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	<title>Laboratório do Processo Formativo &#187; O que penso</title>
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	<description>Laboratório do Processo Formativo</description>
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		<title>Um agenciamento conceitual para honrar e estimular a biodiversidade subjetiva</title>
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		<pubDate>Fri, 21 May 2010 02:54:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Regina Favre</dc:creator>
				<category><![CDATA[O que penso]]></category>
		<category><![CDATA[artigo]]></category>
		<category><![CDATA[processo formativo]]></category>
		<category><![CDATA[regina favre]]></category>

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		<description><![CDATA[Artigo de Regina Favre sobre a complexa trama de conhecimentos que embasa criação, transmissão e práticas no Laboratório do Processo Formativo. Artigo publicado na Revista Reichiana do Sedes Sapientiae.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a title="000025 by Lucia Freitas, on Flickr" href="http://www.flickr.com/photos/lufreitas/3191434265/"><img class="aligncenter" src="http://farm4.static.flickr.com/3469/3191434265_08c7144119.jpg" alt="000025" width="500" height="319" /></a></p>
<p>Regina Favre, Laboratório do Processo Formativo, São Paulo (julho/2007 )</p>
<p>Conceitos e práticas são parte da história cultural. Acredito que os saberes corporais e práticas, tais como nós os concebemos hoje estão enraizados na Europa, em meados do século XIX, como um subproduto da sociedade industrial.</p>
<p>A mudança da produção artesanal para a produção industrial remodelou completamente as tradições culturais e artísticas, as concepções sobre forma e linguagem, valores, aparência das cidades, ruas, casas, seus interiores, exigindo das pessoas um novo uso de seus corpos para produzir e incorporar todas estas realidades.</p>
<p>A pressão vinda do aumento de excitação, de problemas e benefícios produzidos pela sociedade industrial imediatamente sacudiram os usos do corpo tais como eram previamente conhecidos. Ao mesmo tempo, entre outras transformações filosóficas e científicas, Darwin com sua teoria evolutiva, que promoveu a maior revolução na auto-imagem do homem desde o início da história, retirou o criador de uma vez por todas da cena e apresentou os homens à sua animalidade e capacidade adaptativa, permitindo a cada pessoa ver em seus corpos a continuidade dos corpos de seus parentes animais.<br />
É muito importante considerar a presença de Darwin nas elaborações de Freud.</p>
<p>Com Darwin o corpo pela primeira vez se tornou real e acessível como comportamento – o broto de uma nova concepção de corpo como parte de realidades físicas, sociais e afetivas: como forma evolutiva e funcional, comportamento solidificado enquanto espécie, moldando-se de maneira individual e histórico-social, corpo como presença, conceitos que florescem plenamente sob a pressão dos tempos globais.</p>
<p>É aí que pretendo chegar: a uma cartografia clara, situada historicamente, apoiada na ciência, ampliada politicamente, metodologicamente operativa, <a title="Anatomia Emocional de Stanley Keleman" href="http://books.google.com.br/books?id=v5gQmgCP9QgC&#038;lpg=PA55&#038;ots=kdHw_2Gk1N&#038;dq=%22Keleman%22%20%22Anatomia%20emocional%22%20&#038;lr=&#038;pg=PP1#v=onepage&#038;q=&#038;f=false" target="_blank">a partir da visão formativa de Stanley Keleman</a>.</p>
<p>Com todas essas transformações – poderes, sentidos, tecnologias, velocidade e novos modos de produção e distribuição de dinheiro, novas noções e práticas dizendo respeito a auto-regulação e autonomia dos corpos estavam prontas para aparecer e mesmo urgiam ser formuladas como um antídoto dos primeiros sinais de estresse na vida moderna.</p>
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		<title>For English Readers</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Aug 2009 03:51:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Regina Favre</dc:creator>
				<category><![CDATA[O que penso]]></category>
		<category><![CDATA[processo formativo]]></category>
		<category><![CDATA[regina favre]]></category>

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		<description><![CDATA[We gathered our texts in English here, so you can understand our work clearly]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://laboratoriodoprocessoformativo.com/wp-content/uploads/7o.-encontro-239.JPG"></a></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://laboratoriodoprocessoformativo.com/wp-content/uploads/7o.-encontro-239.JPG"><img class="alignnone size-medium wp-image-538" title="Regina ensinando" src="http://laboratoriodoprocessoformativo.com/wp-content/uploads/7o.-encontro-239-300x225.jpg" alt="Regina ensinando" width="300" height="225" /></a></p>
<p style="text-align: center;">
<p>Two important articles that define Regina Favre’s work at the Formative Process Laboratory are now available here for our English visitors.</p>
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		<title>Um diálogo sobre a Biodiversidade Subjetiva</title>
		<link>http://laboratoriodoprocessoformativo.com/2009/06/um-dialogo-sobre-a-biodiversidade-subjetiva/</link>
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		<pubDate>Fri, 05 Jun 2009 20:13:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Regina Favre</dc:creator>
				<category><![CDATA[O que penso]]></category>
		<category><![CDATA[prática]]></category>
		<category><![CDATA[processo formativo]]></category>
		<category><![CDATA[regina favre]]></category>

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		<description><![CDATA[Em palestra na Sociedade Brasileira de Bioenergética, em São Paulo, Regina Favre apresenta sua trajetória e o conceito de biodiversidade subjetiva, eixo de sua prática clínica e de seu trabalho atual no Laboratório do Processo Formativo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img class="aligncenter" title="Regina Favre na Sobab, por Lucia Freitas" src="http://farm3.static.flickr.com/2421/3578246758_3bfc8f3e42_d.jpg" alt="" width="375" height="500" />Palestra na Sociedade Brasileira de Análise Bioenergética</strong></p>
<p>Regina Favre apresenta sua trajetória e o conceito de biodiversidade subjetiva, eixo de sua prática clínica e de seu trabalho atual no Laboratório do Processo Formativo, em São Paulo. A partir de 2001, em sucessivos seminários teórico-vivenciais, o pensamento e o método da Anatomia Emocional, do americano Stanley Keleman, foi sendo amplificado.<br />
“Depois de 15 anos de estudos, confrontei a posição apolítica de Keleman e comecei a formular o conceito de biodiversidade subjetiva, que considera o nosso funcionamento em rede. Segundo a visão formativa kelemaniana formamos corpos e vidas, a partir do herdado e do vivido. Mas, penso que hoje vivemos em uma realidade global e necessitamos de uma visão que considere as diferentes ecologias físicas, afetivas, cognitivas e sociais, das quais somos parte e produtores. Mais que indivíduos, somos canais em torno dos quais se tecem sujeitos corporais continuamente. Nessa perspectiva, a biodiversidade não diz respeito apenas à natureza, mas às respostas, linguagens, formas de comportamento e aos ambientes que somos capazes de gerar. Isso não tem nada a ver com o individualismo. Temos a capacidade de produzir diferença no inato e nos modos sociais de constituir sujeito. Esse é o trabalho com a  biodiversidade subjetiva, sempre apoiado nos princípios formativos da Anatomia Emocional.” define Regina Favre.</p>
<p>Para afastar-se compreensão kelemaniana moderna de individuo, Regina aproxima-se do filósofo italiano Toni Negri. Hoje somos multidão, multidão de corpos, com a imensa potência de trabalho vivo, cooperação, expressão e, portanto, construção material de mundo e história. Se no passado era o povo que estava na base da sociedade industrial e a luta era contra o poder disciplinar, atualmente, a luta é pela conexão e cooperação entre corpos na criação do que ainda não existe.</p>
<p>Não basta desejar cooperar. Cooperação é o efeito da maturação dos modos de conexão. Essa maturação pode ser propiciada pelos recursos do método formativo e da visão clinica e filosófica da biodiversidade subjetiva. Essa visão original que cruza tantas áreas do conhecimento – filosofia, história social, política, neurociências, educação somática, anatomia evolutiva – é capaz de provocar diálogos instigantes. Como este a seguir, durante uma palestra. Acompanhe:</p>
<h4><strong>Clínica e micropolíticas</strong></h4>
<p><strong>Platéia</strong> – Na clínica, fazemos o atendimento individual e fiquei pensando que isso é pouco, que estamos muito longe de atingir essa rede&#8230; (comentário de uma psicoterapeuta).</p>
<p><strong>Regina Favre</strong> – É na clínica mesmo que pode acontecer essa maturação dos corpos em direção à necessidade do contemporâneo. O trabalho é pequeno mesmo. Não se trata de promover a grandiosidade da revolução, mas sim, as micropolíticas: cada macaco no seu galho fazendo seu serviço bem feito. Nossa questão não é mais com a repressão, como era na sociedade industrial, capitalista e patriarcal. Hoje, estamos imersos em jogos de força, com tremenda concentração de poder. Dentro da sociedade de consumo, do capitalismo pós-moderno, vivemos a captura do desejo. Atualmente, o poder boicota a cooperação entre os corpos. Não é mais uma questão de autoridade. O grande trabalho hoje é das conexões dentro da multidão, de modo a permitir essa interconexão, para além de classe social ou hierarquia. É a conexão entre os corpos que pode produzir o futuro.</p>
<h4><strong>Capitalismo, apavoramento e ilusão</strong></h4>
<p><strong>Platéia</strong> – O que impede a conexão dos corpos?<br />
<strong>Regina</strong> – Vivemos completamente rodeados de modos e formas a serem adquiridas, consumidas, que nos oferecem contornos subjetivos prontos, com os quais tentamos nos estabilizar na velocidade dos nossos dias. O mundo é totalmente “midiatizado”. O tempo todo estamos expostos a informação e notícias que assustam tremendamente as pessoas. O que acontece nos corpos no estado de apavoramento? Somos tomados pelo reflexo do susto. Essa resposta em bloco imobiliza. Aquilo que é mostrado no noticiário fala de situações de exclusão – doença, crise, envelhecimento, violência, miséria. Ao mesmo tempo, essa mesma mídia pós-moderna anuncia produtos e mais produtos, que não são apenas coisas, são estilos de vida, contornos existências vendáveis que prometem inclusão. No mesmo instante que compra-se o produto, que supostamente aplacaria essa angústia, a desagregação de si prossegue e a corrida assim torna-se infinita, alimentando o capitalismo. Nesse jogo de forças, as pessoas são mobilizadas a sempre reconfigurar a ilusão. Os vínculos criados a partir dessa “modelização existencial” não funcionam e bloqueiam, reafirmando o desejo sempre de modo individualista. Essa conexão só pode ser restabelecida quando é possível uma maturação dos modos vinculares, que vem da real maturação do modo de funcionamento afetivo dos corpos. Isso permite a produção da diferença e, portanto, da biodiversidade subjetiva.<br />
<strong>Platéia</strong> – Esta é uma visão otimista&#8230; poder se movimentar nesse mundo&#8230; Isso dá um alívio&#8230;<br />
<strong>Regina</strong> – Sim, esse trabalho e o conceito de biodiversidade subjetiva é otimista e se contrapõe ao medo gerado pelas imagens a que somos expostos incessantemente.</p>
<h4><strong>Co-corpar</strong></h4>
<p><strong>Platéia</strong> &#8211; Queria saber sobre o co-corpar a que você se referiu&#8230;<br />
