos fazer uma experiência disso? Mostrando nas fotos, vamos comparar a vida que seus pais te deram e a vida que você fez. Onde você morou com sua mulher?
Aluno – Morei no Limão e depois no Belém, o resto desse tempo.
Regina – Você mora no Belém até hoje?
Aluno – Até hoje.
Regina – E seus pais?
Aluno – Meu pai é falecido, minha mãe mora no Limão até hoje.
Regina – Arrume as fotos em duas ordens separadas e vamos pegando de uma e de outra.
Vamos compondo essa narrativa… depois a gente vê onde vamos dar.
4. No embalo das fotos
Aluno – Sei lá.
Aluno – Minha mãe conta que eu não ficava com as roupas.
Aluno – Uma da outra série….
Regina – É filha que você tem?
Aluno – É, essa é a filha.
Regina – Você casou tarde ou demorou para ter filho? Para a época é tarde.
Aluno – É segundo casamento.
Regina – Segundo casamento. Do primeiro você não tem foto.
Aluno – Foi muito rápido. Eu casei com 34, 35 anos, pela segunda vez.
Regina – E a primeira vez?
Aluno – Em 78… eu tinha 26 anos.
Regina – Cara de rapaz meio rebelde. Você era?
Aluno – Não. Acredito que por ser mais velho sempre foi colocada muita responsabilidade em cima de mim… sempre. Só consegui perceber isso já quase adulto. Ontem, em casa, quando separei aquela foto e experimentei corpar a imagem, senti um peso de uma tonelada nas costas… na verdade, o corpo inteiro, muito, muito pesado. Foi estranho.
Regina – É um corpo com um peso grande nas costas, naquela foto. Mas tem uma expressão de rosto… interessante. Aquela cara é que deve ter trazido você até aqui.
Regina – Ah, olha lá no vídeo, você… que interessante aparecer seu rosto agora… aqui acontecem essas coincidências sempre… não entendo porque… muitas vezes quando alguém está protagonizando aparecem imagens anteriores no monitor….
Regina – Ponha uma foto da família de origem.
Regina – Essa é sua família de origem? Grande a família…cadê você?
Aluno– O de camiseta… tá todo mundo de maiô e eu de roupa.
Regina – Seu pai está aí?
Aluno– Não, ele já tinha ido… essa é a mãe…
Regina – Com quem que você se parece hoje em dia?
Aluno– Com meu pai.
Regina – Quer contar um pouco que tipo de família é essa? Tanta gente… Quem tem aí?
Aluno– Eu, a ex-mulher, sobrinha, sobrinha, sobrinha, minha filha, sobrinho, tia, esposa de um sobrinho, tio que já faleceu, tia, minha mãe, tia, minha irmã, meu irmão.
Regina – Na casa de quem?
Aluno– Na casa da minha irmã.
Regina – Você é um pouco diferente do resto da família? Se sente assim?
Aluno– Me sinto assim, sempre com essa titulação de “o responsável”.
Minha mãe sempre foi de subjugar, de mandar, de controlar, sempre, todos. Eu e meu pai sofremos muito com ela. Tudo tinha que ser ela a dar o amém.
Regina – Ela conseguiu fazer uma família unida. Sendo generala. Aliás, ela é diferenciada nessa turma. E você também. Pelo menos aí nessa foto, vocês são bem diferenciados. Em lugares opostos na foto, como com se fossem dois pilares, duas diretrizes.
Aluno– Em tudo o que minha mãe tinha a fazer, eu era o esteio, eu era o mais velho… vamos trocar de carro? Eu tinha que ir junto escolher, fazer a feira, eu tinha que fazer a feira com ela.
Regina – E o pai cadê?
Aluno -–- Não tenho nenhuma, tenho uma só uma… já amassadinha…
Regina – Mostra, quero ver.
Aluno– Esse aqui é meu pai, sentado no chão, com as crianças.
Regina – Parece uma criança…
Aluno – É ele… e eu estou em pé. Tenho 6 anos.
Regina – Bonita essa foto… uma foto de época.
Aluno– Meu irmão no meio das pernas do meu pai, eu em pé e as duas meninas.
Regina – Duas meninas, os dois meninos aqui e a mãe ali. Isso é Santos?
Aluno – São Vicente.
Regina – Linda foto, bem centralizada… Aquela bicicleta ali, olha que bonito… Essa é a única foto do seu pai que você tem?
Aluno– Devo ter outra, mas não escolhi, peguei essa…
Regina – Então, mostra uma da segunda fase da vida.
