Presença
Viver o processo formativo no processo grupal… video-gravar, transcrever, editar, produzir a partir das edições… prosseguir absorvendo o vivido, aprendendo em si como os corpos se produzem continuamente no acontecimento … produzir sempre novas experiências sobre experiências anteriores gerando mais camadas de experiencia… contemplar as gravações, aprender a ler as mutações do vivido sobre os corpos… e, mais finamente, corpar as ações … problematizar ao vivo… produzir diferença… finamente…aplicando a metodologia formativa em aprendizagem…viver, apreciar e praticar as novas conexões e realidades que a diferença dispara… mais e mais camadas de realidade somática se seguem, incluindo a diferença produzida…
Um diálogo formativo editado.
Para que se possa aprofundar a organização da presença é necessário aprofundar seu lugar no plano do acontecimento. ?Acontecimento é o estado de coisas em seus devires, ambientes dentro de ambientes, onde o corpo, em seu também devir, está imerso como parte do mesmo em seu ato de existir. Acontecimento é o que é contemporâneo às ações de um corpo pelas quais modela o seu prosseguimento em particular.? Acontecimento é o fora, o dentro e o fora do fora, em sua interação e simultaneidade. O acontecimento é uma configuração temporal.?O Acontecimento é feito de simultaneidades, muitas camadas, ecologias físicas, afetivas, sociais, antropológicas, culturais, históricas, tecnológicas, políticas, de poderes e valores… Podemos chamar o acontecimento também de campo corpante (bodying field), o ambiente de tensão onde tudo está se formando, expressão utilizada com grande propriedade por Stanley Keleman, autor de Anatomia Emocional.
Cada um de nós é um lugar, um aqui. Para começar a aprofundar e organizar melhor esse lugar, organize um fora, só isso. O que acontece quando você organiza um fora??O dentro, o fora, o fora do fora… como você absorve o fora do fora? ?Como o seu fora absorve, transporta o efeito do fora do fora para o dentro?
Seu fora esboça um certo design que é uma resposta a este estímulo ou afetação, a este acontecimento do fora do fora, criando a transposição do fora do fora para o dentro, ou seja, o fora organiza um certo design que é uma alteração na membrana entre o dentro e o fora do fora. ?Isso se chama comportamento. Trata-se de uma anatomia particularizada, um design vivo, que em si é uma resposta, que em si é uma configuração entre o dentro e o fora do fora, uma configuração do fora que organiza as partes de um certo modo.
Posso, por exemplo, neste momento, fazer uma experimentação com o meu fora.? Quero afinar o meu ouvido, para sintonizar melhor com esse ruído que me chega e captar melhor que melodia é esta que um martelo está produzindo, neste momento, no andar de cima. Vou me organizar nesta forma de escuta fina como um todo. E em seguida desorganizar.? Parou. ?Começou de novo. ?O que eu faço com o interior da minha cabeça? Como eu modelo a escuta ou como me modelo para escutar? Ou escutar menos…É um modelar-se que a gente descobre que é muito antigo… esse modo de isolar o dentro do fora do fora… Se você tocar uma minhoca você vai ver como ela se engrossa para se proteger. Esse engrossar e voltar-se em direção a si mesmo é muito antigo e se faz à minha revelia. É uma ação reflexa, um movimento sobre si mesmo, que altera a forma do corpo. Mas eu posso usar a minha condição de animal corticalizado para exercer uma ação sobre isso. Parou o martelo. ?O que eu fiz? Talvez esteja ainda com o aqui, eu-Regina, endurecido para me preparar para a próxima martelada. ?Mas eu vou afinar intencionalmente de novo as minhas paredes e me expor ao susto da próxima martelada. Quero ver como é. Isso me educa. Quero ver como é.
Capto a minha resposta. Que resposta dei à martelada? Como se desencadeou essa resposta muito antiga aqui? Posso me perguntar “como é a forma do meu fora?”,”o que se contraiu em mim com estas três marteladas que acabam de irromper?”.
O fora não é só o que a gente enxerga. São todas as paredes que envolvem as passagens pulsáteis que mantêm este pulso funcionando do fora para dentro, do dentro para fora.(V. Bomba pulsátil em Anatomia Emocional)
Tudo isso é um design construído no continuum da minha história formativa. São variações possíveis de uma anatomia. Temos um número imenso de variações. Mas são variações em cima da minha forma contemporânea ao acontecimento, uma escultura anatômica em camadas da minha história formativa.
Esse aqui está não só pulsante quanto está habitado por palavras, por imagens, por impulsos de ligação entre as pessoas, entre os corpos, entre os assuntos, o dia. Este aqui é sempre habitado.
Antes de fazer uma afirmação a partir desta configuração do aqui que eu estou captando, posso fazer um somagrama. O somagrama é um registro gráfico dessa superfície, destas zonas.

Este somagrama foi feito por um aluno durante um Seminário
Podemos a essa altura experimentar fazer duas operações, agora: uma é anotar como é o que é e outra é problematizar.
Esses são passos aprendidos da Bodying Methodology de Stanley Keleman. O que estou descrevendo é o processo de dar corpo à experiência ou CORPAR.