<strong>Regina</strong> – Hoje, não podemos mais pensar que no mundo contemporâneo a narrativa seja apenas  familiar. A narrativa atual é histórico mundial. É necessário navegar por essas redes de relações, sem perder de vista que os corpos se conectam, do mesmo  modo que as formas vivas mais simples são conectivas. O corpo é modo de funcionar, na evolução, no crescimento, nas ligações que se estabelecem o tempo todo entre corpos que pensam, sonham, agem, sentem, formam. Na clínica é fundamental cultivar a tolerância somática à diferença, criar um corpo com organização somática tal, com tal diferenciação, que possa tolerar e, mais que isso, conectar-se com as diferenças. Nessa prática, nós produzimos algo, você e eu, por que eu co-corpo com você.</p>
<p style="text-align: right;">Reportagem e edição: Liliane Oraggio</p>
<p style="text-align: right;">Foto: Lucia Freitas</p>
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		<title>Pesquisando Grupo de Movimento em pacientes psicóticos</title>
		<link>http://laboratoriodoprocessoformativo.com/2008/10/pesquisando-grupo-de-movimento-em-pacientes-psicoticos/</link>
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		<pubDate>Fri, 03 Oct 2008 06:01:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Regina Favre</dc:creator>
				<category><![CDATA[O que penso]]></category>
		<category><![CDATA[artigo]]></category>
		<category><![CDATA[grupo movimento]]></category>

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		<description><![CDATA[Regina Favre descreve os dez encontros de um Grupo de Movimento com psicóticos. O GM é uma conversa extremamente concreta sobre como as pessoas parecem o que realmente estão sendo e sentindo, como mostram o que são e sentem, embora não o saibam muitas vezes. Denise Passos colaborou no projeto.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h4>
<p align="center">Pesquisando a aplicabilidade  do Método do Grupo de Movimento Somático Existencial a um pequeno grupo de pacientes psicóticosdo Hospital Dia da Faculdade Paulista de Medicina.</p>
</h4>
<p><em><strong>Regina Favre<br />
Denise Passos (colaboração)</strong></em></p>
<p><strong>1.Contextualizando:</strong></p>
<p>A Educação Somática Existencial é uma articulação da Psicologia Formativa de Stanley Keleman, com elementos da Esquizoanálise de Deleuze e Guattari, com contribuições da Neurociência, de autores como Gerald Edelman, e elementos da visão de desenvolvimento e vínculo de autores como Daniel Stern e John Bowlby.<br />
Essas ferramentas, cuidadosa e continuamente forjadas, vêm nos permitindo ser coerentes com uma visão da realidade enquanto produção e não como um dado, o que faz toda a diferença.<br />
Com a ajuda de nossos autores, podemos visualizar um  processo biológico e social ocorrendo o tempo todo dentro de nós e fora de nós, os seres humanos como um processo formativo vivo, a existência como um continuum de formas somáticas no devir, os modos de subjetivação como continuamente sendo produzidos no coletivo segundo jogos de força e a subjetividade como emergindo na interação dinâmica entre essas formas e sua pessoalização.<br />
Essa visão formativa , juntamente com a compreensão das distorções das formas somáticas e vinculares instrumentalizada pelo método kelemaniano do corpar e o método esquizoanalítico do cartografar, nos permite trabalhar sobre o sofrimento e as fragilidades que afetam a potência formativa em nós, em nossos alunos, clientes, bem como nos grupos e nas instituições com que trabalhamos.<br />
A visão formativa também nos permite conceber o campo teórico e metodológico como em formação, nos oferece um modo de assimilar autores e influencias, nos facilitando ações interdisciplinares.<br />
O Grupo de Movimento é a prática através da qual aprendemos a nos identificar  com as forças somáticas que nos constituem como sujeito: pode ser usado como uma prática em si mesma ou como complemento dos processos de psicoterapia.<br />
Venho pesquisando e aprofundando essa prática, tradicional dentro das terapias corporais, desde o início de minha prática clínica.<br />
Hoje, esse modo de operar e pensar, tal como o venho trabalhando, possui especificidade e coerência teórica- metodológica e pode ser chamado Grupo de Movimento Somático Existencial.</p>
<p><strong>2.Grupo de Movimento Somático Existencial: algumas afirmações que norteiam a condução do trabalho.</strong><br />
Um corpo em particular é um contínuum que vai da evolução da vida na biosfera aos seus processos embriogenéticos próprios, à continua corporificação de sua experiência dos acontecimentos no mundo, mais a maturação pré-programada do corpo animal ao longo de uma vida.A evolução construiu o vivo como bombas pulsáteis para melhor conter, aumentar e preservar o concerto dos pulsos de células e tecidos &#8211; quanto mais camadas mais eficiente.<br />
Os acontecimentos podem ser de longa ou curta duração. De acordo com sua intensidade e as condições do corpo, estes podem ser da ordem do assimilável ou do excessivo, gerando formas existenciais eficazes ou distorções da bomba pulsátil ,para nossa vida no ambiente.<br />
O corpo, particularmente o humano, se constrói juntamente com a experiência, se valendo das camadas embriogenéticas e não dos órgãos em particular.<br />
Os corpos têm também sua constituição herdada produzida pelos processos seletivos do soma humano: isso nos dá  compleição e temperamento inatos.<br />
A experiência se organiza em camadas somáticas &#8211; continuação ao longo da vida do processo da embriogênese.<br />
Cada forma é um continuum: um trecho de comportamento solidificado.<br />
Cada forma que em si mesma tem uma a amplitude que vai de mais forma para menos forma, também em um continuum.<br />
Formas são solidificações de comportamentos &#8211; herdado e/ou organizado ao longo da vida.<br />
Corpos são ambientes articulados entre si formando ecologias e tendo os modos de vinculação como cola.<br />
Corpos, formas, comportamentos, self(s), modos de sentir, de se relacionar, modos de perceber a si e às coisas são a mesma coisa.<br />
Forma é comunicação, sinalização.<br />
Somos a cada momento muitos corpos, formas, comportamentos organizados em camadas articuladas ou conflitantes.<br />
Os corpos, formas, comportamento são metaestáveis, isto é, possuem sempre uma certa estabilidade, um certo potencial e uma certa  entropia.<br />
Os acontecimentos produzem excitação biológica em nós, portanto os corpos, formas, comportamentos são solidificações de ondas excitatórias.<br />
Acontecimentos são conjunturas de fluxos de todo tipo: físicos, biológico, históricos, econômicos, familiares, de classe, da mídia, dos poderes, do mercado, de grupos, da tecnologia, da moda, etc.etc.<br />
Geramos corpo continuamente. E no mesmo ato de gerar corpo, geramos ambiente , não existe um sem o outro.<br />
Os corpos e seus territórios existenciais são processos vivos.<br />
É central, na concepção formativa de Keleman, não atribuir ao corpo o sentido de objeto da consciência.<br />
Keleman afirma diretamente que o que chamamos corpo é um processo ,uma corrente contínua de eventos, sem saltos nem elos perdidos, que se estende como  forma corporificada por pelo menos 3.8 bilhões de anos dos aproximadamente 5 bilhões do nosso planeta. E que essa corrente contínua de produção de corpos e territórios existenciais prossegue diariamente em nossas vidas.<br />
Nesse processo de corporificação, diz Keleman, o assunto principal é levar adiante as formas que estamos destinados a viver enquanto animal humano -criança, púbere, adulto, adulto maduro, envelhecente, velho, parte da nossa herança genética. O que Keleman está querendo dizer, com isso, é que somos todos participantes da continuidade desse processo mórfico de existencialização corporal, onde o processo seletivo da evolução prossegue no dia a dia de nossa vida, no processo de invenção de futuros. Acúmulos de diferenças atingem seu limite desestabilizando nossa forma atual e nos lançando no inatual. Na continuidade do processo formativo, então, novas intensidades, virtualidades, imagens, sonhos, vão se selecionando a si mesmos até que esboçamos novos comportamentos, formas somáticas que dêem conta da excitação biológica gerada nos encontros com a nossa própria forma e as formas presentes contemporaneamente, e, inversamente, des-solidificamos comportamentos e formas que não mais nos viabilizam no mundo.<br />
Sua segunda afirmação é que o processo vivo tem um investimento total em continuar a corporificar-se. E esse processo corporificante que, por sua vez está continuamente investido em manter a forma da sua herança, está num diálogo constante consigo mesmo.<br />
E esse diálogo é sempre a respeito da minha situação imediata em relação às minhas diferentes ecologias &#8211; físicas, afetivas e incorporais.<br />
Diz ele, se pensarmos o corpo falando através de acontecimentos não verbais, não simbólicos, que são sensações, sentimentos, motilidades, veremos que ele precisa falar de volta consigo mesmo de tal modo que possa influir em seu comportamento. Então o corpo, diz Keleman, influencia a si mesmo moldando-se a si mesmo em ações, inibindo-se a si mesmo ou agindo em relação a si mesmo. Isso, ele faz através de um elegante sistema de feedback a que chamamos cérebro: o corpo organiza a si mesmo para conversar consigo mesmo secretando para si mesmo um órgão que é capaz de receber de volta seus padrões de ação e conversar consigo mesmo sobre eles. Isso quer dizer que há sempre uma relação do corpo consigo mesmo ocorrendo o tempo todo. Essa relação ocorre como o modo pelo qual o corpo altera e regula a forma de suas expressões.<br />
Isso revela que a preocupação central do corpo não é apenas sobreviver mas sobreviver através de uma relação consigo mesmo de organizar a experiência em formas e comportamentos, sustentando uma instância pessoal neuro-motora de múltiplas linguagens e camadas a que chamamos sujeito</p>
<p><strong>3. Sobre o coordenador do grupo de movimento somático existencial:</strong><br />
-	<strong>exerce</strong> seu olhar para as necessidades formativas dos grupos e seus membros;<br />
-	<strong>enxerga </strong>as tendências e funções das diferentes formas somáticas em construção;<br />
-	<strong>organiza </strong>somaticamente sua própria resposta somática e cognitiva;<br />
-	<strong>transmite </strong>a linguagem somático-emocional através de sua fala e presença somática;<br />
-	<strong>ensina </strong>os participantes a problematizar experiencialmente a função existencial de sua forma corporal;<br />
-	<strong>facilita </strong>a experiência e o manejo  das camadas somático-emocionais com que construimos nossos diferentes corpos nos diferentes mundos de que somos parte;<br />
-	<strong>promove </strong>a sustentação das intensidades emocionais e sua moldagem em diferentes modos de ligação e ação.</p>
<p><strong>4. Sobre o grupo, no Grupo de Movimento:</strong></p>
<p>1. O processo formativo grupal a cada encontro e ao longo dos encontros se dá por contato, inclusão, controle, diferenciação e multiplicação;</p>
<p>2. O grupo matura a cada encontro e ao longo dos encontros ,como o soma humano ao longo do processo maturacional de sua forma, de vazio, para inchado, para denso, para rígido e para  diferenciado, se tudo correr bem;</p>
<p>3.Cada fase de crescimento do grupo e de seus membros necessita de um vínculo formativo para que produza uma forma funcional ao longo do processo formativo: nutrição e abrigo, reconhecimento, prática do menos formado com o mais formado, comunidade e diferenciação;</p>
<p>4. É importante ter em mente que cada forma nova que se concebe, em qualquer fase de crescimento que seja ,passa também por todos esses estágios de consolidação de forma;</p>
<p>5.É importante, também, reconhecer que dentro de seu tipo constitucional, cada membro do grupo busca amor e dá amor de modo específico : amor como busca de vínculo para poder formar a si e a seu ambiente;</p>
<p>6.Há sempre um <strong>presente somático </strong>onde as formas contemporâneas  estão operando,  agonística ou antagonisticamente entre si;</p>
<p>7. Nessa forma estão comportamentos de relações presentes e passadas, organizando a relação com uma determinada situação presente. Essas respostas solidificadas,  constuintes da forma, trazem em si a marca das experiências excessivas ou assimiláveis nas formas através das quais exerce sua potência formativa;</p>