Aluno– Foto recente, aos 56 anos, eu meu irmão minha mãe e minhas duas irmãs.
Regina – Sua mãe no meio. Todos casados?
Aluno– Meu irmão é divorciado também e as meninas vivem bem com os maridos.
Regina – Você separou da segunda mulher?
Aluno– Sim.
Regina – Você mora sozinho?
Aluno– Sim.
Regina – E o seu irmão?
Aluno– Mora com a mãe.
Aluno: Vou mostrar uma que eu não gosto.
Regina – Onde você estudou?
Aluno – No Casa Pia São Vicente de Paula, em Perdizes, colégio de freira.
Regina – Mais uma, do adulto.
Aluno– Essa eu gosto. É bem hoje.
Regina – Quem é o rapaz?
Aluno– É marido de uma sobrinha.
Regina – Você gosta dessa foto? O que você gosta nela?
Aluno– Eu me sinto eu, antes era muito… preso, controlado, sufocado… aí eu já não tenho mais isso, já me sinto liberto.
Regina- É visível… um movimento do desafogo, de expansão no corpo… uma suavização nos traços da face…
Aluno – Vou mostrar uma de quando comecei a entrar nesse estado mais solto, livre, quando fiz o curso de naturopatia. Aos 54 anos. Essa é uma colega de classe.
Regina – Interessante… como você foi parar num curso de naturopatia?
Aluno– É, é…
Regina – Essa é uma boa narrativa.
Aluno– Eu sempre trabalhei na indústria, engenheiro de segurança, comprando equipamento para os funcionários, fazendo seleção dos melhores óculos, das melhores luvas… para proteger os funcionários. Um dia, apareceu uma representante que vendia luvas e ela comentou que tinha que atender dois pacientes naquele dia. Eu perguntei: atender? Como assim? E ela contou que estava fazendo esse curso de naturopatia. Como é que pode? Eu fui por curiosidade e acabei me identificando e fiquei e gostei.
Regina – … é um ambiente onde você se sente…
Aluno– onde eu encontro eu… e pessoas…
Regina: põe aquela foto de família junto dessa, uma embaixo da outra.
Regina – olha você na foto de baixo, olha você na foto de cima.
Aluno– embaixo estou solto…
Regina – sim, na posição dos braços… mas, tem também diferença de peito e de lugar do rosto. Impressionante… em uma, a barriga vai para a frente e o corpo vai para trás…
Em uma você vem com o rosto. E na outra você afasta o rosto.

Aluno– Sempre na defensiva. Eu nunca estou no primeiro plano.
Regina- Veja que a gente acabou de achar uma coisa importante e que tem a sua marca, você afirmou neste momento algo que tem a ver com essa estrutura, afastado e ao mesmo tempo…
Aluno – …me projetando…
Regina – Sim…uma estrutura anatômica de comportamento longamente construída, por anos, anos e anos.
5. Passagem para a estrutura:
Regina – Agora a gente pode começar a procurar aquela estrutura. Vamos começar mover um pouquinho aquela estrutura. Mais pra frente, mais pra trás, mais cheio, mais vazio, mais denso, menos denso, variando caminhos naquela estrutura. Aqui a gente não está mais na história, mas corpando a estrutura e experimentando variações e intensidades da estrutura.
Agora a gente vai começar a procurar nas fotos as direções e forças na sua estrutura. Qualquer foto, qualquer ordem.
Aluno – Final de ano…muito recente.
Regina: E se a gente desenhasse um somagrama em cima dessa foto…
Regina: Você vai fazer um somagrama em cima dessa foto e me mostrar as linhas de força que sustentam a sua estrutura, nessa foto. Agora você vai achar outras linhas e flechas. Vai me mostrar nessa foto os jogos de força da sua forma.
Vá me descrevendo. Essa é uma forma bem atual sua.
Aluno– aqui a partir de trás na lombar, me sinto subindo… aqui na garganta, um garrote. Costas também nesse sentido, subindo. Braços separados. Cabeça, saindo flechas de dentro para fora. Sinto as panturrilhas, embora não esteja vendo.
Regina – sim, para segurar esse equilíbrio para trás, como se tivesse uma sustentação aí nas panturrilhas..
Regina – posso colocar ainda duas linhas aqui… que acho fortes.
Aluno– essa região é a que eu menos sinto.
