O que entra pela boca – Um diálogo sobre dietas e educação alimentar

Este artigo é resultado de uma entrevista feita por Liliane Oraggio, jornalista, e Regina Favre, psicoterapeuta corporal, para uma revista especializada em fitness, de grande circulação. A pauta era a Autossabotagem na Dieta: quais as razões que levam a perder o limite do que se come ou a simplesmente esquecer a idolatrada contagem de calorias? O processo formativo norteou a conversa que evidencia vários comportamentos ligados à alimentação (e a mudança dela), para muito além das idealizações, da ditadura da beleza e da obsessão por regimes.

Liliane Oraggio – O que está por trás do compromisso de fazer uma dieta?

Regina Favre – Inicialmente, a gente põe comida para dentro para fazer corpo para dar prosseguimento ao destino de o corpo prosseguir se fazendo, do começo ao fim da vida. A primeira coisa que acontece quando a gente se desliga da placenta é precisar de alimento pela boca. O que vinha pelo umbigo passa a vir pela boca pelo resto da vida. E uma dieta pode dizer mil coisas. Pode atender uma necessidade da saúde, em primeiro lugar.  É uma modificação daquilo que a gente põe para dentro para fazer corpo. O corpo se faz com as proteínas e elementos que vem basicamente pela alimentação, pode-se fazer músculo como pode fazer gordura, como pode fazer doença, disfunções.

Existem muitas outras questões que vêm junto com uma noção de dieta. As modas são muito fortes, modelos de corpo que podem ser realistas ou muito idealizados. Como se o corpo fosse um sapato novo, um vestido novo. Então vou comprar um tamanho 36, vou passar a usar de 46 para 42, como se fosse moda que você compra. Quanto mais uma pessoa se identifica consigo mesma e com uma realidade encarnada, corporal, mais ela tem a medida de como ela é e menos idealiza corpos para si.

LO– Então, podemos dizer que quanto mais próxima a pessoa estiver de sua própria realidade corporal mais bem sucedida será a dieta?

RF– Completamente. Porque assim a dieta vai ser realista. Primeiro, mudar alimentação é uma educação, que requer uma clareza de que aquilo que você come se transforma em corpo. Seja muito, seja pouco, seja certo, seja errado. Essa relação entre o que entra e o que forma é vivenciada apenas por quem tem uma história alimentar tranquila, sem pressão ou sem loucuras. Por exemplo, outro dia eu estava na padaria jantando. Entrou um homem enorme, gordo, grande, imenso, devia ter uns 40 anos. Ele estava com a filhinha, de uns 3 anos. Uma menininha normal. Ele disse para a garota: “Ô gorda, vamos fazer um prato de doces?”. Ele direto começou a encher um prato com pedaços de torta, de pudim, nem passou pela comida. Era hora do jantar. Fez um prato com muitas coisas. A menina deve ter chiado porque não estava com vontade de tanto, do excesso. Não ouvi o que ela disse, mas ele exclamou: “Mentira!”. Fiquei pensando o delírio que tinha ali, o quanto o doce estava ligado a um certo barato. Essa para mim foi uma cena elementar. Fiquei olhando aquele homem de 1,90m, tórax imenso, barrigudo, costas enormes. E uma criança que não tem nem como dizer não para esse pai .Ali era uma cena totalmente imaginária, do uso da comida para produzir um certo estado, um certo barato. E o homem transmitindo isso para a criança. A comida é vincular, a comida tem uma história, a alimentação é afetiva, tem a ver com a vida da pessoa. Comida é um hábito.

LO – Justamente, as pesquisas apontam que as pessoas esquecem de contar calorias ou cometem excessos justamente em momentos afetivos: jantando com o namorado, a mulher tentando acompanhar o apetite do  marido, comendo toda a sobra de comida dos filhos. E porque é tão difícil lidar com alteração do cardápio?