<p>8.O processo formativo é sempre algo maior do que nós – estamos sempre dentro de um processos pré-pessoais e  pós-pessoais: a tendência é sempre que respondamos a partir dos repertórios pré e pós.</p>
<p>9.Nossa liberdade dentro do processo formativo está em aprender a receber de volta nossas respostas, as formas de nossas próprias intensidades e intensidades do mundo, e através da repetição  ser capaz de nos apropriar delas,  regulá-las ou transformá-las, pessoalizando/ estabilizando formas que sejam mais funcionais/mais atualizadas.</p>
<p><strong>5. A influência de Keleman sobre esta concepção de Grupo de Movimento:</strong></p>
<p>Podemos dizer com Keleman, que a pratíca do corpar, inerente ao exercício do Grupo de Movimento,  invoca em nós um campo organizativo, silencioso mas não inativo, relacionado à função natural de expandir e contrair. Esse organizar é sentido no padrão de pulso corporal que nosso cérebro é capaz de influenciar. O exercicio desacelera e digitaliza a sequencia do pulso num padrão de quadro a quadro. Isso intensifica / localiza e , em seguida , redistribui o pulso. Modificar o pulso do soma traz  duração às nossas formas emocionais, organização e  desenvolvimento de uma dimensão interna, um soma pessoal.</p>
<p>O <strong>exercício de corpar</strong> de Keleman presente no Grupo de Movimento tem vários passos:</p>
<p>-	o primeiro é reconhecer como estamos corpados em determinada situação, nossa postura-pose imediata com seus sentimentos/estados mentais<br />
-	o segundo é reconhecer como fazemos isso muscularmente: mantendo nosso organismo definido pelas superfícies musculares tornamos distinta uma forma emocional.<br />
-	no terceiro passo, dispersamos essa forma emocional.<br />
-	 Passo dois e três chamamos de sanfona.<br />
-	conter e dar suporte ao pulso cheio e a seus conteúdos emocionais incuba uma expressão emocional interna &#8211; esse é o quarto passo.<br />
-	expressões únicas emergem desse oceano somático &#8211; quinto passo.</p>
<p>Keleman se refere aos passos como o  mestre interno do corpo.<br />
Considera que a  prática de juntar, pausar, dispersar gera excitação e sentimento que aprofundam a realidade cerebral &#8211; voluntária e involuntária &#8211; a nível emocional, cognitivo e gestual.<br />
Diz que para mobilizar e depois influenciar a emoção, o desejo, a necessidade, o instinto , tornando isso tudo pessoal, é necessário  participar da relação do corpo com ele mesmo.O exercício dos 5 passos desenvolve o  diálogo entre o cérebro cortical e o cérebro emocional sub-cortical. O processo em passos influencia  as frequências e amplitudes do pulso entre corpo e cérebro trazendo para a superfície cortical memórias emocionais corporificadas de comportamentos a serem reorganizados. Isso forma uma dimensão emocional interna que dá sentido ou significância à nossa presença somática.</p>
<p>Keleman recomenda que se conduza o exercicio em slow-motion, quadro por quadro, para que a digitalização dê forma e camadas distintas ao soma. Em ritmo lento, descobre-se o inchar e esvaziar, o para frente e para trás, o entre passado e futuro, expandindo e sustentando o presente. Com a prática de juntar e dispersar ficamos  mas próximos da estrutura das nossas relações , das que nos são dadas e das que formamos ,do corpo que somos e do corpo que vivemos.</p>
<p><strong>6. O dispositivo da experiência com os pacientes do HD:</strong></p>
<p>Duração:  10 encontros<br />
Dia: às 4os feiras<br />
Hora: das 13 às 14 horas.<br />
Pacientes: fora de crise – estimulamos a continuidade a cada semana mas vai que quer.<br />
Local: salinha de cima, com janela clara ao fundo, mostrando um pouco de verde e céu.<br />
Cenário: duas filas de cadeiras voltadas uma para a outra e um espaço para andar no meio.</p>
<p><strong>5. Os encontros:</strong><br />
Aqui as notas de Denise se misturam com a minha escrita.<br />
Denise, em sua função de anotar, esteve absolutamente presente na sala, em contato com os participantes, participando também quando se sentia movida a compartilhar alguma observação ou mesmo contribuir com indicações e suporte para algum participante. Os encontros 6, 7 e 8 ficaram inteiramente com ela.<br />
Todos os outros encontros, eu mesma os conduzi.<br />
No Grupo de Movimento (GM), pedimos que reconheçam como fazem o que fazem, como respondem à situação grupal presente com o conjunto de suas formas.<br />
Para que possam fazê-lo, principalmente com pessoas de baixa organização, os imitamos,<br />
o outros do grupo os imitam, pedimos que repitam um gesto, uma expressão, uma presença somática. Vamos também ajudando a criar uma memória dos encontros, das descobertas e experiências com o corpar, chamando de volta formas experimentadas em encontros anteriores.<br />
O coordenador vê e ao mesmo tempo busca modos de dizer o que vê, para que o grupo experimente as formas e comportamentos descritos.<br />
O GM é uma conversa extremamente concreta sobre como as pessoas parecem o que realmente estão sendo e sentindo, como mostram o que são e sentem, embora não o saibam muitas vezes.<br />
O GM com esse grupo foi uma experiência de chamá-los para uma conversa no presente sobre como são e como às vezes temem ser – mostrando/fazendo/falando sobre seus sofrimentos, estranhas emoções e sensações físicas, mostrando fisicamente como é, encenando( biodramatizando, no dizer de Keleman) de modo simples e muitas vezes emocionante a forma física de sua experiência existencial, como pessoa e como doente. Falamos sobre nós, lá.<br />
Era visível o esforço de concentração e presença – o grupo geralmente conseguia sustentar de 40 a 45 minutos de atenção corpada no trabalho</p>
<p><strong>Primeiro Encontro:</strong></p>
<p>Participantes: Reinaldo, Marcos, Gabriela, Jaqueline e Ivone.<br />
Consignas:<br />
As sensações, os sentimentos, tudo o que somos está no corpo.<br />
Podemos aprender a conhecer melhor como fazemos  para poder mudar o que fazemos.<br />
Vamos fazendo (= posturando) e imitando .<br />
As pessoas mostram ,nos jeitos delas, como são.<br />
Como vocês me vêem? Como entendem a minha forma?<br />
Respostas do grupo: tímida, alegre, comunicativa.<br />
Fazem o meu jeito  &#8211;  dão mais e menos forma à forma imitada.<br />
Como vocês fazem timidez? Alegria? Comunicação?<br />
Como sabem que sou tímida?<br />
Você vira os pés para dentro quando fala conosco.<br />
Olhar para a coordenadora ( a coordenadora espelha as formas do grupo, para que eles possam receber suas formas de volta).<br />
Tímida é virar as partes do corpo para dentro.<br />
Como fazemos para esconder o que somos ou fazemos?<br />
Experimentar nas próprias formas:<br />
- esperto<br />
-aberto/fechado<br />
- proximidade/distância.<br />
Como fazem os olhos? Como os olhos olham nas diferentes situações?<br />
Através das formas do olhar trabalhamos: proximidade-confiança  e  distância- desconfiança.<br />
Utilizamos essas quatro formas mínimas para operar a vinculação inicial.</p>
<p>Pequenos movimentos não reconhecidos anteriormente são repetidos, experimentados, imitados por todos: uma pequena ginástica emocional e de comunicação grupal.<br />
No final, o tônus começa a se auto-regular reflexamente.<br />
A coordenadora usa de um pequeno dispositivo pedindo que o grupo fique um pouco com os braços levantados. Aparecem, então, reflexos de extensão: espreguiçar, alongar, encolher.<br />
No GM, um dos segredos é passar diretamente de um registro para outro – das atitudes, para os sentimentos, para as propriedades fisiológicas das ações, para anatomia delas, etc.</p>
<p>Como sabemos o que estamos sentindo?<br />
O coração faz o ritmo da vida em nós.<br />
Experimentando os ritmos, colocando a mão sobre o coração.<br />
Como o coração está batendo?<br />
Imitamos o som do coração que telegrafa um estado.<br />
Achando as palavras,expressivas (e não descritivas), bombeadas pelo pulso do coração.<br />
Tocando a canção da experiência a partir dos diferentes ritmos de cada pessoa do grupo.<br />
A forma ,simultaneamente, comunica e organiza o que sentimos .</p>
<p><strong>Segundo  Encontro:</strong></p>
<p>Participantes: Reinaldo, Marcos, Jaqueline e Lucimeire.<br />
Consignas:<br />
Lembrando o grupo anterior: confiança – desconfiança , aberto – fechado.<br />
As batidas do coração. A voz do coração.<br />
O  espreguiçar.<br />
Lembrando a forma “tímida da Regina”- a forma tímida com os pés virados para dentro.<br />
Fechando e abrindo os pés (sentados). Fechando  e abrindo a forma – focando a forma.<br />
Imitando Lucimeire, que diz seus pés não tocarem o chão.<br />
Imitam, sentados ,pés pendurados no ar, sem tocar o chão.<br />
Reinaldo diz: “Quando os pés não tocam o chão perdemos o controle”.<br />
Notam que falta de forma é a mesma coisa que pouco controle.<br />
Dialogo com as pernas: Como são nossas pernas ? Espertas, magricelas, compridas, frágil<br />
e forte. Diferença entre perna esquerda e direita. Lucimeire conta a estória do acidente com o tornozelo.<br />
Andar pela sala. Percebendo os diferentes estados emocionais. O modo de andar relacionado ao estado de espírito.<br />
Percebendo a respiração associada á ação .<br />
Descobrindo os braços-expansão/contração do peito relacionadas ao uso dos braços.<br />
Mapear, lembrar e exercitar.<br />
Qualidade da experiência associada á ação: fraco, forte, instável,esperta .<br />
Jaqueline percebe como se defende com a perna direita.<br />
Longa conversa falando/fazendo as expressões das nossas pernas.<br />
Marcos percebe que tem braços “desgrudados” do corpo.<br />
Como nós poderíamos ajudar o Marcos a fazer um braço que ajude a encher de ar o peito? Respiração experimentando estados de encher e esvaziar.<br />
Construímos uma associação de olho mão- braço- respiração.<br />
Os olhos servem para pegar coisas que o braço não alcança.<br />
A respiração expande e recolhe.<br />
Da janela, alcançamos brilhos, sombras e objetos à distância</p>
<p>O grupo como multiplicador, sustenta a cumplicidade, mostra e ensina jeitos.<br />
Contamos estórias somáticas do que estamos fazendo. Descrevemos, em termos somáticos, formas e expressões de cada um . Paramos em diferentes formas, experimentando junto, descobrindo ações e sentidos um pouco diferentes, reconhecendo como sentem e o que sentem, a partir de suas formas corporais. Reconhecendo a correspondência do dentro com o fora. Falando e fazendo ao mesmo tempo. Olhando, reconhecendo, imitando o que sente o outro. Recebendo os efeitos de vitalidade e presença quando sintonizam com a própria forma, ação, expressão e sentido</p>
<p><strong>Terceiro Encontro</strong></p>
<p>Participantes: Marcos , Meire , Reinaldo, Jaqueline.<br />
Consignas:<br />
Relembramos  o encontro anterior:<br />
Como eram as formas pouco formadas?<br />
Como foi o movimento com as pernas?<br />
Marcos lembra que a Regina pediu para ele encostar os pés no chão.<br />
A  Lucimeire não alcança o chão, lembra o grupo.<br />
Reinaldo lembra da sensação de descontrole com os pés longe do chão.<br />
Reinaldo se reconhece alto e Lucimeire pequena.<br />
Experimentam suas diferentes alturas, falam de suas referências familiares de tamanho, situam o tamanho como relativo.<br />
Marcos diz: “Eu gostava do tempo que era pequeno, porque era protegido “.<br />
Experimentamos formas de proteção.<br />
Trabalhamos em duplas : a pessoa em pé faz a forma do que oferece proteção, e a pessoa sentada(para ficar pequena) recebe  proteção. As pessoas vão trocando sucessivamente de posição até que todos tenham vivido as duas formas: protetor e protegido.<br />
Os movimentos acontecem com gestos de forma delicada e de grande emoção. Silêncio e respeito ambientaram a sala.<br />
Gestos de proteção tocando suavemente o ombro do parceiro.<br />
O que vocês estão sentindo? Pela respiração podemos descobrir como estamos nos sentindo.<br />
Mais calmos, dizem.<br />
Como vocês percebem sua relação com o ar que entra em você?<br />