Regina – é interessante por que … (Regina desenha forças do abdômen flechas de dentro pra fora)… É um jogo de apequenamento e engrandecimento, ao mesmo tempo que ocorre no seu tronco… ações sobre si mesmo de crescer, crescer, crescer, apertar, afundar. A gente vê como aqui fica pequeninho (desenha um retângulo no peito,). Aqui também fica pequeno (desenha flechas nos ombros). As ações, em primeiro lugar, são sempre sobre si mesmo, moldando a forma ao longo de uma vida, regulando intensidades, sensações, emoções, auto-imagem.
Regina imitando a forma de do aluno: É uma dinâmica interessante, mas olhando daqui e é como se você, a essa altura da sua vida, estivesse abrindo sua forma e a barriga encontrando um lugar mais no meio que tem a ver com se aproximar.
Aluno– Sim…eu sinto que estou fazendo uma aproximação lenta e gradativa dos outros corpos.
Regina – Essa estrutura que você construiu ao longo da vida é um jeito que condensa modos de se afastar… com medo, com raiva, com ameaça.
A estrutura condensa modos que ao se repetirem se fixam muscularmente… pelo uso continuado ao longo de uma vida.
Aluno– Isso me responde por que estou sempre num segundo plano, como se eu estivesse escondido.
Regina – Eu não tinha pensado nesses termos, mas tem uma coisa de escondido. Quando eu falei de se afastar, pensei em se afastar da dominação da mãe.
6. Esse é o corpo
Uma aluna – Dá para ver aquele bebê nessa foto…
Regina – Põe lá, vamos ver…
Regina – sim, muito reconhecível a estrutura… um bebê redondinho, curtinho, torneadinho.
Você é um adulto massudo, curto, torneado. É o seu tipo constitucional… o longbody, como às vezes nomeia Stanley Keleman, aquele que se estende ao longo da vida.
7. A intervenção formativa: caber em si
1. Vamos definir melhor a forma dos braços… e vamos focar nesse baixar da cabeça, nesse apertar da garganta, nesse estufar da barriga… assim você aparece claro no seu misto de raiva e submissão condensados.
Já problematizamos finamente a sua forma somática junto com a sua narrativa. Estamos configurando muscularmente seu estado de forma para que seu córtex motor possa registrá-lo. Esses são os primeiros 2 passos para uma atualização de si: problematizar e configurar muscularmente.
2. Agora vamos fazer as ações que sustentam sua anatomia própria… isso.. apertar, estufar, contrair,crescer e descer. Isso.. vá e volte nas formas… deixe encher de novo… isso… estamos intensificando e desintensificando a forma… bombeando… ativando o pulso… colocando a forma em processo de mudança… estamos trabalhando no terceiro passo… segundo e terceiro, segundo e terceiro.
O segundo passo na metodologia kelemaniana dos 5 Passos ou metodologia do COMO … o reconhecimento do design da estrutura ou o como é.
No terceiro passo, você faz as intensificações intencionais na estrutura identificada.
Faça e deixe de fazer a ação da estrutura.
Está surgindo uma resposta fisiológica do tônus muscular. Ao intensificarmos o que está contraído, produzimos uma resposta de expansão e vice-versa.
3. Regina: Faça repetidamente o como é. E pare de fazer por um momento.
Faça isso, encurtar o pescoço… e continue repetindo a ação.
Isso… seu pescoço agora está crescendo como uma resposta à ação que você fez intensificadamente… está principalmente criando um espaço… outra vez… isso…o pescoço ao desencurtar descomprime o restante… deixe-se fazer espaço aqui no peito, nas costelas… isso…é a resposta fisiológica acontecendo… deixe mover as costelas… que alívio, que alívio… costela e rim… a barriga está encontrando um lugar… costela e rim… vamos… costela e rim, fundo da garganta, clavícula. Estamos em um ambiente confiável onde você pode deixar descomprimir sua estrutura… dar-se o seu tempo formativo.
Aluno suspira (risos do grupo)
Regina – que alívio, que alívio, nossa! Olha lá o que está acontecendo naqueles grandes músculos das costas debaixo da omoplata… nossa, que alívio…
Aluno: leve.