Para isso é necessário primeiro VIVENCIAR e, em seguida, ?INIBIR a continuidade do desencadeamento de formas. Inibir é ?DESACELERAR o processo. Em seguida, ?REPETIR A FORMA SELECIONADA PELA INIBIÇÃO e ?ANOTAR /POSTURAR/DESENHAR… De algum modo, aprender a FIXAR O FLUXO DE FORMAS que continuamente se desencadeiam nos corpos, por um momento.
A gente pode começar, metodicamente: já vimos pelo próprio desenho que ao INIBIR a continuidade do fluxo de formas em seu desencadeamento contínuo que faço uma borda sobre o acontecido.
Acabamos de colocar uma borda sobre o acontecido. Como fiz o que fiz? Que acontecimento é este que está dentro desta borda? O que aconteceu? O que quero trazer de volta para cá e reapresentar para mim? Ou para o outro?? Ao colocar uma borda, posso começar a agir sobre essa forma.
O destino dos corpos é prosseguir. Eles nascem para desencadear formas, mas também nascem com equipamento para moldar esta relação com o vivido, com o dentro, com o fora, com o fora do fora, estabilizando, agregando repertórios, secretando tecido, formatando-o, ao longo da jornada maturacional de cada soma.
Podemos transformar o vivido em experiência em vez de deixar o vivido apenas escorrer ou nos traumatizar. Nossa herança genética humana permite que se criem alças do vivido sobre si mesmo e se transformem algumas respostas em corpo, em formas que são muito preciosas para nossa adaptação. Isso não é luxo, é uma finura adaptativa. Adaptação é conexão.
Quanto mais eu refino a expressão da minha forma, mais finamente eu me conecto com o presente e com o acontecimento.

Há formas que acontecem à minha revelia e formas que acontecem com a minha participação. O trauma acontece à minha revelia. Aprendizagem, com a minha participação. Esta é a diferença. O trauma se instala a partir de um reflexo do tronco cerebral. A aprendizagem se instala a partir de um trabalho cortical, neuromotor, sobre o vivido.
Quando habitamos a anatomia da presença temos contato com o pulso que preenche essa forma. O pulso não é só uma constatação mental. O pulso é o ritmo digital do presente captado na operação de presentificar-se. Estamos sempre problematizando como construir bordas, como nos mover de uma superfície para outra, como estabilizar bordas, como suportar bordas.
Problematizar permite encontrar uma adaptação mais fina para a estrutura somática que se capta no presente.?A gente é capaz de se auto-narrar, eu sou aquela que… Mas o funcional está em reeditar-se, sempre de maneira mais límpida, checando o encontro do corpo com as condições presentes, com o acontecimento… não é bem assim… atenção…?A clínica é isso, trabalhar junto para atualizar a sua forma, a sua narrativa de si e seus modos vinculares, presentificando-se e promovendo sustentação de presença no campo corpante junto com seu paciente.
Uma pequena conversa formativa
Aluna: Organizar um fora criou bem estar. Quando organizo um dentro e parece que surge espaço para as trocas, cria buracos para acontecerem as entradas e as saídas. Quando você falou para pensar no fora do fora veio uma sensação do muito, de opressão, o corpo todo fica pequeno e contraído, tira a sensação de bem estar, o maxilar fica rígido, como se quisesse morder, foi difícil sair daí.
Regina: São muitas as formas do reflexo do ataque… várias estruturas preservadas pela evolução através das quais os animais operam o ataque. O maxilar é poderoso, o masseter é o músculo mais forte do organismo, a mordida tem a força para a imobilização da fonte do perigo, o maxilar é um ancestral da mão. Antes da mão já havia maxilar. Entre os peixes, quando surge o maxilar para a preensão da caça, isso transforma os peixes que têm maxilar nos grandes poderosos dos oceanos.
Aluna: agora, falando e fazendo ao mesmo tempo, me dá uma sensação de presença muito forte.
Regina: Quando a gente se habita enquanto forma, como anatomia, as camadas se apresentam, as históricas e as comportamentais. Você pode ampliar a presença do maxilar para as mãos e para os pés, para as extremidades da excitação.
Aluna: parece que a energia sai para fora.
Regina: intensificou, espalhou
Aluna: cria bem-estar.
Regina: esse bem-estar se chama atualização de si, aumento de potência, possibilidade de estar no ambiente, usar a si mesmo de maneira mais ampla. Quanto mais você usa de si, mais você se identifica com a lógica única do seu funcionamento.
A invenção da membrana pela vida é o começo de tudo, membrana como o fora, como regulador do pulso, como a relativa separação, regulação do pulso que bombeia o acontecimento para dentro e para fora. O acontecimento vai sendo bombeado, espremido, processado e projetado no ambiente como resposta. Isso vale do micro ao macro. É um concerto de partes produzindo um processamento maior. A parede corporal repete o modelo da membrana celular.
Estado de parede, longe, perto, misturado, denso, ameaçado, invasivo: o estado de parede nos remete de volta o sentido da imagem corporal. Por aí, posso apreender como faço o que faço. Como eu faço presença? Me afastando, com medo, invadindo, misturando… como faço? Para fazer o que faço como faço, muita atividade aqui, pouca aqui… é uma geografia mótil. Essa captação permite uma definição. O tempo todo a gente está captando o que está fazendo. É como os corpos se regulam. Podemos fazer isso mais finamente, intencionalmente. É dessa configuração das intensidades em nós é que sabemos o que estamos vivendo. É de dentro da minha forma que tenho a experiência de ser quem eu sou, de fazer o que faço e como faço.