As mulheres do grupo se perceberam cheias de ar e com ansiedade. Os homens, vazios de ar. Dizem, ficar vazio é uma forma de não fazer bobagens e, também, de não sentir o sofrimento.</p>
<p>Experimentam ficar ,costas com costas, em duplas, para sentir a respiração do outro e tentar descobrir o que ele pode estar sentindo. Ficam  um bom tempo explorando essa situação. Depois ficaram meio perdidos e o ambiente, meio esvaziado.<br />
O que está acontecendo na cabeça? .<br />
Marcos e Meire falam de cabeça vazia, de uma sensação de depressão.<br />
Reinaldo fala de um aperto dentro da cabeça.<br />
Regina pede para ele fazer com as mãos a forma do aperto. Pede que faça o gesto diante do próprio rosto, olhando. Pede para ele dizer :“Este é um nó que não desmancha”</p>
<p>Ficaram tristes.</p>
<p>Será que vocês podem lembrar uns aos outros ,durante a semana, o que estamos aprendendo sobre nossas formas ?<br />
Meire diz que lembrou de falar,várias vezes, para o Marcos encher mais o peito.</p>
<p>Terminamos o grupo com uma roda e lembrando como é proteger e ser protegido.<br />
De forma suave, delicadamente, deixando-se tocar os ombros no circulo.</p>
<p>Com seus poucos recursos pessoais de sustentação, eles tendem a perder forma e a experimentar sensações de desorganização .<br />
As consignas têm sido direcionadas para ajudar a aumentar o limiar de sustentação de presença, individual e grupal.</p>
<p><strong>Quarto encontro</strong></p>
<p>Participantes: Reinaldo. Marta, Jaqueline.<br />
Consignas :<br />
Lembrando o grupo anterior: os sentimentos acontecem no corpo.<br />
Apresentando o grupo anterior para a Marta. Reproduzindo formas de proteger e ser protegido.<br />
Marta se emociona com a proteção e lembra da briga que teve com o filho antes de sair de casa. Diz: &#8211; Este movimento é muito profundo.<br />
Como seria trazer força para dentro do corpo? Como se ligar no que é mais forte no meu corpo?</p>
<p>Marta diz : quando sinto meu corpo mais quente e isso me dá força.<br />
Regina:Vamos procurar respirar no peito e tentar ao tocar o outro passar força para ele.Onde sou forte?.<br />
Marta fala de sua pernas que são fracas.<br />
Regina: &#8211; Vamos experimentar as pernas com movimentos soltos e redondos , colocando de forma firme os pés no chão. Dando apoio com a palma da mão na coluna, formamos um trenzinho , um apoiando o outro .</p>
<p>Experimentando formas do andar: o andar pesado ( Jaqueline e Marta ) , o andar desconfiado e envergonhado ( Reinaldo ).<br />
Regina: “Nós sentimos de acordo com o que fazemos . Se imitarmos um olhar de desconfiança, vamos descobrir sentimentos de  desconfiança .<br />
Vamos imitar o andar pesado, fazendo a cabeça pesada, os olhos para baixo ,olhando o chão.<br />
Alguem diz que assim corpo balança como se estivesse solto no mundo.<br />
Vamos achar um jeito de olhar para cima. Vamos colocar as mãos na cintura, vamos tentar apoiar nossa coluna e sustentar nossa cabeça.<br />
Os andares  vão ficando mais leves e menos desconfiados.<br />
Descobrimos que esse  é um modo de andar que permite ver , ouvir e sentir mais.</p>
<p><strong>Quinto encontro</strong></p>
<p>Participantes: Jaqueline, Josué, Gabriela, Renata<br />
Consignas:<br />
Lembrando o grupo anterior.<br />
Jaqueline apresenta o grupo para os novos, como um espaço de apoio e ajuda, onde aprendemos uns com os outros.<br />
A partir da lembrança do olhar desconfiado e do olhar mais seguro doencontro anterior, começamos uma conversa sobre as formas de olhar. Então fomos descobrindo as diferentes formas de olhar de cada um : olhar triste,olhar longe,olhar pesado de cabeça cheia,<br />
Foram aparecendo impressões de si a partir da imitação dos diferentes olhares. Então apareceram falas sobre: a sensação de corpo inexistente,o corpo como invisível,a alma distante do corpo.<br />
Como será que podemos fazer para juntar a experiência do olhar com as sensações corporais ?<br />
Vamos começar a prestar atenção nas nossas articulações, nas juntas do corpo.<br />
Posturando a forma sentada , vamos imaginar, só imaginar: como seria levantar e ficar em pé? Onde será que nós nos acionamos para ficar em pé?. Então vamos percebendo que nós nos juntamos através das articulações, criando uma força de propulsão que nos coloca em pé. Depois abrimos as articulações para sustentar nossa forma em pé. Abrindo e fechando as articulações vamos criando uma forma, um jeito nosso de nós movermos e nos colocarmos no mundo.<br />
Respostas do grupo depois de experimentar, corpando e imitando formas de se articular:<br />
-	Aprendi a andar mais atento,<br />
-	Fiquei mais ligado, me sinto mais romântico<br />
-	Estou mais segura,<br />
-	Percebi que meu andar é tímido.</p>
<p>Trabalhando com a Gabriela:<br />
<strong>Regina</strong>: Onde você acha que começa  aparecer sua forma tímida ? Sinta  a forma da sua bacia, ela tem um jeito de se segurar contraindo as juntas, como se fosse para segurar a vergonha.<br />
<strong>Gabriela</strong>:- “Minha família me critica e eu me sinto ridícula, acho que pareço um robô. Minha mãe me vai me colocar nas aulas de dança para eu me soltar .<br />
<strong>Regina</strong>: Experimente caminhar na sua forma tímida, sentindo seu peso, e sentindo todas suas articulações.</p>
<p>Gabriela repete muitas vezes o andar tímido até começar a usar mais as articulações.</p>
<p><strong>Regina</strong>: Agora você vai continuar andando e ao mesmo tempo vai dizer: &#8211; Eu posso mexer as minhas articulações, eu sou  bonitinha e não sou ridícula .<br />
O grupo vai repetindo junto com ela : você pode mexer suas articulações porque você é bonitinha e não é ridícula.</p>
<p>O grupo diz: não sabia que o corpo mostrava tanto de nós, mexer as juntas me ajudou a sentir mais solta e mais leve.</p>
<p><strong>Sexto Encontro</strong></p>
<p>Participantes: Josué, Jaqueline, Marta, e Reinaldo .<br />
Consignas:<br />
Retomando o grupo anterior.<br />
Lembrando formas: tímidas, ausentes, desconfiadas.<br />
Ao apresentar as formas o grupo começou a ganhar um tom mais afetivo.</p>
<p>Denise: &#8211; Como nós podemos contar o grupo passado para a Marta?</p>
<p>O grupo começa a falar e Marta diz que se sente acolhida mas que não merece tanto cuidado.</p>
<p>O grupo começa a dizer a Marta que também sentem muito acolhidos e cuidados na relação com ela.</p>
<p>Denise: &#8211; “Vamos caminhar procurando achar em nós a nossa forma afetiva. Se eu pensar em demonstrar afeto que forma se organiza em mim?</p>
<p>Aparecem no grupo formas tímidas e recolhidas, inundadas, desmanchadas e desconfiadas.</p>
<p><strong>Denise:</strong> &#8211; “Vamos imitar as formas que apareceram, vamos provocar em nós a organização destas diferentes formas de nos fazermos afetivos”.</p>
<p>Depois de algum tempo experimentando as diferentes formas, fazendo-as deslizar no contínuo de mais consistência ( mais forma ), e de desmanchar ( menos forma ), o grupo começa a organizar suas respostas particulares.<br />
Reinaldo começa a encher mais o peito de ar  e seus olhos começam a ficar menos desconfiados, aumentando o contato.<br />
Marta fica mais focada nos olhos e menos inundada no peito, com as pernas mais organizadas aumenta sua sustentação.<br />
Josué vai lembrando da maciez  e da flexibilidade das articulações, e começa a ficar mais lúdico.<br />
Jaqueline vai se reunindo, puxando os membros para mais perto da coluna, fazendo articulações menos frouxas , mostrando-se mais segura.</p>
<p><strong>Denise</strong>: &#8211; “Com estas novas formas que vocês organizaram, vamos experimentar formar duplas, e frente à frente   com as palmas das mãos em contato com as do outro, vamos experimentar transmitir afeto e receber afeto,  um parceiros que fica ativo e outro  o recebe, depois invertem o movimento.</p>
<p>Terminamos o encontro com uma conversa sobre como é sentir-se mais em contato sem se sentir inundado, mais preenchidos ou não tão vazios.</p>
<p><strong>Sétimo Encontro</strong></p>
<p>Participantes: Josué, Jaqueline , Sandra , Marcos.</p>
<p>Consignas:<br />
Retomando o grupo anterior. Antes mesmo  de o grupo contar para Sandra o encontro anterior, Marcos deita a cabeça em seu colo e pede carinho. Sandra assusta-se e fica rígida,  quase congelando ao contato. Marcos, de espalhado volta a se reunir, e diz que ás vezes é muito difícil conter seus impulsos. E organiza mais contenção.</p>
<p><strong>Denise</strong>: &#8211; “Começamos então uma conversa a partir destas formas que apareceram. Trabalhando proximidade e distância , vamos aprender através do manejo dos braços e do peito formas que nos abrem para o contato e formas que nos fecham “.</p>
<p>Os padrões do contínuo do susto apareceram através de formas extremamente rígidas e desmanchadas. Trabalhamos no sentido de fazer mais  e menos  rigidez. Neste momento começamos a organizar formas de dizer não e limitar o contato e formas de dizer sim liberando o contato.</p>
<p>Experimentamos estas formas formando duplas que trabalharam movimentos de proximidade e distância, prestando atenção na respiração para poder escolher entre proximidade e distância, ou entre dizer sim e não. Usando os braços para limitar o fazer crescer o contato , sempre conectados com as respostas do peito e se permitindo respeitar a si mesmo e ao outro .</p>
<p>Terminamos o encontro andando e percebendo os efeitos , e organizaram respostas com formas mais preenchidas e leve.</p>
<p><strong>Oitavo encontro :</strong></p>
<p>Participantes: Marta, Sandra, Jaqueline, Meire, Renata, e Marcos.<br />
Consignas:<br />
<strong> Retomando o grupo anterior</strong>: &#8211; “Sandra traz a experiência de estar sentindo-se mais segura, ao andar no metrô pode fazer com as mãos limites para as pessoas”<br />
Meire traz a questão de que como não pode estar nos grupos anteriores, temia não conseguir acompanhar o grupo.<br />
Marcos fala da dificuldade de ficar contido&#8221;.</p>
<p><strong>Denise</strong>: &#8211; “Vou propor à vocês que nós fiquemos em pé, e fazendo contato com nossas pernas vamos nos apoiando nelas,  encontrando um jeito de nos sentirmos firmes em nossas pernas. Então mais apoiados em nós, vamos pesquisar formas que eu venho com mais freqüência experimentando . Então nós vamos expandir e contrair estas formas , no sentido de deixá-las mais nítidas&#8221;.</p>
<p>Respostas do grupo:<br />
Sandra  fala da dificuldade de lidar com o fato de chamar à atenção dos outros. Fica assustada quando se sente observada, vai contraindo todo o corpo, principalmente o peito e os ombros. Descobriu que fazendo uma forma mais flexível pode fazer movimentos de proximidade e distância, isso fez com sentir-se mais segura. Aprendendo a dizer sim e não, através de uma atenção maior na respiração e nas sensações do peito”.</p>
<p>Marta fala como se desmancha no contato com o outro, pois vai ficando inundada de emoção. Fazendo mais e menos a forma desmanchada pode descobrir a ação dos músculos que podem sustentar sua coluna , e fechar um pouco o peito, estes movimentos lhe permitiram descobrir como é estar em contato e não ficar tão inundada de emoção”.</p>
<p>Renata fala da dificuldade de se mostrar, lembra que teve que abandonar a faculdade de arquitetura porque no último ano teria que se expor à uma banca examinadora. No grupo experimentou desconforto e frente suas falas começou à experimentar angústia”.</p>
<p>Meire sente-se tocada pela fala da Renata, e diz que quando assumiu um cargo de coordenação perdeu a voz, pois teria que falar nas reuniões. Diz – “Minha psicóloga fala que eu tenho atitudes infantis. Depois do acidente que sofri só me sinto segura com meu marido.</p>
<p><strong>Denise </strong>– “Você percebe que conseguiu se colocar e se expor diante do grupo, mesmo sem a presença do seu marido?”.</p>
<p>Meire fica alegre e diz que não havia percebido, mas que a sensação agora que pode perceber é muito boa, de confiança e expansão.</p>