4. Regina: queria agora que você experimentasse a dobradiça da virilha…
Regina – Respirar e mover essa dobradiça da virilha… dobrar, olhar para o chão… tranquilo… indo e voltando. Isso… exatamente… está acontecendo uma pequena ondulação na coluna… isso…
Aluno – mobilidade…
Regina – É a estrutura fazendo um outro uso de si
5. Regina – agora você vai encontrar um jeito de vir mais para a frente… usar o interno de coxa para se organizar um pouco mais para a frente. Experimente não se empurrar pela barriga… leve-se pela virilha… isso, isso… isso mesmo.. um pouquinho menos de joelho…
Junte um pouquinho os lábios, sem apertar, para ter o movimento de bombeamento no ambiente (link Um corpo na Multidão) mais a partir da profundidade do tronco. Menos nuca, menos nuca… menos preocupação em acertar … aí, aí. Focinho, focinho, focinho conectando com o ambiente… rosto, rosto, rosto…. mais tronco… peito mais pra frente (Regina ajeita)
Aluno– Quebrou as asas agora… risos…
6. Regina – Isso… sustente aquilo das costelas… espaço para você. Isso.. pronto, pronto… aproxima ligeiramente os pés, aí, aí.
Aluno– Confortabilíssimo.
Regina – Com certeza. Embaixo dos braços… costelas… isso, isso mesmo… Isso é caber dentro de si. Essa é uma estrutura a ser cultivada.
7. Aluno– É bom… não quero sair mais daqui…
Regina – Você vai ficar ai. Faça um back-up dessa experiência para você não perdê-la e manter esse compromisso com você… de cultivar essa estrutura nas relações, nos encontros, nos ambientes… na medida do seu possível… é uma orientação.
Acabamos de organizar um atrator de mudança. Não é que aconteceu o milagre já, mas a gente organizou um atrator de mudança. Sim?
Notas:
1. A aparição da nova forma acontece depois da problematização de “o que está sendo?” e “como isso é organizado muscularmente?” Quando a pessoa se apropria bem da forma… consegue muscularizar o que é e agir sobre essa forma… identificar-se com ela, imitá-la… paramos, então… e começamos ajudar a fazer experimentações de intensificar e desintensificar essa forma e trabalhar com a estrutura… nessa operação, vamos encontrando o sentido das ações condensadas nas diferentes partes da estrutura.. no caso dele, submissão, raiva e medo… a nova forma emerge como um acaso que pode ser reconhecido, acolhido, nutrido pelo uso cuidadoso, cultivado… esse é o passo 4…. e se constituir num atrator de mudança do curso formativo daquela vida em particular…
2. O longbody é a estrutura herdada, o temperamento, o antigo, o recente, o de sempre. Aqui, o longbody se vê no massudo torneado que é a expressão da forma inata dele: um corpo endomórfico, formando através dos redondos da viscerotonia e torneado por uma musculatura forte do combinado endomórfico-mesomórfico de sua constitucionalidade. O corpo em que sentimos mais facilidade funcional corresponde à nossa constitucionalidade, de ser uma estrutura curta ou comprida, arredondada ou quadrada, constitucionalmente ter uma predominância da função muscular, visceral ou neural. Keleman utiliza a classificação de William Sheldon.
3. Os corpos se fazem dentro da história social…Neste caso, podemos pensar qual a relação de um filho mais velho com uma mãe assim e como essa forma, com suas características, é capturada desde o bebê? Permanecer dependente da mãe é diferente de permanecer encantado ou decepcionado pelo pai. O pai vem depois, a mãe está lá desde sempre. Como a gente passa para essa condição quando tem um pai que também é dominado? Como cria uma separação da mãe? E para uma mulher, como faz a separação da mãe? É muito mais complexo que no caso do homem. Como sai da dependência materna e como cria uma identificação com a mãe depois? E, ele, no caso, como sairia da condição de bebê da mãe e passaria a ser colaborador da mãe, sem viver uma condição de domínio? O crescimento através desses conflitos nele pode ser enxergado. Ele tem muitas partes encurtadas. O conflito entre encurtar e crescer, literalmente, é visível na estrutura.
Constituição, identificação, jogos de poder, origem social da família… tudo isso são forças modeladoras da continuidade de produção de corpo… o corpo se produz continuamente… da concepção à morte…Tudo isso tudo é visível no como é de um corpo… Na classe média brasileira, as mulheres muitas vezes são formadas para serem mandonas. Graças à força da mulher, a família se mantém unida. Os homens da classe média sempre estiveram muito sujeitos a enfraquecer profissionalmente e, portanto, não aguentar as pressões como provedores. Hoje essa marca aparece de outro modo… mas ainda está aí… são milênios de patriarcado.
Oito pontos do Formativo tal como compreendo, pratico e desejo transmitir
- Um paradigma formativo desenvolvido a partir de Stanley Keleman, sua obra, sua prática filosófica corporificante e seu modo clínico de intervenção, em que o modelo do vivo se estende do molecular às formas existenciais dos corpos humanos, sempre dentro das mesmas regras de conectividade e agregação, e onde se aprofunda a visão e a vivência do corpo enquanto um processador ambiental em continua produção de si e de seus ambientes, em conexão com outros corpos.