RF – Sim, pode-se mudar a organização do cardápio, as porções de proteína, carbohidrato, gordura, em termos de substâncias. Mas, a comida, ao entrar no corpo, a produz um certo estado metabólico. A proteína dá uma certa resposta, o açúcar dá uma certa resposta, a gordura dá uma certa resposta. Respostas de energia, de algo conhecido, de saciedade, de memória. A comida remete a clima metabólico que é de memória, que é de paladar, que é de volume, de sensação interna de órgãos, sensação de boca. São sensações imemoriais e metabólicas. Mudar o cardápio altera um estado tão conhecido dentro da pessoa, que é difícil manter. A menos que tenha um cuidado específico. Uma mudança é uma coisa muito lenta e cuidadosa, porque está mudando um autoreconhecimento, um senso de si muito profundo. Achar que comida é uma coisa mecânica, que troca uma coisa por outra e tudo bem, não é verdade. E aí outro perigo, fazer isso de maneira rígida, mecânica, obsessiva, absolutamente compulsiva, pensando vou comer três disso, dois daquilo, e pronto. As pessoas tendem, principalmente as que malham, conseguem estabelecer com mais facilidade rotinas mais obsessivas e compulsivas, e a relação a contagem e gasto de calorias, números, fórmulas, com mais facilidade. Mas precisa ver o quanto esse é um ganho e o quanto é uma perda construir um corpo idealizado ou construir um corpo vivido. Apenas se abastecer de nutrientes ou comer de fato.

LO – E pode ter o efeito contrário: a obsessão pela dieta gerar a dificuldade de emagrecer?

RF – Isso acontece quando são estabelecidas metas inatingíveis. É a tal da idealização. Por exemplo, há pessoas que podem ter um comportamento alimentar diurno e outro noturno. É muito comum gente que ataca a geladeira à noite, como se fosse um sonâmbulo, e sai pela casa espalhando comida, ela chega a pisar em cima e não lembra, pois tudo foi ingerido em estado sonambúlico. Existe isso.

LO – É preciso ter paciência para emplacar uma dieta?

RF – Os hábitos em geral não são fáceis de serem modificados. Você tem que se apropriar daquilo que você faz, perceber como você faz o que faz, depois começar a introduzir variações e ver os efeitos que tem sobre você, então, o novo hábito começa a fluir. No hábito alimentar isso é mais intenso ainda, pois tem raízes muito profundas. Não existe organismo vivo na atmosfera que não se nutra de alguma coisa. Nutrição é uma função superbásica, não pode ser tratado de maneira mecânica, desligado da experiência emocional de ser quem você é.

mordendo uma maçã

RF – Existem dois aspectos extremamente perversos na nossa cultura de mercado:

1-      A imagem das pessoas.

2-       A quantidade de oferta de prazeres de comida.

99% das pessoas saem para comer juntas. Comer, beber está completamente relacionado com a sociabilidade. A amizade no homem se estabeleceu com a comensalidade, com o comer junto, que é o momento que os homens mostram que não são animais, que não usam os dentes para comer os outros, mas para comer a caça juntos. A amizade é baseada na comensalidade, totalmente ancestral. Tudo isso tem que ser levado em conta na hora que a gente come. Mas, por outro lado, as pessoas que são ditas “mais seguras socialmente” são as pessoas que assumem a imagem dos magros e malhados. Em festas chiques, com muita comida, é comum encontrar mulheres magérrimas, que comem uma folha de alface e passam a noite com uma taça de champanhe na mão, sem tomar nenhum gole.  Então tem esse nível de distorção absurda.

LO – Isso me lembrou uma cena. Estava em um elevador cheio, uma mulher muito magra dona do tal corpo ideal, se orgulhava da estratégia que encontrou para manter a forma. Ela dizia que adora chocolates mas, para manter a forma, apenas punha o bombom na boca, sente o  gostinho e cuspia tudo, em seguida. E falou isso com o maior orgulho, dando o bom exemplo.

RF – É uma dissimulação. É um jeito de se manter magérrima e incluída na coreografia do ambiente. Então, a mulher da festa por onde ela passava, estava mastigando, ninguém sabe se era uma folha do alface mas o quê. Ela faz o ritual do ambiente, mas perversamente.

LO – Num controle perverso?

RF -Totalmente perverso para o prazer, pois a comida está relacionada ao prazer à comemoração.

LO – E quando a pessoa está imbuída do compromisso de fazer dieta, está pensando nesses aspectos, mas esquece disso e comete excessos. Esses lapsos acontecem por que?

RF – Por que talvez ela tenha que praticar mais, aprender mais, ter mais paciência com ela mesma no processo de reeducação alimentar. Como quem começa a fazer ginástica, como quem pratica natação nem sempre faz as mesmas marcas. Não se pode ser obsessivo com comida, deve-se variar e ir acompanhando as variações e não se torturar pelos “erros”. Se esqueceu é por que algo mais forte estava ali.