<p>Jaqueline fala de sua timidez.  – “Parece que minha timidez aparece quando me contraio e fico menos desmanchada.”    Então conversamos de como a forma tímida também é uma forma de presença, e que assim ela pode se fazer presente.</p>
<p>Marcos fala da falta da “Regina”, pergunta se ela ainda está  viajando . – “Diz : &#8211; Foi ela que começou o trabalho comigo  .</p>
<p><strong>Nono encontro</strong></p>
<p>Participantes :  Adriana- A, Adriana- B, Meire, Reinaldo, Sandra, Marta.<br />
Consignas:<br />
Ao iniciar o grupo Adriana A fala que deseja ler uma poesia.<br />
<strong>Regina </strong>: &#8211; “Está bem! Você pode ler&#8221;.<br />
A poesia fala do sofrimento de não ser  compreendida em seu sofrimento.<br />
<strong>Regina</strong>: &#8211; “Como é podermos falar do nosso sofrimento, como nós percebemos a forma de sofrimento em nós.</p>
<p>Neste momento começaram falas dos sentimentos que vivem.</p>
<p><strong>Adriana B</strong> – “Eu sofro de bulimia, sinto um  desespero  enorme de ficar com o alimento na minha barriga, ela é enorme e eu preciso vomitar para aliviar minha angústia. Quando minha mãe fecha o banheiro e eu não posso vomitar, pego uma faca esquento no fogo e me corto, precisa doer muito para aliviar a dor que sinto dentro de mim .<br />
<strong>Regina </strong>– “Como você percebe o tamanho da sua barriga “.<br />
<strong>Adriana B.</strong> – “Ela é enorme, eu sou enorme, muito gorda.<br />
<strong>Regina </strong>– “Venha aqui perto de mim, e vamos experimentar o seu tamanho em relação ao meu tamanho. Toque em mim perceba as proporções e vá medindo. Agora você vai fazer isso com o grupo todo, um de cada vez. Você acha que é maior que todos eles, então você vai tocá-los e comparar com seu tamanho, vai tocá-los e depois tocar você mesma”.<br />
<strong> Adriana B</strong> – “Sinto um vazio dentro de mim, mas estou um pouco mais aliviada.<br />
<strong>Regina </strong>– “Vamos procurar após esta experiência respirar um pouco,vejam todos ficamos afetados pelo sofrimento da Adriana B. Então vamos encher e esvaziar o peito, deixando o ar entrar e sair.<br />
<strong>Sandra </strong>– “Eu compreendo a Adriana B. , eu entrei em uma loja e comprei oitenta pares de sapato, não consigo conter a compulsão. Me acho horrorosa, meu rosto é todo deformado, todo retorcido”.<br />
<strong>Regina </strong>– “Mostre para nós este rosto, como ele é ? “</p>
<p>Sandra vai montando uma expressão de horror, criando uma careta. Regina pede que ela junte as mãos em sua expressão colocando-as ao lado do rosto. Ao mesmo tempo pede para que todo o grupo reproduza a expressão da Sandra .<br />
Fazendo mais e menos na expressão de horror vão surgindo no grupo sentimentos de: tristeza, medo  aflição e angústia.</p>
<p><strong>Adriana  A</strong> – “Eu me sinto perseguida, com sentimentos de traição. Como se todo tempo tivesse alguém atrás de mim. Empurrando as minhas costas.</p>
<p><strong>Regina</strong> – “Mostre para mim como é a pressão nas costas. Faça nas minhas costas o que você sente na sua, usando sua mão. Agora você vai pressionar e dizer : “Você está condenado !!!!.Formando uma roda todo o grupo vai organizar esta forma, vamos fazendo uns com os outros.</p>
<p>Terminamos o grupo abrindo para compartilhar as experiências deste encontro. Falas do grupo: &#8211; “Vivemos muita solidão e sofrimento ,  poder compartilhar foi muito bom. Trouxe alívio.<br />
<strong> Décimo encontro:</strong></p>
<p>Participantes :  Adriana A, Adriana B , Sandra, Marta, Reinaldo, e Meire<br />
Consignas :<br />
Lembrando o grupo anterior. Falas do grupo:</p>
<p>- O espelho deformado da Sandra,<br />
-	A compra dos oitenta pares de sapato,<br />
-	Experimentando os diferentes tamanhos de barriga com a Adriana B.,<br />
-	A Adriana A leu sua poesia e contou sua estória.</p>
<p><strong>Adriana A</strong> – Ah! Eu vou desmaiar!<br />
<strong>Regina:</strong> &#8211; Encoste sua cabeça. Parece que você está arrumando um jeito de chamar a atenção.<br />
<strong> Adriana A</strong> – Não, eu estou passando mal.<br />
<strong> Regina:</strong> &#8211; “Agora você está melhor?. Então podemos parar de olhar para você.<br />
<strong> Adriana A</strong> – Onde está minha atenção !!!!!!!. (Sorrisos).</p>
<p><strong>Regina:</strong> &#8211; “Como vocês fazem para chamar  atenção?. Cada um vai ocupar esta cadeira ã frente do grupo e mostrar como faz para chamar atenção, e o grupo vai imitar a forma apresentada. Um de cada vez vai sendo o protagonista.<br />
<strong> Reinaldo:</strong> &#8211; “Eu não gosto de chamar atenção. Acho que tem algo errado em mim quando as pessoas me olham. Forma:  caladão, respirando contido, expressão fechada.<br />
<strong> Adriana A </strong>– “Eu não sei chamar atenção. Então foi soltando o cabelo,ficando dengosa, jogando charme.<br />
O grupo mostra para ela sua forma, ela reconhece.</p>
<p><strong>Adriana B</strong> – “Chamo atenção me cortando.</p>
<p>Regina a convida a mostrar como faz. Então ela vai passando a unha sobre o braço como se estivesse usando uma faca. Num primeiro momento diz que precisava de uma faca. Regina diz não, e a convida a fazer o movimento com a mão. O grupo reproduz seu movimento para que ela possa ver. Ela diz que ficou desesperada de ver, mas não sabe fazer diferente.Conta que a irmã ao ver, no outro dia, tapava os olhos dizendo: Não quero ver coisa tão horrorosa.<br />
Regina pede par o grupo repetir em coro muitas vezes a frase enquanto ela simula cortar-se: &#8211; “Não quero ver uma coisa tão horrorosa!”.<br />
<strong> Adriana B:</strong> Fico com vontade de continuar cortando. Passar o dedo de leve com a Regina sugeriu não é bom, porque a dor é importante para mim, alivia minha culpa de comer, porque comer engorda. Eu não posso ser gorda porque ninguém vai me aceitar.</p>
<p><strong>Regina</strong> – “Gostaria que você escolhesse alguém para fazer este movimento suave no seu braço. Enquanto ela estiver tocando você vai repetir: &#8211; Ela está me aceitando mesmo com todos os meus defeitos”<br />
<strong> Adriana B</strong> – “Eu escolho a Adriana A. Ela vai recebendo o contato, enquanto vai repetindo a frase Regina a orienta para colocar a mão sobre a barriga, como se ela estivesse recebendo uma comida boa, que pode fazê-la crescer.<br />
<strong> Regina:</strong> &#8211; “Você diz para si mesma : &#8211; Eu te aceito, &#8211; Eu  te quero bem.</p>
<p><strong>Adriana B.:</strong> &#8211; Isso tudo me acalmou “.</p>
<p><strong>Sandra:</strong> &#8211; “Cabeça baixa, as mãos se apertando. Sentindo-se sozinha, infeliz e angustiada.<strong> Regina diz:</strong> &#8211; “Quando uma pessoa se fecha ela fica sozinha, como seria achar um jeito de colocar as pessoas perto”.<br />
Aparece então um jeito de chamar com os olhos. O peito vai saindo do susto. Ela vai recebendo a solidariedade do grupo. Respirando e olhando, vai ficando emocionada de poder receber.</p>
<p><strong>Meire</strong> – “Eu preciso da atenção do marido 24 horas por dia. Quando ele não pode estar comigo sinto uma angústia enorme,para aliviar eu me bato com objetos, pulo da escada, me enfio em baixo da cama.<br />
Regina a convida a reproduzir o gesto de bater. Ela vai batendo lentamente com o punho fechado na perna. Eu não quero bater, mas não consigo parar. A angústia é maior que o desejo de não me machucar.<br />
<strong> Regina:</strong> Parece que é uma criança que agarra na mãe e não pode deixar ela ir.</p>
<p><strong>Regina:</strong> &#8211; Vamos criar com o grupo em roda um ninho, um berço, para conter e embalar a Meire.</p>
<p>Então o grupo criou uma forma aconchegante de embalar , com movimentos suaves, firmes e redondos, todos muito próximos. Cada membro foi revezando em fazer parte da membrana que dava contorno e ficar no centro do grupo recebendo cuidado e se aninhando. Todos puderam experimentar as duas formas do que acolhe e do que é acolhido.</p>
<p>Trabalhamos o tempo todo com a multiplicação de cenas, aprendendo uns com os outros<br />
Isso ajuda criar validação de si juntamente com uma ecologia onde esses singulares comportamentos funcionam para produzir contato, ajuda, conhecimento, e sobretudo fazem sentido .</p>
<p align="right"><strong> S. Paulo, novembro de 2000.</strong></p>
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		<title>Diálogos: Rogério e Regina</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Apr 2008 15:51:46 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Neste pequeno vídeo, Regina sintetizou os pontos-chave para a compreensão do pensamento formativo.  ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><object width="400" height="300" data="http://vimeo.com/moogaloop.swf?clip_id=750753&amp;server=vimeo.com&amp;show_title=0&amp;show_byline=0&amp;show_portrait=0&amp;color=00ADEF&amp;fullscreen=1" type="application/x-shockwave-flash"><param name="allowfullscreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://vimeo.com/moogaloop.swf?clip_id=750753&amp;server=vimeo.com&amp;show_title=0&amp;show_byline=0&amp;show_portrait=0&amp;color=00ADEF&amp;fullscreen=1" /></object><br />
<a href="http://vimeo.com/750753?pg=embed&amp;sec=750753">rogerio e regina: dialogos</a></p>
<p>Esta é uma longa conversa, que já dura 15 anos. Neste pequeno vídeo, Regina sintetizou os pontos-chave para a compreensão do pensamento formativo. O texto, editado por Beto Teixeira, <a title="Regina e Rogério, fragmentos de uma conversa " href="http://laboratoriodoprocessoformativo.com/pesquisa/regina-e-rogerio-fragmentos-de-uma-conversa-de-15-anos/" target="_blank">está aqui</a>.</p>
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		<title>Regina e Rogerio: fragmentos de uma conversa de 15 anos</title>
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		<pubDate>Thu, 06 Mar 2008 09:47:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Regina Favre</dc:creator>
				<category><![CDATA[O que penso]]></category>
		<category><![CDATA[artigo]]></category>
		<category><![CDATA[biologia]]></category>
		<category><![CDATA[processo formativo]]></category>

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		<description><![CDATA[Os fragmentos apresentados a seguir foram extraídos de registros em vídeo de aulas de Rogerio em meus Seminários sobre Anatomia Emocional. Foram coletados por Beto Teixeira, em suas notas de aula e em transcrições de vídeos do grupo no qual ele funciona como “ escriba” e fotógrafo, e editados por Rogerio e por mim.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Quando comecei o estudo e tradução dos livros de Keleman, em l990, senti de imediato a necessidade de compreender as raízes evolutivas de sua concepção formativa do corpo absolutamente única.<br />
Rogerio Sawaya já era, naquela ocasião, um médico experimentado, um obstetra, introdutor no Brasil do Método Leboyer de parto, filho de um grande biólogo brasileiro. Assim, Rogerio  tinha  uma grande intimidade, desde casa, com a vida e seus processos  e, mais tarde, com as pesadas leituras científicas  as quais, para mim sozinha, seriam inacessíveis.<br />
Por uma feliz coincidência, quando nos encontramos pela primeira vez, ele estava a  procura de um sentido mais profundo para seu interesse no estudo do corpo, que estivesse além do olhar médico. A amplitude e profundidade do olhar de Keleman em relação à vida ao qual o introduzi, tiveram um efeito desconcertante sobre ele.</em></p>
<p><em>Esse foi o começo de uma troca real e produtiva, que se mantém viva e em movimento até hoje<br />
Os fragmentos apresentados a seguir foram extraídos de registros em vídeo de aulas de Rogerio em meus Seminários sobre Anatomia Emocional. Foram coletados por Beto Teixeira, em suas notas de aula e em transcrições de vídeos do grupo no qual ele funciona como “ escriba” e fotógrafo, e editados por Rogerio e por mim.<br />
Beto é bailarino, terapeuta corporal, estudante, colaborador e pesquisador dedicado da minha transmissão kelemaniana. </em><br />
Regina Favre</p>