- Uma certa anatomia capaz de prosseguir formando a si e a seus ambientes a partir do vivido. Ou, em outras palavras, como os afetos se materializam continuamente em estruturas somáticas, ao longo de uma vida em particular, segundo a interação das camadas embriogenéticas, numa embriogênese continuada, do princípio ao fim daquele soma em particular.
- A visão do crescimento dos corpos, ao longo de seu destino genético de prosseguir da concepção à velhice, secretando corpo continuamente, modelando a experiência de si e desencadeando as formas da sua continuidade.
- A identificação da necessidade de interações somáticas que possam oferecer ambientes confiáveis e tempos formativos para que os organismos subjetivos possam se constituir e se desenvolver no mundo.
- O reconhecimento das formas do desenvolvimento em nosso corpo do presente, da fusão até a cooperação, em seus modos de se conectar com os ambientes.
- A compreensão vivencial de que os ambientes onde se formam os corpos são ecologias, físicas, afetivas e incorporais.
- Uma evidência de que o processo formativo de corpos e vidas se dá sempre dentro da história social e dos jogos coletivos de poderes, sentidos e de valores.
- O manejo de uma lógica e uma gramática formativas que permitem reconhecer e estudar como fazemos corpo nos nossos mundos com essas forças e modos, sociais e vinculares, que modelaram e seguem modelando nossa realidade somática ou nossa fisicalidade.
Sobre imagens

Nos grupos, à medida que vamos tendo retorno de nossas imagens sobre nós e vamos praticando nosso processo de corporificação, podemos ver surgir embelezamento e naturalidade nos corpos. O embelezamento é dado pela naturalidade e funcionalidade que emerge dos corpos nesse tipo de prática. Praticamos nos grupos, agora virtuais, funcionar a partir do nosso presente corporal tal como o vemos e o reconhecemos. Então podemos assumi-lo. Vemos, então, que beleza não é um ideal, mas está diretamente relacionada com os corpos funcionarem bem em seus ambientes, no caso, virtual.
Minha boa relação com a imagem passa pelo meu pai. Meu pai sempre fotografou e filmou na minha infância. Quando eu tinha por volta de cinco anos, ele foi para o Rio de Janeiro e comprou uma câmera 8mm. Passou então a filmar o nosso cotidiano, nossa rua, os vizinhos, a praia quando a gente tirava férias, aniversários. Eram dois minutos em cada rolinho que ele mandava revelar nos Estados Unidos. E quando voltava a revelação pelo correio, meses depois, chamavam-se os vizinhos para o “cineminha” em casa de noite. Minha mãe fazia um bolo e todo mundo vibrava assistindo cenas da nossa vida na parede da sala de jantar… olha fulano!… passa de novo, passa de novo!… Um cheiro inesquecível enchia a sala da lâmpada esquentando a pintura do projetor.

A fotografia sempre foi muito importante para mim. Minha avó, que morava com a gente, veio da Bahia. Deixou a vida dela para trás e trouxe o que pôde nas malas: restos da casa, roupas, a camisinha de batizado do meu pai, a escritura da casa vendida, milhões de coisas. O guarda-roupa dela era um verdadeiro brechó. Abria-se a porta e aquele mundo dela emergia invadindo a imaginação da gente. Ali tinha santinho, santinho de missa de sétimo dia de um e de outro parente, fotos de família, uma misturança. Eu não sabia quem era parente; quem era santo; quem era morto; não sabia quem era quem. Ela me deixava brincar com aquilo tudo tardes inteiras. Eu ia para o quarto dela e brincava. Botava as fotos, botava os santos todos pelo quarto montando um mundo. Era a Bahia que revivia naquele mundo imaginário. E ela contava histórias sem fim. Parentes se tornavam absolutamente reais com seus corpos e expressões. Ela era exímia em contar histórias, indo do drama ao cômico, das mortes terríveis aos pequenos acontecimentos do dia a dia. A saudade fazia dela uma grande contadora de histórias.
Essa presença das fotos foi sempre muito forte para mim. Aprendi cedo a gostar de imagens. Tios gostavam de fotografar. Era a influência da fotografia americana com o valor da pessoa cotidiana, da pessoa normal com sua expressão natural, nesse tipo de fotografia não posada, muito diferente da nossa tradição da imagem evidentemente copiada da tradição europeia até que esta fosse substituída pela imagem americana.