Pulsos, vários pulsos coexistindo, num concerto pulsátil e excitatório. Todas as células, todos os tubos transmitindo em ondas, todos os órgãos e tecidos em seus formatos presentes, num conjunto de varias frequências ao mesmo tempo, tocando a música silenciosa do acontecimento em nós. Evidências zen… experiências imediatas.
Consigna: Organize um fora.

Como é organizar um fora? Como você faz para organizar um fora? Isso é um know-how importante porque não é apenas um estado meditativo. É necessária a lentificação para organizar um fora, é uma delimitação de um aqui onde estou processando o acontecimento. Meu estado de forma contemporâneo a este acontecimento, um aqui no processo formativo mais geral… imerso e processando um acontecimento onde sou produtor e participante. Organize um fora. Captar a forma do que a gente faz não é simples, mas é tudo para estar presente e é tudo para ter potência na presença. Captar o que a gente faz e como a gente faz é tudo que a gente precisa para ter potência na presença. Captar é diferente de observar ou ter consciência.
A membrana é a mediação, uma configuração entre o dentro e o fora do fora. A resposta diz respeito ao momento. Mas a resposta é o que a minha forma pode dar, é uma construção histórica que faz com que eu capte e responda segundo essa expressão ontogenética. A ontogênese é o próprio processo em seu materializar-se e desmaterializar-se contínuo no tempo.
A alteração sobre isso (si) é lenta. O tempo constrói e cria uma forma dentro de uma continuidade. Os corpos têm um modo de fazer as coisas e irem se constituindo. A forma capta, responde e organiza uma resposta ao mesmo tempo. Não é simples apenas pensar isso porque esse é um ato profundamente anatômico. É necessário pensar corpando.
Para pensar corpando:
Faça um fora. Faça o seu fora. Sentir não basta, organize o seu fora. Quando a gente torna um pouco mais nítido muscularmente o fora, ele fica um pouco mais nítido como desenho mental. O cérebro capta melhor a forma e isso se chama propriocepção, é uma captação de sentido, não apenas mecânica. Porque a forma em si tem uma inteligência, a inteligência do seu funcionamento. Que forma é esta? É uma forma que tem um sentido, a forma da minha presença, a forma através da qual me presentifico, ela contém o meu estar vivo, a minha pulsação e regula o tanto e o como estou em conexão com o acontecimento.

Fora não é só aparência. Fora é uma contenção que mantém as paredes que sustentam os pulsos de uma certa maneira. A sinfonia dos pulsos em mim me transmite o que estou vivendo, a qualidade da experiência. Neste pulso do tórax, por exemplo, onde as paredes estão organizadas de um certo jeito, em você, em mim, está interpretado de modo pulsátil e digital o acontecimento.
Posso não só organizar como também desorganizar a configuração do meu fora. Passo a passo. E mudar a experiência. Quando você faz atualizações sobre a sua forma, você prossegue, você desencalha da forma conhecida, do design de fazer o mesmo e você introduz diferença e continuidade. A forma dá forma também ao fora do fora: recorta e interpreta o acontecimento.
A elaboração da questão da presença permite que a gente administre nossos ambientes, responsabilizando-se por mantê-los vivos, numa elaboração conjunta, tateando, contribuindo para sua manutenção e prosseguimento. O que é estar vivo, ser parte de um ambiente?
Como a lentificação da sequência das nossas formas ensina para os músculos, para o sistema nervoso, para a excitação
A gente está ensinando para si mesmo como estar e constituir ambientes. Evidentemente, é com a maior facilidade que a gente é pressionado a tirar cartas da manga e resolver correndo situações e com isso a gente perde a oportunidade de ser parte do acontecimento.
Presença é uma questão de sintonizar músculos e sistema nervoso, se dar conta da nossa forma e com isso a gente começa a se conceber como uma anatomia única, singular, nossa, e com isso posso ter acesso a quem estou sendo, o que estou fazendo, para que não esteja à mercê de forças. Essas forças não são apenas forças naturais, mas são forças fortíssimas de manipulação da nossa produção de corpo no grande ambiente em que vivemos e que se expressa em cada detalhe do nosso viver.
Hoje, no capitalismo global, nosso ambiente chama-se mercado. E nesse sentido, o que estamos fazendo aqui é aprender que regras são essas a partir das quais o corpo se produz e que método é este que permite que eu capte como é, o que é e que eu possa atualizar mais a minha forma e a narrativa de mim a respeito do presente.
Forma presença, postura ereta, são organizações anatômicas – tubos, bolsas, tubo profundo, médio e superficial, um diafragma que é o rosto que capta, que faz contato com outros rostos. Aí eu me capto intensificado, eu capto a minha forma, quem estou sendo hoje, quem estou deixando de ser, a tendência da minha forma, quem estou me tornando. Isso que me facilita produzir mais de mim, de uma maneira atual.
O que me dificulta produzir mais de mim?
