Regina Favre
Stanley Keleman diz, em sua linguagem biológica contemplativa, que vivemos dentro de um oceano orgânico, uma manta viva chamada biosfera e que, como sistemas vivos, nós, organismos, fazemos a mesma coisa que a biosfera como um todo: nos estendemos, nos encolhemos, formamos sub-organizações, exatamente como o unicelular. Este é o modo pelo qual nós cultivamos conexões com o mundo e formamos também conexões internas de subsistemas do self. Somos móteis e pulsáteis, e a Evolução nos dotou de um sistema cortical voluntário cujo esforço mobiliza o pulso vivo do corpo para fazer crescer mais conexões sinápticas. Não apenas em situações reais que requerem de nós o acolhimento e organização de respostas vivas, podemos, e devemos, praticar essa operação como um exercício de si onde quer que estejamos fazendo nosso mundo.
“Se usarmos o esforço voluntário, necessariamente estaremos criando uma cadeia comportamental, isto é, uma acumulação de massa crítica de axônios fazendo que se produza uma memória anatômica”(SK)
“Com esta prática, aprendemos a diferenciar e maturar nossa corporificação herdada da espécie através do fortalecimento e da formação de conexões sinápticas. Isso intensifica e vivifica a experiência do si mesmo.”(SK)
“Repetir ações voluntariamente, como trechos de comportamentos anatômicos é a fase inicial da formação de novas conexões neurais através do fortalecimento de um continuo feedback de contato intra-organísmico com diferentes intensidades e amplitudes.”(SK)
Para Keleman essa é a fonte primária da organização da experiência como forma somática. Afirma que “o esforço voluntário cortical-muscular estimula o crescimento de axônios e esses axônios vão formar uma estrutura conectiva, as sinapses, conectando a parede do corpo ao córtex.” Assim cérebro e músculos trabalham juntos formando comportamento.
“Na medida em que retemos, por momentos, voluntariamente, uma forma, uma expressão do nosso fluxo comportamental de ações e reações aos acontecimentos, internos e externos, fazemos um recorte muscular distinto, um engrossamento ou afinamento da parede do corpo, com seu pulso excitatório único e, consequentemente, com sua expressão única, sua conexão única com o ambiente, sua única experiência”.
Esse é o primeiro dos 5 passos da sua Prática de Corpar (Bodying Practice) que acompanha a visão formativa kelemaniana do crescimento de cada corpo em particular ao longo de uma vida, através da qual gerenciamos e praticamos o voluntário sobre o involuntário, na operação de produção de diferenças sobre as formas recebidas, seja da evolução, seja da maturação somática, seja das identificações sociais, seja dos reflexos de defesa às intensidades intoleráveis, seja das emoções, seja dos modos de conexão.
Com a Prática de Corpar, vamos reconhecer a forma somática presente de um comportamento e organizá-la muscularmente, operar micromovimentos sobre ela e receber a brotação dos efeitos morfogênicos dessas ações sobre si, metamorfose em ato. A partir dessa autoidentificação com a forma somática presente, se a consideramos expressão e linguagem do vivo, estabelecemos uma experiência imediata de si sobre si mesmo, uma certeza imediata da presença ao acontecimento, uma verdadeira epistemologia do corpo.
Estaremos selecionando no fluxo comportamental uma forma que é digitalizável na linguagem do pulso vivo das forças biológicas configuradas por aquele estado de forma, implicadas nesse ato singular de presença, captável pelo próprio sistema nervoso, subcortical e cortical, e, acrescentamos, que pode ser envelopada pelas palavras, as palavras do mar de palavras onde nascemos e vivemos, sendo também moldada por elas. Esse é o seu “plus” em relação a qualquer outro autor neste tipo de busca.
Em 1985, diz em sua linguagem absolutamente anatômica: “Quando alguém usa o esforço cortical muscular voluntário para fazer distinções na sua forma somática, está reorganizando a estrutura, fazendo mais camadas internas e mais conexões internas. Quando os padrões motéis dos comportamentos que emergem como respostas involuntárias ganham estabilidade e duração, o organismo experimenta alguma coisa nova tomando forma dentro de si”.
Para Keleman, “estar corporalmente presente é a tarefa mais urgente do soma”. Afirma, com isso, que encaramos todo o tempo problemas formativos e tentamos encontrar uma solução, isto é, organizar uma formatação de si que seja funcionalmente única, nossa, como resposta aos acontecimentos. E isso requer esforço volitivo sobre o soma. Note-se que Keleman se refere ao corpo como individual, propriedade privada, e não uma formação do processo evolutivo do planeta dotada de enorme potência singularizante graças precisamente às suas condicões evolutivas. Trata-se de uma finura adaptativa essa potência de diferenciação entre os corpos humanos e não de um luxo pessoal. Devemos praticar continuamente essa diferenciação que nos inclui na absolutamente necessária concepção ecológica de sermos parte. Uma ética imprescindível.
“O córtex influencia as respostas corporais”, diz ele. Através deste processo, cérebro e corpo formam um sujeito-objeto, uma relação subjetiva-objetiva. O cérebro e o corpo tecem um si mesmo pessoal a partir do corpo herdado, um corpo que não existia antes. “As consequências disso são imensas, uma vez que tornam o corpo e seu comportamento uma entidade pessoal.”
Keleman usa as ideias de reentrada neural do conhecido neurocientista Gerald Edelman para descrever o processo de como aquele em que o cérebro mapeia as ações do corpo e então faz cotas neurais nesses mapas. Então os mapas conversam entre si e compartilham informação. Este é o modo que, para ele, o cérebro estabiliza ações musculares como as formas que modelam um corpo ao longo de sua duração enquanto corpo numa vida em particular.
E Keleman, alargando suas próprias ideias, diz que “quando há um novo comportamento, um novo padrão de ação, o cérebro tem que fazer muitos novos mapas neurais.” Assim, na Prática de Corpar, ele usa esse processo neural de reentrada inato para recombinar comportamentos e estabilizá-los.
O potencial morfogenético, ou a metamorfose, para Keleman não é um ato de fé ou poético, mas uma compreensão com um manejo pragmático da vida tal como se configura na anatomia vivida por cada corpo.
Imagem do destaque: Modigliani, acervo do Art Institute of Chicago on Unsplash
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