Podemos reconhecer a influência desse tipo de fotografia no nosso trabalho aqui, desse olhar que passa pelo olhar do meu pai e por essa cultura Kodak. Na memória mais antiga de imagens da minha casa também estão os livros de medicina do meu pai, que se misturavam com exemplares da revista Life dos tempos da Segunda Guerra na estante da sala. Eram fotos de soldados, de cidades europeias arrasadas, de judeus nos campos de concentração, de pilhas de cadáveres nus misturados com os corpos daqueles livros de patologia clínica do meu pai onde sobressaíam peitos com tumor, línguas estouradas, bocetas horríveis, despertando terrivelmente minha curiosidade.

Foi assim que entrei em contato com corpos que traziam histórias vividas, exercendo um certo olhar que me evoca a presença do meu pai. Mas esse gosto de mexer diretamente com imagens reencontrei nos 15 anos que frequentei o ambiente Keleman. Esse tipo de imagem americana que eu amava, encontrei em Berkeley. Havia lá brechós onde se podiam encontrar todos os elementos do imaginário americano em nós: brinquedos, roupas e velhos eletrodomésticos em meio a bacias e bacias de fotos, instantâneos da vida das pessoas anteriores aos anos 40. Era a cara das fotos que tínhamos na nossa casa. Comprei, naquela época, muitas dessas fotos, fotos de vidas normais, do menino com o cachorro, da criança na banheira, das irmãs mostrando a roupa que se acabou de costurar, cenas de um cotidiano absolutamente banal. Eu amava essas fotos. Vi também, nessa época, uma exposição que encheu o SFMOMA dessas fotos caseiras, chamadas snapshots, em todas as paredes, em todos os andares.
Keleman tinha também esse gosto pela imagem, no caso, pela videogravação caseira. Sempre encontrei no mundo dele esse tipo de imagem despojada, que tem sua origem na Kodak. A facilidade tecnológica trazida pela Kodak abriu para todas as pessoas a possibilidade de serem artistas no próprio cotidiano. Keleman praticava esse tipo de imagem e me encantava, ao participar dos seminários dele, interagir com ele nesse trabalho em que o pensamento se dá através da imagem, de as pessoas poderem se ver no monitor de TV sempre presente em sua sala de grupo, captarem conceitos e se trabalharem através desse monitoramento pela imagem. Como nós, nos grupos online, tantos anos depois, fazemos no zoom. Fui me apropriando dessa forma de trabalhar e complexificando-a. Mas ter (re)encontrado nele o gosto parecido com o gosto de meu pai foi muito forte para formatar e confirmar meu olhar nessa maneira de pensar, trabalhar e ensinar a ver nas imagens as histórias das vidas e seus mundos.
Aprimorando a presença clínica

O lugar do paciente
“Essa clínica formativa tal como a pratico constitui um ato físico de presença com sentidos precisos. A presença clínica exige limpidez e precisão em sua expressão. A prática clínica é um modo de cultivar a própria vida e a vida dos que nos pedem cuidado. Pedem cuidado porque os próprios recursos não estão dando conta de prosseguir, e isso gera sofrimento. A vida pedindo passagem tem esses alarmes.
“Não vamos falar só de cuidado, mas desmembrar essa ação em muitas outras, tais como estar atento, ocupar-se, ceder seu tempo, conversar sobre as questões dessa pessoa ou grupo, olhar, observar, ouvir, entender, imaginar o que cada um vive, interessar-se, compreender como aquele corpo com seu modos de estar no mundo foi construído por uma história de ações contínuas, como esse corpo é produtor de modos e comos, alguns que funcionam e outros que não funcionam, cartografar junto os mundos e a situação presente em que aquele corpo está inserido, desenhar para a pessoa seu corpo com seus esquemas de funcionamento excitatório atual em face dos outros corpos e situações, buscar junto a arqueologia do desenvolvimento daquele corpo, imitar, posturar junto, espelhar, pedir licença para tocar, mostrar com as mãos a consistência dos tecidos daquela estruturação subjetiva, repetir tudo todo o tempo, respeitar limites, não invadir nem exibir poder, manter-se na alteridade. Cada verbo traz consigo a forma e a modulação anatômica de cada comportamento.” (Do Corpo ao Livro – Regina Favre – Editora Summus)
Sempre no primeiro sábado de cada mês das 14h às 17h.
Inscrições e entrevista com Regina Favre : +5511994881700
Venha conversar de clínica com a Regina.

