As dificuldades que a gente está encontrando de estar aqui e agora hoje, estas dificuldades são as minhas dificuldades formativas de prosseguir, prosseguir formando mais de eu mesmo com aquilo que o corpo secreta de si para prosseguir.
Confusão, excesso de atividade mental, dificuldade de conectar imagens com ações, muita informação, pressões de exclusão e dificuldade de conectar estas informações de maneira própria são algumas das muitíssimas dificuldades que podemos identificar.
Como fazer, como selecionar, como encarnar, como levar adiante uma vida singular, como suportar tanto desafio, como suportar tanta oferta de informação e sentido? Como a gente reconhece a dificuldade que a gente está tendo agora de estar presente? Como a gente reconhece isso como parte dos nossos padrões formativos?
Quando a gente aprende a associar a presença finamente com uma certa organização muscular de conter a si mesmo, de conter a vida em si mesmo, a gente ganha a potência de prosseguir se sentindo parte.
A grande dificuldade é atribuir à presença essa qualidade totalmente física, totalmente anatômica, totalmente real. Estar na realidade.
O ambiente, quando a gente se liga nele, excita. A gente capta ambiente e isso produz um aumento de excitação. Mas esse é o começo do co-corpar com o ambiente e atualizar presença.
Com este estado de forma atual, eu recorto, eu capto: a mim, ao ambiente, a própria forma, ao mesmo tempo captando acontecimentos internos, movimentos viscerais, um senso de viscosidade que não é mecânico, em absoluto, mas é carregado de vivências difíceis de dar nome. E aquilo que eu vivo arrasta consigo associações… cada presente arrasta associações de imagens, de pensamentos, de projetos, de passados, de outras cenas, de linguagem. E como a linguagem afeta os corpos e os corpos atraem linguagem? Isso tudo, quando contemplamos e consideramos, nos enche de um senso de mistério…
Somos, em nosso design, uma bomba pulsátil, uma máquina de estar no acontecimento, de ser parte do acontecimento, uma máquina que se autoproduz, que se constrói com o acontecimento e com as próprias respostas ao acontecimento, uma bomba pulsátil que como as medusas, fica oca e enche, fica oca e enche, suga o ambiente e esvazia, suga o ambiente e se esvazia, do mesmo modo que o coração se enche de sangue e bombeia, enche o vazio de sangue e espreme.
É o vácuo que atrai o ambiente para dentro. Encher-se do ambiente, esvaziar-se, expressar-se, propulsionar-se. Nadar na excitação. Os corpos nadam na excitação do acontecimento. E a minha forma responde ao acontecimento, influi no acontecimento, recorta o acontecimento, capta o acontecimento, forma com matéria do acontecimento. Quanto mais a gente suporta se preencher de excitação do acontecimento e manejar esse estado, mais a gente exerce potência formativa.
… produzir sempre novas experiências sobre experiências anteriores, gerando mais camadas de experiência… contemplar nossas imagens, aprender a ler as mutações do vivido sobre os corpos… e, mais finamente, corpar as ações … problematizar ao vivo… produzir diferença… finamente…aplicando a metodologia formativa em aprendizagem…viver, apreciar e praticar as novas conexões e realidades que a diferença dispara… mais e mais camadas de realidade somática se seguem, incluindo a diferença produzida…
Elementos para uma dramaturgia do conceito:
Como são as regras de produção de corpo e como eu me capto? Lembremos da ideia de que a gente bombeia o ambiente… fazer um pouco isso, como se a gente fosse a medusa, a ideia de que a gente é atravessado por ocos, que a gente traz ambiente para dentro, absorve, pulsa e que o movimento tem a ver com este bombeamento de si no espaço. Lembrar que a gente é uma anatomia viva, se fazendo e desfazendo, reginando e desreginando, no meu caso. E que a gente tem um focinho que é um conector com a biosfera, que a gente tem um senso de que é parte da biosfera, parte dos ambientes. Que o negócio da vida e da biosfera, é continuamente fazer corpo, fazer corpos para se canalizar e prosseguir.
Somos parte de uma continuidade de corpos, por onde a vida passa, passa, passa. A gente é parte de uma corrente da evolução. A gente está fazendo corpo continuamente, por onde a vida passa, constrói e a gente é um canal em construção com material genético e ambiental.
Presença é uma questão de sintonizar músculo e sistema nervoso, se dar conta da nossa forma e com isso a gente começa a se conceber como uma anatomia única, singular, nossa. Isso me dá acesso ao que estou sendo, ao que estou fazendo, para que não esteja à mercê das forças do ambiente. Que não são só naturais, são forças fortíssimas de manipulação da nossa produção de corpo. E nesse sentido o que estamos fazendo aqui é aprender que regras são essas a partir das quais o corpo se produz e que método é este que permite que eu capte como é, o que é e que eu possa atualizar mais a minha forma e a narrativa de mim a respeito do presente.
O presente é a única coisa a que tenho acesso, portanto se a presença é a única coisa a que tenho acesso, eu posso ter acesso a ele ou ser levada.
E como eu capto esse fora segundo as regras da minha constituição e este grande fora que eu recorto com a minha forma.