<p><strong>Regina: </strong>Ao ler, compreender e trazer para nossas vidas a Anatomia Emocional, construímos profundamente um sentimento de sermos parte de um processo maior, de não sermos indivíduos isolados, algo “em si mesmo”. Esse estudo nos possibilita, também, sentir que compartilhamos de um pulso universal, presente desde o Big Bang há cerca de l5 bilhões de anos atrás. Os inputs trazidos por Rogério para nosso estudo contribuem¸ gradualmente, para estimular e alargar nossas possibilidades de auto-reconhecimento como anatomias evolutivas e, consequentemente, aprofundar  nossas possibilidades de auto-manejo.</p>
<p><strong>Rogério: </strong>No final do processo de seleção pré-vital  no planeta, a vida apareceu. E quando surge, a vida fez “recortes no ambiente” particularizando  um ambiente interno, pequenos oceanos individualizados. Nessa ocasião, a vida criou a membrana celular. Em cada célula que apareceu desde então, há mais de 3 bilhões de anos atrás – seja ela uma célula primitiva, como uma bactéria ou uma célula moderna, como as que constituem nosso corpo – é sempre uma membrana que garante sua individualidade.<br />
Pela presença dessa membrana, a célula protegeu-se desde o início da competição de moléculas do ambiente. A célula contém em seu centro os ácidos nucléicos – RNA e DNA – que, até alguns anos atrás, eram considerados apenas como as moléculas que contém o código hereditário. Atualmente, há uma compreensão mais ampla: os ácidos nucléicos expressam as características hereditárias codificando a síntese de proteínas estruturais, essenciais para a formatividade celular.<br />
Nas células mais primitivas – procariócitos – não existia um núcleo como nas células modernas. O RNA e o DNA  delas permaneciam livres e diluídos no citoplasma tornando-se vulneráveis à ação competidora de moléculas da vizinhança. A célula moderna, eucariócito (eu = própria, karion = núcleo) inventa um núcleo com membrana dupla – a estação celular central – onde se aloja o código hereditário que garante a base da formatação funcional, assim como que a vida possa se replicar e prosseguir.<br />
Outra coisa essencial que a vida criou desde o aparecimento das células são os ribossomas, centenas de milhares de minúsculos órgãos celulares, micro-indústrias que manufaturam as proteínas do corpo. É nos ribossomas, por exemplo, que células glandulares produzem, a insulina do pâncreas. De maneira análoga, eles produzem no  sistema imunológico os anticorpos, uma variedade de proteínas que protege o organismo vivo de invasores.<br />
Esta é uma visão básica e muito simplificada da célula, protótipo de todo organismo vivo tal como descreve Keleman em sua Anatomia Emocional.<br />
A membrana celular é constituída de uma dupla camada de moléculas de gordura especiai. Essa membrana é altamente seletiva: não é qualquer substância que é capaz de atravessá-la, do interior para o exterior ou vice-versa.<br />
Existem micro-canais proteicos que atravessam a membrana e alcançam o interior da célula, capazes de selecionar o que entra ou não em seu ambiente interior. Esses micro-canais abrem-se ou fecham conforme as necessidades vitais das células.<br />
A célula pulsa, expandindo e contraindo, concentradamente dentro de sua membrana elástica tal como todos os organismos vivos em toda a escala evolutiva até nós.Esse é o paradigma  da Anatomia Emocional kelemaniana.<br />
Durante o período inicial da evolução, a vida – através de infinitas tentativas e com seu elevado poder morfogenético  &#8211; começou a produzir seres unicelulares, protótipos de sistemas celulares complexos que prosseguiram evoluindo até os seres multicelulares, altamente elaborados, do nosso nível macro. Mesmo em alguns unicelulares, já se delineava uma boca primitiva para capturar partículas nutricionais da vizinhança e um protótipo de tubo digestivo. Em outros, cílios na superfície da membrana celular batiam de modo sincronizado para promover o deslocamento no ambiente. Uma pré-figuração de um micro-sistema neuro-motor, portanto, já estava presente nessa ocasião.<br />
A vida, dessa maneira, em seu impulso formativo, tentou repetidamente, diversificou-se e atingiu um limite com os seres unicelulares. Para continuar a explorar eficazmente o ecossistema, a vida conectou células-irmãs com células-irmãs formando colônias como, por exemplo, as esponjas marinhas. Colônias multicelulares tornaram-se mais complexas e aprenderam a fazer uma divisão de trabalho, com a finalidade de captar melhor as reservas energéticas e nutricionais do ambiente. Esse conjunto de eventos vitais foram sempre dirigidos pela seleção natural darwiniana na qual as formas mais aptas prosseguem.</p>
<p><strong>Regina:</strong> Gostaria de falar à respeito do conceito de fitness  que, acredito, teve uma interpretação errada , sendo identificado apenas como a lei do mais forte. Mais fitness não é somente ganhar a competição por espaço e alimento. É também, e principalmente, ter mais capacidade para fazer conexões com os ambientes, sejam estes grandes ou pequenos. Nessa visão, podemos considerar que naquele momento da evolução, as formas unicelulares que sobreviveram foram aquelas com mais conectividade e capacidade para juntarem-se em colônias.</p>
<p><strong>Rogério: </strong>Fitness tem que ser entendida também como uma das características fundamentais para a continuidade e difusão da vida: ser mais complexo, ter uma complexidade biológica crescente não apenas em sua forma corporal mas também em suas estratégias para adaptação ao ambiente. É óbvio que um grupo de células que se une e efetua uma divisão de trabalho tem um grau maior de complexidade, favorável à construção de uma sociedade em adaptação.</p>
<p><strong>Regina:</strong> Em inglês o verbo “ to fit “ significa estar na medida certa, como um pé cabe num sapato e vice-versa. É a fitness mútua, a conectividade de formas, aquele que se encaixa. Desde o início do impulso vivo, acredito, há o problema de encaixe ou não. Está presente a situação de cooperação, da reunião de forças para produzir algo no e com o ambiente.</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> É sempre a interação. Em qualquer nicho ecológico interação é fundamental e necessária para formar e manter a organização e complexificação de qualquer sociedade celular.</p>
<p><strong>Regina:</strong> Podemos ver isso no caso da molécula de carbono, auto-selecionada na natureza como a mais eficaz na produção da química dos compostos orgânicos, exatamente por sua alta capacidade de conexão. A idéia de algo que conecta em cooperação é muito interessante. Conectando em cooperação ou desconectando em competição: isso é a outra face da mesma moeda. Separação ou união, competir ou cooperar, mas sempre relacionado a alimentar mais, a produzir mais vida e, portanto, conseguir energia para  que os processos vitais celulares prossigam,  construir com mais potência as redes vivas.</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> Mais vida, mais capacidade para formar, com mais potencial para sobreviver, alimentar-se e reproduzir. Nesse processo surgiu uma evidente vantagem: a vida ganhou condição para explorar áreas dos nichos ecológicos até então inacessíveis a ela.</p>
<p><strong>Regina: </strong>O  investimento da vida prossegue  selecionando formas com a capacidade de se auto-sustentarem e de reagir às forças de entropia – formas de vida selecionadas que resistem às forças da desorganização no ambiente.</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> Isso significa que a vida continua a experimentar e criar diferenciações nesses organismos, favorecendo suas próprias forças de sustentação contra as tendências homogeneizantes do ambiente. A vida é auto-formativa na medida em que enfrenta desafios, mantendo-se num equilíbrio dinâmico. Ao proceder assim ela garante a singularidade de sua forma no interior do ambiente que continuamente tenta absorver o ser vivo para o caos primordial da entropia.</p>
<p><strong>Regina:</strong> Aqui temos duas idéias. Primeira, manter essa capacidade de auto-construção a partir de si mesmo e do vivido, alimentando um processo interno. Segunda, a idéia de uma clausura operacional &#8211; como diz Francisco Varela  similarmente a Keleman &#8211; em que a membrana protege um funcionamento interno totalmente individual, onde processos auto-poiéticos ou auto-construtivos tem lugar. Há permeabilidade, há passagens, mas tudo muito bem regulado para garantir que esse funcionamento aconteça e mantenha a si mesmo em equilíbrio dinâmico.<br />
Podemos encontramos a idéia de precisão máxima nessa viagem ao interior do micro que você está proporcionando a nós. Inicialmente, podemos avaliar a dimensão da força que dispara a si mesma no universo com o evento do Big Bang – percebemos que essa  é a mesma força que vem se diferenciando na expansão do universo e  se diferenciou em cada organismo  no processo evolutivo da biosfera. A partir desse ponto, podemos  ver que a vida tem um potencial fantástico para expressar e criar gradualmente aquilo que se cabe ou adapta-se(fits), mais conectividade e mais capacidade para cooperar. O outro aspecto importante é como essa organização precisa está presente nos mínimos detalhes também sempre em auto seleção segundo o critério de mais  funcionalidade em rede. Essa compreensão pode ser estendida ao self, aos diferentes ambientes, à interação entre os corpos e as pessoas. É maravilhoso começar a compreender Keleman a partir deste ponto de vista. Penso que essa é uma pré-condição para conseguirmos um melhor aproveitamento deste livro, Anatomia Emocional, tanto do ponto de vista contemplativo como do operacional.<br />
Ao longo das leituras veremos o “aumento de excitação que requer mais forma”: formas que se organizam a si próprias para serem capazes de dar suporte a mais interações e operações internas, capazes de percorrer mais etapas em termos de organizar a excitação em formas e ações e, assim, poderem expandir e estabelecer mais conexões.<br />
Em termos de biosfera e ecossistemas, formas mais simples compõem-se com formas mais complexas. Nem tudo precisa ser complexo. Bactérias, por exemplo, tem se mantido  como formas simples por muito tempo, funcionando bem e cooperando com o sistema. Existem outras formas, porém, que seguiram uma linha de complexificação e que dispõem de um amplo espectro muito mais amplo de ação e conexão. Neste caminho evolutivo, as formas mais simples continuam interagindo em diferentes níveis, continuamente, com as formas mais complexas.</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> É isso mesmo! Concordo com você. Bactérias existem há mais de 3 bilhões de anos (fósseis delas foram encontrados na África e Austrália). Elas são formas de vida primitivas e muito simples capazes de se replicar rapidamente – algumas espécies duplicam sua população em apenas 20 minutos &#8211; e apresentam um tipo de organização muito bem sucedido. Uma grande realização! Poderíamos considerar, talvez, que a vida não teria que ultrapassar o nível procariócito para ocupar, completamente, os variados ecossistemas da biosfera. A vida, entretanto, foi forçada a diferenciar-se de maneiras muito mais complexas.<br />
Isso explica a criação de eucariócitos, sua associação para construir o corpo macro de plantas e animais multicelulares cuja última etapa foi o surpreendente desenvolvimento de nosso único neo-córtex, que diferenciou o Homo sapiens do resto. Os modelos biológicos de estruturas mais simples, porém altamente bem sucedidas, mantém-se como tal até hoje. Hemoglobina é um bom exemplo. É uma molécula orgânica complexa que transporta oxigênio para os diferentes tecidos e foi inventada há muito tempo na escala dos vertebrados. Na medida em que a vida atinge o modelo correto ela mantém esse modelo, acrescentando outras estruturas para conquistar novos nichos para exploração, experimentação e produção de vida.</p>
