
Preparar-se para o que vem
Pouco tempo antes da notícia da chegada do vírus, talvez em fevereiro de 2020, fiz para um grupo de jovens alunos, TO’s, trabalhadores da área da saúde coletiva autonomeado Embriões, um quadro no ovo. O ovo é um quadro branco gigante, oval, na sala do consultório, onde desenho – ou desenhava, hesito no tempo verbal -, cartografias, somagramas e diagramas para pacientes e alunos. Naquele dia, postei a foto desse desenho no Facebook adicionando a legenda “preparar-se para o que vem’. Bolsonaro e seus ratos já roíam fortemente nossos alicerces e evidentemente tudo tendia a piorar, era a isso a que me referia, mas atirei no que vi e acertei no que não vi. Inimaginável que a piora fosse na proporção que se seguiu.
Alguns dias depois, mais precisamente no dia 16 de março de 2020, uma segunda-feira, ficou evidente que o vírus chegara ao Brasil. Ao longo do dia, arrastei as cadeiras do atendimento clínico individual para perto da janela aberta e telefonei para alguns amigos perguntando como pretendiam lidar com a higiene do consultório… nada impossível, me disseram, desinfetar maçanetas, janela aberta, álcool gel junto da porta de entrada, sem contato físico. Mas quando me vi diante do último paciente do dia, frente à frente, temerosa daquele corpo desconfortável diante de mim, já acuada ao pé da janela, tomei a decisão de não mais voltar. E de fato nunca mais pisei lá. Literalmente. Esses momentos em que tudo muda, em que tudo o que vinha sendo e para o que estávamos organizados desaparece subitamente por buraco negro, são momentos sagrados e a vida com seu mistério se revela para além do nosso adormecimento.
Certamente me foi possível nunca mais voltar lá. A secretária que me acompanhava há mais de vinte anos e que votara comigo em Lula e Dilma, em tempos passados, havia se transmutado em bolsonarista. Essa proximidade num primeiro momento me gerou imensa angústia. Mas, ao longo dos meses que se seguiram a essa revelação, pude ir enxergando melhor a arrogância ética e intelectual da classe média dita esclarecida de que sou parte e que atiça tanta inveja e ódio nessa pequena classe média brasileira conservadora que nos atende direta ou indiretamente.
Quando me retirei naquela noite, após a última sessão do dia, desci a pé três quadras da ladeira da mesma rua e entrei no prédio onde está meu apartamento. Ela seguiu sua rotina, saindo de manhã também a pé de sua casa, também no bairro, virando a esquina da rua onde está o prédio do nosso trabalho, mantendo impecavelmente, com absoluta regularidade, o espaço que sempre me ajudou a organizar. Fazia pagamentos, encomendava coisas de que preciso, virtualmente, fazia algumas compras que deixava sobre uma cadeira na porta da minha cozinha, resolvia problemas burocráticos pela internet. Honrava seu salário e não temia o vírus, com a força do seu negacionismo. Nunca mais nos vimos face a face até o dia do acordo da sua saída. Seu bolsonarismo me produzia um estranhamento, um retraimento que não era só o reflexo do corpo evitando, no caso, a contaminação do vírus pela porta entreaberta, mas uma discreta aversão que evitava sentir. Acredito que o mesmo ocorresse com ela.
Aos poucos fomos recuperando pelo whatsapp, sem erros ou mal-entendidos, uma comunicação que foi permitindo de novo o funcionar dos elementos quase invisíveis da vida de uma mulher profissional. Então uma apreciação mútua passou aos poucos a transparecer, na formulação singela do estrito necessário das pequenas mensagens.
A sala grande de grupo tempos depois foi alugada para uma psicanalista de crianças e famílias, amiga, que atendia algumas vezes lá. Isso me confirmou mais uma vez que a vida encontrará sempre maneiras de fazer seus movimentos. Minha amiga guardou a sala para mim até que uma continuidade se apresentasse nessa situação imobilizada para pessoas que, como eu, não são obrigadas a enfrentar as diversas aglomerações, em moradias, filas ou condução. Naquele presente ao qual me refiro aqui, incubei futuros em casa.
Também criei para aqueles alunos do Grupo Embriões, naquele mesmo dia quase que premonitório, um protocolo que chamei de Corpo, Adaptação, Desejo de Seguir e que passei a aplicar, ensinar e recomendar em todos os ambientes virtuais, onde passei a clinicar individualmente, produzir workshops sobre nossa condição de reféns do vírus e ensinar em grupos essa filosofia formativa corporificada. A vida se mudara para o Skype, para o Meet, para o Zoom, para o YouTube, para o Facebook, para o Instagram, para o Vimeo. E, logo a seguir, na chamada para o primeiro workshop virtual com esse título inspirado, escrevi:
Estamos como quando o famoso meteorito se chocou com a Terra e levantou aquela imensa poeira que obscureceu o sol e extinguiu os dinossauros. Este é o preciso momento de ativar em nós as forças adaptativas guardadas como um segredo em nosso DNA.