Forma, presença, postura ereta, são organizações anatômicas – tubos, bolsas, tubo profundo, médio, superficial, um diafragma que é o rosto que capta que faz contato com outros rostos. Aí eu me capto intensificada, eu capto a minha forma, quem estou sendo hoje, quem estou deixando de ser, a tendência da minha forma, quem estou me tornando. Isso me facilita produzir mais de mim, de uma maneira atual e identificar o que me dificulta produzir mais de mim. Hoje a gente vê as dificuldades que a gente está encontrando de estar aqui onde estamos e agora, hoje, essas dificuldades são as minhas dificuldades formativas de prosseguir, prosseguir formando mais de eu mesma: confusão, muito mental, dificuldade de conectar imagens com ações, muita informação e dificuldade de conectar estas informações de maneira própria.
Como faz, como seleciona, como encarna, como leva adiante uma vida singular, como suporta tanto desafio, como suporta tanta oferta. A gente está falando de nós aqui. A mesma dificuldade que estamos encontrando aqui é a dificuldade que encontramos na vida para conseguir seguir.
Como a gente reconhece a dificuldade que a gente está tendo agora de estar presente? Como a gente reconhece isso como parte dos nossos padrões formativos? Padrão formativo é o que eu aprendi com a vida a fazer, é assim que eu não aprendi com a vida a fazer, com esse corpo, esse conjunto de comportamentos estabilizados como tecido. Assim.
E quando a gente aprende a associar a presença finamente com uma certa organização muscular de conter a si mesmo, de conter a vida em si mesmo, a gente ganha a potência de prosseguir se sentindo parte. A grande dificuldade é atribuir à presença esta qualidade totalmente física, totalmente anatômica, totalmente real. Estar na realidade.
Somagrama como captação da presença
Um somagrama dá a forma de superfície, profundidade, intensidades e excitação. Somagrama é projetar graficamente essa anatomia que condensa hoje nosso estado de presença. O somagrama e o corpar são um modo de reconhecer o que está acontecendo comigo, um modo de ler onde estou, o que estou fazendo, me alinhar com o processo formativo para poder prosseguir. O somagrama é uma captação.
O somagrama expressa uma captação da forma da minha presença. Da forma através da qual, do design da minha presença, da qualidade, seja ela sonolenta, irritada, não importa. É o que é, não tem ideal, é o que é. E é com isso que a gente tem que lidar. Corpar e descrever o somagrama. É assim que o corpo aprende a se configurar.
Somagrama e conexão com o ambiente
Com o somagrama podemos evocar com as superfícies que desenhamos o que é. Como eu faço o que eu faço para aguentar estar no mundo. O que eu faço para aguentar? Estar no mundo não é pouco, aliás, é tudo. Como eu faço?
Como eu faço para me nutrir do mundo, aprender a me ligar ao ambiente para poder me nutrir dele. O ambiente quando a gente se liga nele, ele excita a gente. A gente capta e essa captação produz aumento de excitação. E o começo de co-corpar com o ambiente. Vive-se a sensação de estar imersa no ambiente e se excitar.
Alinhar-se com o próprio processo de continuidade em com conexão com o ambiente. Isso é o que importa para tudo o que a gente faz na vida. Sair do lugar isolado para poder estar nos ambientes. Realidade é atmosfera, cadeia alimentar e não é para sentir bem ou mal, é para estar na realidade. Às vezes é muito ruim a realidade, mas formar é sempre bom, embora não seja necessariamente prazeroso usar os tecidos para formar uma conexão com o meio ambiente.
Uma ação neuromotora, uma imagem trabalhada, encarnada, modificada, ajudada, formando alguma coisa. Tenho certeza que você não vai esquecer disso e que vai praticar isso. Praticando, os tecidos se organizam diferentemente e isso é totalmente diferente de relaxar, é navegar no programa formativo do corpo. Completamente diferente.
Exercitar a bomba pulsátil para a conexão com o ambiente
A medusa nas profundidades oceânicas faz um vácuo, atrai a água para dentro e, quando solta, se move. Todos os corpos animais ao se moverem tonificam-se enquanto bomba pulsátil, usar a bomba para interagir com o ambiente. A questão central formativa é ganhar força na bomba pulsátil. A bomba dá conexão com o ambiente, senso de realidade e elementos para prosseguir formando, e não repetindo solitariamente.
A lógica do corpo é a conexão com os ambientes. Conectar, trazer o ambiente para dentro, esvaziar e descansar. Contração e expansão, o pulso da bomba pulsátil se conectando com o ambiente na sua complexidade. O dentro assimila, processa, formata o impulso genético de prosseguir e ir adiante. Formar é complexificar conexões e amadurecer formas e tecidos para poder se conectar mais complexamente com os ambientes. Potência são conexões altamente complexas e singulares.
Esse é o princípio da vida, de cada corpo que a biosfera produz, e isso dá o verdadeiro senso de pertencer a algo maior e se beneficiar deste pool da vida, contribuindo e se beneficiando.
A Musculatura está a serviço da Bomba Pulsátil
O primeiro desenvolvimento é sair da condição umbilical para a condição oro-nasal, o feto através do umbigo e o bebê através do focinho. Faz ficar em pé. Vivido e geneticamente maturado. A musculatura está a serviço da bomba. A gente se move pela musculatura extrínseca ou pela excitação? A serviço do crescimento e da excitação, a excitação. Perturbada porque o bebê tem que se bastar, tem que desempenhar. Uma resposta parcial, pedaço se basta e outros não se desenvolvem. Importa amadurecer, atualizar a forma e as narrativas de si continuamente. Por isso é importante esta noção de desenvolvimento, porque é uma participação efetiva e real.