<p><strong>Regina:</strong> Como a vida consegue garantir um design estável para o corpo de cada espécie?</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> Para poder transmitir as características hereditárias de cada espécie, a vida criou o elegante modelo químico de apenas quatro bases nitrogenadas que constitui o RNA e o DNA. Essas quatro bases são as letras do imenso alfabeto genômico, com bilhões de componentes – o código hereditário para todos os seres vivos. Esse dispositivo biológico está presente nas bactérias primitivas e manteve-se até a forma mais complexa de vida, o Homo sapiens. É o mesmo modelo fundamental que a vida inventou e continua a repetir até a atualidade.<br />
Esse modelo formativo, entretanto, não é suficiente para preencher as exigências concretas para a elaboração das estruturas dos organismos. A contribuição do impulso genético inicial na formação dos corpos é limitada. Dezenas de milhares de genes são insuficientes para induzir a formação completa das estruturas anatômicas que compõem um corpo adulto. No caso  do Homo sapiens, por exemplo, sabemos, a partir do ano 2.000, que apenas cerca de 30.000 genes são os indutores básicos do desenvolvimento dessas estruturas. Essa contribuição fundamental é claramente insuficiente para que a formatividade dos corpos se complete.<br />
Um processo adicional é responsável pela continuação do impulso formativo inicial dos organismos vivos induzido pelos genes. É o chamado impulso epigenético (etimologicamente, além da genética) em que comunidades de células competem entre si nos diferentes locais em que novas estruturas corporais são criadas. Nessa competição – que obedece as regras da seleção natural de Darwin – os grupos celulares mais aptos predominam no estabelecimento das novas estruturas anatômicas. Esse processo implica em divisão, diferenciação e movimento de células desses agrupamentos, além da morte das células com menos fitness para determinada situação formativa. Na formação do sistema nervoso, por exemplo, o processo epigenético atua potentemente descartando até 70% das células envolvidas na laboriosa atividade de esculpir suas estruturas. O termo Topobiologia foi criado por Gerald Edelman para descrever essas atuação local dos grupos de células, indispensável na formatividade dos corpos dos seres multicelulares<br />
Na embriogênese, os agrupamentos celulares com mais aptidão tem influência , por sua vez, sobre os genes que deram o impulso inicial para a formação das estruturas. Dessa maneira, as estruturas em formação nos diferentes locais do organismo modificam os impulsos iniciais dos próprios genes. Esse processo de estimulação de ida e volta explica, basicamente, a formação das diferentes estruturas envolvidas na constituição do corpo.</p>
<p><strong>Regina:</strong> Um ponto importante para nós é esse paralelismo seletivo, em nível genético e local, que a Topobiologia considera. Isso significa que existe um programa genético inato mas que as demandas do vivido, esse ir e voltar entre genes e grupos celulares, determinam modificações nas estruturas que estão em formação. Mesmo programas neurais inatos, por exemplo, são selecionados segundo o uso de si mesmo por si mesmo (self use).</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> É o mesmo processo de ida e volta, reciprocamente influenciando o desenvolvimento da ação e da formação estrutural. É semelhante à  imagem de Escher da mão que desenha a si própria e, ao mesmo tempo, é desenhada pelo próprio desenho.</p>
<p><strong>Regina:</strong> Neste ponto, há uma questão crucial no processo formativo: o vivo solidifica a si mesmo e, ao mesmo tempo, a solidificação do vivo molda as condições do devir do próprio processo.</p>
<p><strong>Rogerio: </strong>A formação do corpo dos seres multicelulares tem certa analogia com a passagem de seres unicelulares, como bactérias e protozoários, na constituição de colônias, comunidades de corpos unicelulares.<br />
<strong><br />
Regina:</strong> É importante dar ênfase à idéia de pool, ambiente e cooperação. Acho que o processo evolutivo, do nível unicelular à organização multicelular, estabelece desde o momento inicial um princípio de cooperação, ambientalização e divisão de trabalho.</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> Sim, podemos ver esses princípios controlando a atividade celular na formação dos diferentes tecidos, agrupamentos de células que, compõem os diversos órgãos que formam as estruturas do corpo macro. A formação dos tecidos ocorre durante o período de embriogênese em que, a partir de uma única célula mãe, a célula-ovo, duzentas variedades diferentes de células competem no estabelecimento quase definitivo dos tecidos que compõem o corpo humano.<br />
O corpo do embrião de duas semanas de vida é constituído por apenas duas camadas de tecidos primitivos: o ectoderma, que origina o envoltório externo do corpo e o endoderma que vai formar a camada que forra o interior de órgãos internas. Ambos são tecidos primitivos de natureza epitelial, lâminas de células idênticas fortemente ligadas entre si. Em termos evolutivos, são os tecidos embrionários que apareceram mais cedo. As esponjas marinhas, por exemplo, o grupo animal mais antigo na escala filogenética, são formadas apenas por essas duas camadas e seus derivados.<br />
O ectoderma dá origem à epiderme, a camada mais superficial da pele, camada de proteção e contato e ao tecido nervoso, agrupamento dos bilhões de células nervosas (neurônios) que formam a estrutura essencial de todo o sistema nervoso. O endoderma, por sua vez, origina o epitélio especializado em absorção  &#8211; encarregado da captação de nutrientes – que forra o interior de grande parte do longo tubo digestivo. Outro derivado do endoderma é o endotélio, camada mais interna de artérias, veias e linfáticos.Os brônquios também são forrados por um epitélio derivado do endoderma (grande parte do aparelho respiratório, especializado na captação do oxigênio, que oxida os nutrientes na produção de energia para as células do organismo, origina-se do aparelho digestivo).  Durante a embriogênese, células aderem entre si cooperando para formar lâminas de epitélio (epiderme),  lâminas se enrolam para formar tubos (tubo digestivo, tubo neural, que dá origem à medula espinhal, brônquios, ureteres) e tubos se dilatam para formar bolsas (estômago, bexiga urinária) como descreve Keleman num olhar inédito e magistral. Ao colocar o pulso – ondas de excitação – dentro desse extenso continente epitelial, o autor de Anatomia Emocional nos proporciona uma maravilhosa visão sistêmica. Dessa maneira, na trajetória dinâmica das células para o corpo macro,  Keleman, além da nova  abordagem, nos liberta da prisão da anatomia descritiva estática e do corpo patologizado da medicina.<br />
A terceira camada embrionária primitiva – o mesoderma – desenvolve-se entre o ectoderma e o endoderma. Dessa camada originam-se os diferentes tecidos (tecidos  cartilaginoso, ósseo, muscular) encarregados de sustentar a forma do corpo, a postura, ações e locomoção. Outro derivado do mesoderma é o abundante tecido conjuntivo (antigamente, tecido conectivo) que faz a conexão entre todos os órgãos do corpo e por onde transitam nervos e vasos que comandam e alimentam esses órgãos. O tecido conjuntivo também tem uma participação fundamental na formatividade do corpo – é o órgão da forma, de Francisco Varela – além de atuar nos movimentos sob a especialização das fáscias e tendões.</p>
<p><strong>Regina:</strong> A conquista do planeta e a criação cooperativa da biosfera implicou na aquisição de novas fontes de nutrientes e energia para os organismo crescentemente mais complexos.<br />
Você pode nos dizer como isso aconteceu?</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> Uma célula viva é um sistema isotérmico de moléculas que se auto-agregam, se auto-ajustam e se auto-perpetuam. Esse sistema extrai energia livre e matéria prima de seu ambiente (Lehninger). A energia para os processos vitais da maioria das células da biosfera é captada da radiação solar, através do processo da fotossíntese efetuado pelos vegetais verdes. Nesse processo, elétrons de origem solar são utilizados na elaboração de pequenas moléculas com alto conteúdo de energia química –especialmente o ATP &#8211; as fontes básicas de energia utilizadas pelos seres vivos. Os vegetais encarregam-se, também, da produção dos nutrientes básicos – como a glicose, formada a partir apenas de água e gás carbônico, e compostos que contém nitrogênio extraído do ar, os aminoácidos, constituintes essenciais das proteínas. Dessa maneira, as humildes plantas encarregam-se totalmente da etapa inicial, obrigatória, do extenso processo de fornecimento de matéria prima do ambiente para os seres vivos. Os nutrientes oferecidos pelas plantas são oxidados no interior das células de animais e dos próprios vegetais para a produção da energia química essencial para os processos vitais. Outros nutrientes são re-elaborados quimicamente pelas células para a produção de substâncias diversas, como hormônios e anticorpos, além da síntese das importantes proteínas filamentares utilizadas na construção das estruturas celulares e, em última instância, no estabelecimento da forma macro dos corpos multicelulares.</p>
<p><strong>Regina:</strong> Essa idéia formativa, seletiva e cooperativa tem uma importância capital não apenas numa existência mas como algo que permeia tudo que existe desde o Big Bang e que, etapa por etapa, avança para diante em camadas de organização. É uma reunião de pulsos organizados dentro de uma dada arquitetura. É evidente como, a partir da célula até a formação de tecidos e camadas, os mesmos princípios atuam.É uma organização que, tanto no micro quanto no macro, é auto-pulsante, auto-formativa, tem uma membrana, um interior e um exterior, cresce e desenvolve camadas ao longo do tempo, tornando-se mais complexa.<br />
A continuidade é ininterrrupta. Todas essas micro-etapas, os “entre”, a formação de uma coisa a partir de outra, são selecionadas e precisas. No interior desse processo os seres vivos tentam construir diversas estratégias para prosseguir. Observando a potência do vivo, percebemos o quanto a vida luta para manter-se. A vida tem essa força porque é dotada de fantásticos sistemas de segurança, em todos os níveis, para evitar tudo aquilo que pode desagregar seus componentes. Isso pode nos transmitir uma confiança extraordinária na vida.</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> Um exemplo claro dessa afirmação é o DNA nuclear, muito bem protegido por esse cofre celular central, o núcleo. A molécula do DNA  tem um sistema auto-reparador que entra em ação quando ocorre uma fragmentação em uma de suas extremidades. O DNA se auto-repara continuamente para preservar o código hereditário e a síntese de proteínas pela célula, para dar suporte à potência formativa, para ser capaz de resistir e prosseguir, mesmo em condições adversas.</p>
<p><strong>Regina:</strong> Quando você diz que o DNA se auto-repara continuamente para manter-se idêntico a si mesmo, isso é o que fazemos, como corpos humanos, para prosseguir apesar dos fatores que agridem nossa  integridade. O mecanismo do reflexo do susto atua nesse dispositivo de proteção. A capacidade de desorganizar esse reflexo que o córtex motor e os músculos estriados em conjunto proporcionam é uma continuidade desse sistema primário de auto-reparação.</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> Quando falamos de estrutura funcionante podemos considerar o micro e compreender algo a respeito do sistema neuro-motor. No sistema muscular, os componentes essenciais são  moléculas de proteína – actina e miosina – que se encadeiam para formar longos filamentos, verdadeiros polímeros biológicos. A contração muscular, em última instância, em nível molecular, depende do deslocamento de finos filamentos de actina sobre um filamento grosso de miosina, promovido pela alteração da geometria espacial dessas moléculas.</p>