Convido para um workshop em que vamos praticar:
1. Mapear nossa vida meio à transformação de condições pela qual passamos.
2. Identificar nossos modos de funcionamento em meio a essa desconfiguração do conhecido.
3. Estudar nossos padrões corporais-emocionais que estão nos impedindo de responder funcionalmente ao problema.
4. Buscar novas formas que permitam maior contato com as forças de continuidade da vida.
5. Praticar o que é mudança
6. Compartilhar experiência
7. Fortalecer nossa capacidade de vínculo ou conexão.
8. Acreditar que não seremos mais os mesmos.
Oito verbos preciosos indicavam ações a serem praticadas conduzindo um processo adaptativo à continuidade da vida e suas vicissitudes. O convite continha também a bela ilustração de um coração aconchegado entre os pulmões que pesquei nas redes sociais, desenhado pelo artista Rodrigo Leão cuja autorização de uso solicitei. A imagem aludia claramente ao perigo de sufocação que nos espreitava com aquela doença para qual ainda não havíamos encontrado meios de nos imunizar. Esse workshop aberto repetiu-se mensalmente durante um bom tempo em que buscávamos a primeira adaptação a esse novo enquadre de vida.
Nos primeiríssimos momentos do impacto da doença, fiz uma primeira live para o canal do Instagram, Nas Vozes Delas, criado pela linguista e semioticista Carolina Tomasi que me entrevistou e seguiu entrevistando durante toda a pandemia em um programa diário, Mulheres Que Têm O Que Dizer. Ouvi de mim mesma naquele fim de tarde , surpresa, a narrativa dos primeiros passos de uma singela adaptação à vida do lar. Lives começaram a aparecer por todo lado como modos de contato com pessoas ilhadas em seus mundos.
Naquele primeiro mês de profunda desterritorialiação, também assisti a uma live do médico e psicanalista carioca Joel Birman. Pude nesse momento imaginar uma primeira cartografia dessa doença que conhecíamos através dos mundos criados pelas mídias e que começaram a nos envolver inteiramente em nosso isolamento. Vislumbrei naquele sábado à tarde, juntamente com um número imenso de internautas, esse novo ambiente que asfixiava a continuidade da vida com seus efeitos sociais e econômicos destrutivos e impensáveis consequências do ponto de vista epidemiológico e psicopatológico. A situação absurda ali descrita me lembrou a Chave do Tamanho, de Monteiro Lobato, livro que na infância me impressionou de tal modo que posso me lembrar dele até hoje em detalhe.
Emília, a boneca rebelde, aborrecida com o horror da Segunda Guerra Mundial de que tinha notícias pelas conversas com Dona Benta e seus netos no Sitio do Pica-pau Amarelo, imaginou que deveria existir em algum lugar uma casa onde estariam as chaves que regulassem os acontecimentos do mundo. Tomou uma pitada do pó do famoso Pirlimpimpim, invenção do Visconde de Sabugosa, e emergiu na tal casa das chaves que parecia uma antiga estação de trem do interior paulista daqueles tempos, abandonada e envolta em bruma. Bem no alto de uma parede estavam, de fato, várias chaves do tipo alavanca porém sem nenhuma indicação. Pensou que ali, entre as muitas chaves deveria estar certamente a chave que regulasse a guerra. Aspirou então outra pitada do pó que a fizesse subir até uma das chaves que intuiu ser a chave da guerra e se pendurou nela. E, de repente, viu-se coberta por um monte de pano, que entendeu depois ser o seu vestido, como se um toldo de circo desabasse sobre ela. Ao longo do livro, vamos descobrindo que ela havia baixado a chave que regulava o tamanho dos corpos, e não a chave da guerra como pretendia, e que todos os corpos humanos e meio humanos como o dela, boneca, haviam se reduzido radicalmente no mesmo instante ao tamanho de um gafanhoto, digamos. E se inicia aí uma aventura de instauração de uma nova vida e de uma nova sociedade onde os gatos domésticos famintos, por exemplo, passam a caçar humanos como se fossem baratas, onde acampamentos começam a se instalar junto de torneiras de jardim que pingam. Assim me pareceu estarmos. Logo em seguida aceitei que por um bom tempo essa seria nossa vida. E migrei com pacientes, alunos e grupos para o mundo virtual, buscando apoiada pelo formativo, dar corpo à nova experiência.
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