LO – O que fazer com essa amnésia?

RF – Nada. Perdoa e volta para o propósito, pois quanto mais culpa tem, mais transgride, mais se desafia, mais faz escondido de si mesmo, mais tem ataques de compulsão, menos obedece a si mesmo.

LO – Você acha que as situações onde tem mais afeto colocam mais em risco isso?

RF – Não. Depende da inteligência alimentar que a pessoa tem. Existem pessoas que acham que afeto é se entupir de doces. São culturas familiares. Pode ter enorme prazer alimentar comendo coisas leves, que não deixam de barriga pesada, que tem sabores delicados, variados, sutis e não precisar comer uma feijoada para achar que está comendo uma coisa gostosa.

LO – E a sensação de vazio?

RF – A saciedade é algo a ser estudado. Tem pessoas que têm dificuldade muito grande em perceber a saciedade, isso requer um suporte um nutricionista ou de uma psicoterapia, pois esse pode ser um problema mais profundo, que não pode resolver por conta própria. Problemas profundos de saciedade podem estar relacionados com o funcionamento cerebral e até ser preciso usar medicações, como antidepressivos, que ativam ou inibem certas áreas do cérebro, sinalizando um limite. Em geral, essa questão da saciedade está associada a outras dificuldades de se sentir satisfeito com o que quer que seja. São pessoas que tem uma vivência de ser saco sem fundo na vida.

(foto)

LO – É possível dizer que as pessoas que tem mais dificuldades para perder peso tem mais conflitos afetivos?

RF – A dificuldade de perder peso tem que ser analisada por muitos aspectos,  pelo ponto de vista metabólico, hormonal, da produção de insulina, do hormônio da tiróide, dos hormônios sexuais de menopausa, há uma série de taxas bioquímicas que dizem muito a respeito da capacidade de a pessoa queimar gordura ou não. Mas, às vezes, há uma falta de esclarecimento sobre o que entra e o que gasta, o tipo de exercício que a pessoa faz. Um bom personal trainner, um bom nutricionista podem avaliar isso, que também é parte de uma reeducação alimentar.

LO – Qual a orientação para quem vai começar uma dieta?

RF O mais importante para quem vai começar uma dieta é entender que corpo não é separado da vida que a gente leva. Que o corpo é a vida que a gente leva, e para viver a vida que a gente leva a gente precisa ter vários tipos de educação, incluindo a alimentar e a do exercício. Isso para estar funcionando num ambiente que a gente vive hoje, que é a nossa atualidade com essa quantidade de trabalho, com essa quantidade de oferta de prazeres, com as vidas sozinhas, pois muita gente já não come em família. Essa é a realidade contemporânea dos grandes centros urbanos, é onde tem mais gente e é onde mais essas questões estão em pauta. No interior, as pessoas continuam comendo doce de leite e carne de porco e comem mesmo. As pessoas precisam ter uma educação para vida atual, o corpo não é uma coisa separada da vida atual.

LO – Nessa vida maluca e cheia de excessos os lapsos alimentares são mais constantes não é?

RF – Os lapsos independem da vida contemporâneo, isso depende do funcionamento da pessoa, porque esqueceu disso, lembrou daquilo, cada um tem seu jeito de lembrar e de esquecer.

LO – Não fica muito permissivo?

RF – Não. Acho que se a pessoa se propõe a fazer uma coisa ela vai tentar e vai prestar atenção, ela vai aprender com o erro, mas não pode se torturar. Se ela se tortura, vai desobedecer na primeira oportunidade, porque a comida tem uma dimensão de recompensa. Quanto mais se tortura, mais busca recompensas criando estados bioquímicos imediatos dados pela comida. Comida é aquilo que não depende de ninguém controlar, só de você que leva algo à boca para mudar o estado interno. Então, tem que saber que comida tem esse poder todo. Comida é uma coisa poderosíssima.

(Edição e fotos: Liliane Oraggio) // Outono 2012.

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One response to “O que entra pela boca – Um diálogo sobre dietas e educação alimentar”

  1. […] e resolvi procurar outra profissional. Outra coisa, diretamente ligada a ela, se refere à minha maneira de me relacionar com a comida em si. Outra ainda, sem qualquer ligação com as duas anteriores, é minha maneira de lidar com […]