<p><strong>Regina:</strong> Em meados dos anos 90, Stanley me introduziu aos livros de Gerald Edelman em neurociência. A visão de Edelman pertence à mesma família de idéias darwinianas que as concepções formativas de Keleman. Na realidade, os conceitos de Edelman ressoam com a concepção de “a mente do corpo e o corpo da mente” de Stanley, elaborada já em meados dos anos 70. Foi uma sorte incrível, Rogerio, contar com você na ocasião para decifrar o texto de Edelman. Atualmente, essas idéias estão totalmente incluídas em nossas aulas e discussões nos seminários de Anatomia Emocional. Passemos a demonstrar, então, como seleção e conectividade estão presentes, também, no Darwinismo Neural de Edelman.</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> Nos dias atuais, em neurociência,  a conceituação mais ampla, unitária e bem aceita em relação ao sistema nervoso é a Teoria da Seleção de Grupos Neuronais (TNGS) proposta por Edelman em l979. Nessa teoria, ele tenta explicar toda a estruturação e funcionamento do sistema nervoso humano através de apenas três postulados básicos. Sua teoria chega a tentar um delineamento anatômico e funcional para explicar a consciência. Como Keleman, Edelman  também,trabalha com uma visão unitária corpo-mente.<br />
Em síntese, os três postulados da TGNS consideram: l) o estabelecimento da neuro-anatomia do cérebro durante a embriogênse; 2) as modificações funcionais dessa rede neural promovidas pela experiência durante uma história de vida; 3) o conceito de reentrância – um processo de sinalização recíproca entre neurônios de diferentes grupos (mapas neurais) – o mais importante dos tres postulados, para nós, na leitura de Keleman.<br />
O primeiro postulado considera o estabelecimento das características neuroanatômicas de uma dada espécie. Leva em consideração o processo seletivo na vida intra-uterina, em que grupos de neurônios competem com outros grupos (competição topobiológica) para construir as estruturas neurais. Nessa competição, 70% dos neurônios chegam a morrer em certos locais do sistema nervoso, como mencionado anteriormente. O resultado desse processo seletivo – o estabelecimento da rede neural no sistema nervoso central – é denominado repertório primário.</p>
<p><strong>Regina:</strong> Eu gostaria de enfatizar essa conceituação do ponto de vista evolutivo. Você está considerando algo que, em nossa compreensão, está presente no pensamento de Keleman, todo o tempo. Acontece esse primeiro momento, embriogênese, em que o sistema nervoso da espécie é esculpido com o melhor material disponível. Essa é nossa herança anatômica, a rede neural básica do corpo dado da espécie. Em relação com o que você está dizendo – esta espécie de esculpimento em que 70% dos neurônios laboriosamente produzidos são descartados – eu percebo a visão de Keleman sobre inibição. Isso significa que ocorre uma inibição de tudo aquilo que efetivamente não tem utilidade para emergir, daquilo que é menos funcional para a situação, que tem menos potência. Neste caso, tudo o que não tem potência no contínuo devir de um corpo é inibido.</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> Em termos neurais, ocorre sempre uma inter-relação entre inibição, bloqueio e a força que você e o Keleman costumam lembrar, a excitação. Todo o funcionamento do sistema nervoso, do primeiro neurônio mais simples até a estrutura mais complexa, como o neo-córtex, implica inibição e excitação. Essa dualidade funcional é básica  para a compreensão de como funciona o sistema nervoso é também  um conceito de importância capital na visão kelemaniana.</p>
<p><strong>Regina:</strong> Podemos ver, facilmente, como o pensamento e a prática desenvolvidos por Keleman são totalmente coerentes com o pensamento evolutivo: todo o funcionamento do sistema nervoso é seletivo. O comportamento, o traço, a ação emergem se é silenciado o que não é mais funcional. Ou, ainda, que seja inibido o que não se adapta a um propósito específico. A visão de Keleman da produção de corpo é relacionada de perto a essa inter-relação inibição-excitação. Para mim, Keleman tem coerência em toda sua visão, onde a prática tem uma relação direta com o que ele pensa desde o nível genético, passando pela embriogênese, pelo nível experiencial do corpo topobiológico ao longo de uma vida em particular desde o nível de mapas neurais até interações sociais.</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> O segundo postulado da TNGS afirma que – depois que a rede neuroanatômica, o repertório primário foi estabelecido – irá ocorrer uma seleção funcional nessa rede, como resultado das experiências pessoais de uma história de vida. Sobre a rede neural estabelecida no corpo inato da espécie incidirá uma ação seletiva de tudo o que é mais usado, mais estimulado, que terá como resposta do sistema nervoso uma intensificação da força sináptica (sinapses, espaços na conexão de neurônios, que o impulso nervoso atravessa com maior ou menor potência). O reforço na transmissão do impulso através das sinapses, pelo uso repetido dessa via, facilita a passagem dos  impulsos nervosos subseqüentes. É algo comparável ao uso preferencial de uma trilha, entre outras, no interior de um campo. A trilha mais utilizada mantém-se em melhores condições do que as demais, facilitando a ulterior passagem de caminhantes. A rede neural inata, característica de cada espécie, sofrerá, dessa maneira, o reforço de diferentes grupos sinápticos, diferentes vias neurais, tornando-se específica para cada indivíduo, conforme as experiências de vida que acumulou. Essa modificação da rede neural original, o repertório primário, foi denominada repertório secundário. É este repertório que proporciona as características únicas de cada um de nós.</p>
<p><strong>Regina:</strong> De acordo com esse segundo postulado da TGNS, têm importância as sinapses que foram selecionadas e não mais a rede primária de neurônios. Ou seja, contam mais as conexões inter-neuronais que melhor facilitam a experiência de vida do organismo em desenvolvimento, num ambiente particular. Estamos considerando aqui o material, em nível celular, que constitui o cérebro, o que conecta melhor com o que para a construção de vias de excitação e, dessa maneira, suporta melhor a vida num organismo específico na biosfera. Existe sempre um número variável de vias potenciais e possibilidades. Algumas são mais utilizadas do que outras.</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> O terceiro postulado da TNGS, certamente o mais importante, relaciona-se com a conexão de mapas neurais – agrupamentos de neurônios, em distintas áreas cerebrais, inter-conectados e atuando na mesma função neural. Um mapa neural é relacionado com a visão, por exemplo, outro com o tato. Uma única função neural pode exigir a conexão de vários mapas. É o caso do sistema visual de macacos que, segundo Edelman, dispõe de mais de 30 diferentes mapas neurais, cada um deles com certo grau de segregação funcional &#8211; para forma, contorno, cor, movimento, entre outros.</p>
<p>O terceiro postulado considera a interconexão entre mapas neurais de diversas funções neurais, por meio de conexões numerosas, paralelas e recíprocas. Esse tipo de interação é chamado reentrância,sinalizações reentrantes ocorrendo ao longo dessas conexões. Isso significa, segundo Edelman, que, na medida em que grupos de neurônios são selecionados em um mapa, outros grupos reentrantemente conectados à diferentes mapas, podem ser selecionados na mesma ocasião. Correlação e coordenação desses eventos seletivos  são conseguidos por sinalização reentrante, pelo fortalecimento de interconexões entre os mapas dentro de um segmento de tempo. Mapas neurais, portanto, são estruturas dinâmicas, não estáticas e definitivamente estabelecidas, que variam com o tempo. Uma premissa fundamental da TGNS é que a coordenação seletiva de padrões complexos de interconexão entre grupos neuronais pela reentrada é cartográfica.</p>
<p><strong>Regina:</strong> Através da aprendizagem, quer dizer, través das experiências devidamente assimiladas, há uma cooperação entre redesque começam a interagir paraproduzir outro design, outra cartografia. A novidade dessa visão reside na seleção e cooperação de mapas neurais porque na vida adulta não ocorre mais a produção de tecido neural, apenas a intensificação de sinapses e novas interconexões de mapas. O foco de Keleman, em seus últimos papers, localiza-se totalmente na potência sinaptogênica (reentrância) de sua prática formativa, o método dos cinco passos.</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> Depois do nascimento, não ocorre a criação de novos neurônios, apenas a perda contínua dessas células (com a possível criação de neurônios na vida adulta, a partir de células-tronco). A cada dia milhões de neurônios são destruídos.</p>
<p><strong>Regina:</strong> Isso é a otimização do patrimônio neural – a reentrância de mapas que esculpem novas possibilidades através de novas combinações sinápticas.</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> A visão clássica de que existe uma hierarquia no sistema nervoso em que estruturas neurais recentes, do ponto de vista evolutivo, como o neo-córtex, por exemplo, controlariam todo o sistema nervoso perderam o sentido com o conceito de mapas reentrantes. Nessa nova visão, em última instância, o que denominamos “eu” é determinado por mapas reentrantes globais que funcionam com uma fantástica dinâmica, sujeita à mudanças no tempo e através do aprendizado.</p>
<p><strong>Regina:</strong> O “eu” é uma construção de mapas reentrantes em ação, temporariamente estabilizados, produzindo vida de uma certa maneira, em determinado ambiente. Na realidade, existem múltiplos selves, como diz Keleman e outros autores contemporâneos – para eles não faz sentido a idéia de um self monolítico. É na reentrância que acontece o que ainda não existe.Quantos mapas reentrantes são necessários para produzir uma modificação ou um novo comportamento?Apertar as mãos, por exemplo. Implica na conexão de duas áreas que tem sensibilidade, uma organização motora, um pulso, uma excitação – então um comportamento é estabelecido. Como é um aperto de mãos firme? Como é apertar mãos com sedução? Como é apertar as mãos com autoridade ou restrição? Cada um desses comportamentos se afirma quando você o repete. É o comportamento resultante da combinação de mapas motores com mapas tácteis, com mapas de temperatura e assim por diante. Trata-se de uma moldagem excitatória que organizamos em nós com uma série de variações, ou seja, muitas reentrâncias.</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> É o que ocorre quando se modifica a propriocepção, sensibilidade articular e muscular profunda, por exemplo, em que usamos terminais de sensibilidade diferentes.<br />
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Regina : Como também ao regular o tônus muscular e distinguir diferentes qualidades da ação. Podemos compreender, então, que o comportamento é constituído de itinerários, possibilitando-nos uma narrativa. A recombinação que acontece na forma nos força a organizar reentrâncias para poder assimilar novas intensidades e tornar-nos capazes de interagir com esses novos fluxos. Essa operação produz camadas únicas e reentrâncias novas.</p>
<p><strong>Rogerio:</strong> Acho fantástica essa passagem que você acabou de fazer e que o Keleman fez, com brilho, em seu trabalho. A biologia molecular e a neurociência, com todo seu poder interpretativo, não conseguem ultrapassar seus limites para falar do corpo em sua configuração pessoal.Keleman, com sua teoria e prática, em sua visão ampla, conseguiu fazer essa passagem. Isto é Anatomia Emocional.</p>
<p><strong>Regina:</strong> Quando ele aplica diretamente essa biologia molecular e neurociência darwiniana ao processo vivido por pessoas, podemos perceber claramente do que a vida é feita. Compreendemos, também, como complexidade e biodiversidade subjetivas podem ser estimuladas e cuidadosamente moldadas. Tudo isso está em direta relação com a continuidade da produção de corpos. Quanto mais diversidade e organizações neurais motoras tivermos, mais eficientes como um soma subjetivo seremos. Esse é o dom evolutivo para cada um de nós para ser usado ao longo uma vida.</p>
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