A gente não aprende a modelar comportamento, nem a criar linguagem própria, porque a velocidade não deixa a gente formatar respostas próprias, isso tem a ver com adaptação fina, uma conexão fina com o ambiente e com o próprio processo formativo que se desencadeia no tempo. Não adianta ter pressa, porque existe um tempo para formar. Formas, conexões, tudo exige tempo.
O corpo é uma continuidade de produção dentro da biosfera. O corpo é tratado de uma maneira muito individualista, tratado de maneira privatizada. A rede de produção de corpos é a rede de produção de corpos, é um produto da biosfera para que a vida prossiga se canalizando, é uma rede que faz com que o corpo possa se transformar em sujeito, a gente é tomado pela ideia de individualidade e a subjetividade só se produz na rede.
How a body becomes somebody. Como um corpo se torna alguém?
Isso é uma demanda: aprender a guardar. A experiência que a gente viveu hoje foi a de que vocês não tinham guardado nada, chegando de outro planeta, sem passado. Isso fala muito da velocidade da vida, dos ambientes, informação, quantidade de acontecimentos que atravessam a gente. A gente não tem nada, vocês estavam absolutamente desertificados quando chegaram, o grupo estava desertificado.
Sobrecarga da vida é disso que estamos falando, a vida banaliza tudo pelas pressões de sobrevivência, enfrentamento, ameaças, demanda, voracidade. Ficar no presente é difícil. Viveu e agora? Como assimila? Acho bom que a gente grave, que escreva, que tenha blog, são maneiras de lidar com a evasão do vivido. Sem tecido não tem memória, sem fixação de comportamento, não tem repertório.
A regulagem é que inicia a aprendizagem. A gente aprende fazendo presença, fazendo corpo, se manejando dentro do ambiente. A gente acha que aprender é acumulação de conteúdo, regra do poder, acumulação de conhecimento é aprendizagem.
A postura ereta é vincular
A descrição da postura ereta. A postura ereta não é evolutiva, é vincular, é um desenvolvimento do humano dentro do vínculo, não é uma aquisição evolutiva, depende da excitação dos contatos e da maturação dos tecidos. Só existe na medida em que a maturação acontece. Não é evolutiva, é uma possibilidade que a evolução dá. Se a coisa acontecer vincularmente. O humano tem tanta abertura de crescimento, desenvolvimento e crescimento tão lento e com tantas possibilidade, resulta seres tão diferentes entre si por conta da indiferenciação, pelo tempo maturacional.
Os bichos já nascem mais ou menos prontos. A postura ereta reflete isso exatamente, usa o adulto. O que ele diz: o que é concebido é um adulto. E todo o trabalho é em cima do adulto. Que adulto você é hoje? Dá uma visão de maturidade e de paradigma, que remete para a postura ereta, a compreensão da postura ereta se dá em cima do adulto, de todas as questões que estão ali acessíveis, presentificáveis, trabalháveis. Adulto é aquele que tem plena conexão com o presente.
O único acesso à forma é pela musculatura estriada. E através dela que você influencia as outras estruturas somáticas, você chega no metabolismo, no visceral.
Corpo formativo e corpo narcísico
Questão complicada, trabalhar a musculatura independente da produção da forma, o corpo está secretando a si mesmo e você pode influir nesta produção retomando aspectos pouco formados. Como trabalhar muscularmente, acessando musculatura esquelética. E ao mesmo tempo entendendo o processo formativo. Como é este corpo que está produzindo diferença e formas adaptativas à realidade? Formas conectivas finas à realidade?
Como você resolve uma forma se você tem um certo modo de vida? Todo mundo quer estar ótimo, lindo, maravilhoso, mas não paga o preço. Se você não ativa a forma para que seja mais conectiva, mais adaptativa, mais singular, você não cria biodiversidade, a gente vai formatar as mesmas possibilidades. Se muda os jogos de força, dá pra mudar a forma. Não pode ter dor, não pode sofrer, não pode envelhecer, não pode morrer. Não dá para querer ter um corpo formativo, vai viver seu narcisismo com você mesmo.
Não adianta, a mudança tem que ser assimilada dentro do que você precisa para continuar produzindo vida e conexões.
Menopausa talvez esteja acenando, mudança hormonal mexe muito. O que nos move é hormônio. A gente é alimentado a hormônio, este desapego, você está desapegando de um corpo que já está avisando que está querendo se dissolver. Os corpos se dissolvem, como a gente suporta o estado de uma certa indiferenciação depois do desmanchamento, e como as novas formas começam a emergir. E isso demora, a não ser que você use uma forma pronta, você pode fabricar uma Jane Fonda de 80 anos que não tem uma grama de gordura. Ver acompanhar o surgimento de uma nova forma, sonhos que emergem, que imantam as proteínas, tudo isso é um processo. Não tem graça passar por fora do processo. Pra quem você vai mostrar as suas medalhas?
Ter acesso ao corpo é uma ação política
Na competição mundial de inclusão, quem é mais identificado, quem tira mais vantagem da identificação com formas e comportamentos mais valorizados, quem pode mais. Quem aguenta se constituir de maneira real diante destas pressões do capitalismo que quanto mais global é comunicação, mercado, mais acontece e mais captura as pessoas. É a tal da biopolítica, em cima do vivo, em cima das pessoas. Como organizar as pessoas dentro do mercado.
99% somos nós, assumir o direito de ser singular e assumir a nossa trajetória. Planeta dominado por 1% leva à estagnação. É política. Ter acesso ao corpo é uma ação política. Se eu não sei maturar, não tenho corpo, não vivo em rede. Tem que ter corpo vincular, corpo canal. Vale para qualquer coisa que a gente faça. Conhecimento de como fazer as coisas dentro de uma política de corpos. A gente faz política onde a gente está.
O ambiente ensina tanto quanto os conteúdos da informação
Corpos em grupo, corpos em ambiente. Observar fotos é importante, imagem das coisas que não sabe, não vê, não identifica, a quantidade de coisas não identificadas dentro de um grupo. As imagens mostram intensidades, dobras, formas estáveis, formas em dispersão em condensação, tudo isso acontece dentro deste ambiente. O dispositivo é um recorte dentro do ambiente. Uma coisa que acho legal e vai se configurando cada vez melhor na minha maneira de trabalhar é que o ambiente ensina tanto quanto o conteúdo, estamos no mundão, fazendo corpo no mundão, não é corpo individual hiper privatizado que foi se fazendo dentro do capitalismo cada vez mais neoliberal, uma lorota sem proporções que movimenta o mercado.
Corpo formado na experiência
O pensamento formativo do Keleman é muito rico, mais que outras visões de corpo. Coloca, por exemplo, a idade biológica dos corpos, a gente não tem esta noção em outras teorias, do desencadear de formas ao longo da vida e isso é assim, corpos se sucedem numa grande curva, vão adensando, desmanchando, mas tem outra coisa que vai além desta maturação biológica natural da forma: existe a maturação subjetiva dos corpos, à medida que vai acompanhando o crescimento e tirando o máximo proveito do estado maturacional. Por exemplo, um jovem atleta que tira o máximo e o adulto de 50 anos que quer ser como o jovem – e se arrebenta.
A diferença está em captar-se, na sua idade, pele, ossos, dentes, metabolismo, mas também, como em uma estrutura que se percebe imatura. Uma imaturidade que mobiliza ou canaliza comportamentos também mais imaturos, mais porosos, mais frágeis, menos sustentação, subjetividade. Isso produz tipos de vínculos mais imaturos também. Quando a gente pensa o que é amadurecer, ou um conceito de saúde, entende saúde como estado de maturação que permite que aquele organismo subjetivo se conecte com a realidade, que é estar em rede.
Uma realidade que se descobriu lá pelos anos 1960, quando se formulou a ecologia, a noção sistêmica de que não existem realidades separadas, a ideia de processo que a física trouxe e em seguida a biologia trouxe, corpos são canais de corpos, redes de corpos.
A imaturidade faz com que os corpos vivam dependências, pendurados, apequenados… poder se aguentar na realidade da rede requer autocontenção, ser capazes de gerar alta intensidade e de sustentar membranas de maneira realmente organizada. Amadurecer é um trabalhão. Reconhecer seu estado maturacional, batalhar e crescer a partir daquele estado real é muito bom.
Lentidão para captar o ambiente
Como é interessante que posturas básicas permitem que a gente veja muito. Como a expressão da estrutura vai se sucedendo e a gente vai vendo, muito diferente de os corpos se deslocando no espaço, performando. Deslocamento de intensidades nas três bolsas, no tubo dentro do tubo, bombeado por uma certa anatomia formativa, mobilizando a sua estrutura contemporânea, gerando respostas para o ambiente, gerando ambiente, captando ambientes com sua superfície, respondendo como pulsos que mobilizam a superfície, que comunicam para o ambiente o que o corpo está vivendo dentro dele, neste ambiente, em contato com este acontecimento dentro de acontecimentos maiores.
Nesta lentificação do acontecimento dos corpos que vão se afetando, se formando dentro do acontecimento, como a lentidão é importante para captar o acontecimento. E quando volta vê a quantidade de acontecimento que circulou.
Exercício de presença
Reconhecer intensidades. Sugo, espremo pra fora, me identificar com esta bomba pulsátil, reconhecendo a expansão e contração, quantas pulsações compõem esta pulsação, de expandir e esvaziar, este oco que se enche do fora do fora, o meu oco que se expande com fotogramas e fotogramas e fotogramas, como as partes se juntam, como as partes se expandem dentro de uma configuração unitária, de uma maneira. Como esta unidade somática que eu posso sentir como self, como auto, como posso captar a excitação, reconhecer a excitação, ver como esta excitação se configura, se anima.
Como a excitação mantém as partes coesas de alguma maneira e como eu me reconheço nesta coesão, como esta coesão tem um sabor, um sentido, uma familiaridade ou uma estranheza, tem uma aceitação e uma rejeição, uma identificação e um rechaço.
Tem ameaças de descontrole, tem um sofrimento por excesso de controle às vezes; tem uma busca da medida do controle, a gente tenta, tenta, tenta encontrar esta auto-agência. Tem um senso de vitalidade. Tem um humor. Tem estar dentro do ambiente e estar dentro do próprio fora, da própria superfície, tem uma vivência neural do acontecimento, quando me capto, capto a minha própria forma, minha intensidade, meu pulso, o ambiente, decodifico o ambiente, as experiências neurais têm uma qualidade, as ósseas, tecidos musculares, conjuntivos que são recortes da minha experiência.
Com esta forma eu recorto, com esta forma eu capto: a mim, ao ambiente, a própria forma, ao mesmo tempo capto acontecimentos internos, movimentos viscerais, senso de viscosidade que não é mecânico, em absoluto, é carregado de experiência, difícil de dar nome. E como aquilo que eu vivo arrasta associações, cada presente arrasta associações de imagens, de pensamentos, de projetos, de passado, de outras cenas, de linguagem. E como misteriosamente a linguagem afeta os corpos e os corpos puxam linguagem. Isso tudo chama presença.
Corpar
O método de corpar é o método para participar deste processo de produção de corpo. O processo de produção de corpo no planeta está completamente mercantilizado e capturado pelas forças do capitalismo.
A batalha da captura dos corpos pelo uso do mercado, nascemos no mercado e as forças da midiatização do planeta nos capturam simultaneamente nos ameaçando da exclusão, da impossibilidade de acompanhar o processo de produção planetário. Tudo não é à toa, o esmalte me inclui, se usar uma cor esquisita me desinclui, cada escolha mínima da oferta monumental diz respeito à inclusão e pertinência, no mundo dos significados, dos vivos e dos mortos. Acredito que estes detalhes me mantêm em continuidade.
Esta política dos corpos é necessária, participar do processo de maturação dos corpos e ter a mão sobre isso. Não existe produção de sujeito sem constituição de corpo. Oferta de linguagem e de falação, a gente não dá conta da oferta de linguagem, muito louca, porque dá a ilusão de que a gente sabe e a gente controla. Todo mundo quer falar, quer publicar, como se falar e viver fosse a mesma coisa.
Como se saber o como se faz fosse a mesma coisa que fazer. Grande distância entre o que se fala e o que é possível. O silêncio e a modéstia de viver e a diferença de exibir e cagar regra.
O primeiro capítulo do Anatomia Emocional é da maior utilidade para ter noção de que anatomia é essa, capaz de captar ambiente, selecionar, trabalhar sobre o vivido gerando aprendizado que é sustentado pela produção de tecidos.
Maturação da capacidade coletiva permite que a gente vá ganhando cada vez mais conexão com o real – que é em rede – e é preciso maturar para aguentar este rojão.
Anatomia e somagrama
A biosfera é física. A mente é uma produção a partir do vivido. A anatomia é uma das maneiras de compreender como o vivo funciona. Formulação interessante de mostrar como o vivo funciona, como uma bomba pulsátil. Formular o que o Keleman formulou, bomba desde o início, sem ser acadêmico, mas vinculado.
É difícil juntar existencial e biológico de maneira concreta. Esta compreensão que o Keleman tem do organismo que vira sujeito, a gente nasce organismo que se faz sujeito ao longo da vida através das relações. Você pode ir pra cima da montanha pra se separar do capitalismo, mas você ainda está dentro do capitalismo.
Ele é o ambiente que você come, bebe, fala, pensa, usa o corpo. Ele está nas tradições, em tudo o que você carrega dentro dos fluxos biológicos, históricos, familiares, linguísticos, mercantis, políticos, de valores. O mais inventivo não inventou, ele deu avanço no que já tem. Esta é a ideia que o Keleman traz e formula, do organismo como bomba que bombeia ambiente, que tem canais, que os filos atravessam, desenhar uma anatomia que mostre que anatomia é esta que prossegue, que cresce, que se molda, que aprende. Quem faz isso que está aqui é uma anatomia que faz parte de uma rede de anatomias. Que se fizeram dentro de uma linhagem evolutiva. Aprender sobre esta anatomia, se identificar com esta anatomia, dá uma potência e uma ancoragem muito grandes.
Neste somagrama que é uma projeção gráfica da minha anatomia em mim, é uma imagem tão boa quanto uma foto, tão boa quanto um vídeo, uma projeção daquilo com o que estou fazendo a vida neste exato momento.
O somagrama é: viver, imitar o vivido e anotar, a mesma coisa que viver. O que é, como é, anotar a forma. Projetar para poder introjetar, esta é utilidade do somagrama, uma linguagem pré-letramento, uma coisa espontânea do humano. Isso tem uma força muito grande, tanto que os primitivos sentem a mágica, as forças mágicas que tem nisso, na hora que você projeta e isso volta sobre você. Este jogo que a gente faz com as imagens tem esta função de alimentar o processo do vivo.
Estágio maturacional, história, anatomia particular de cada um, o modo como cada um vai pra dentro pra fora, as camadas de cada um, um enorme agregado de comportamentos, modos e comos ser agente de todos os verbos. Assim vamos aprendendo a acessar, configurar e sustentar as singularidades.
Regina Favre, Março, 2012





















